"Quem é autarca uma vez quer continuar a sê-lo"

Quatro candidatos (PS, PSD, CDU e CDS-PP) que já foram presidentes de câmara durante vários mandatos explicam as motivações que os levam a concorrer noutros municípios.

O local de residência de um candidato costuma ser arma de arremesso político nas autárquicas. Mas Paulo Teixeira tem uma resposta rápida: "Não escolhemos o sítio onde nascemos nem o sítio onde morremos, mas podemos escolher aquele onde queremos trabalhar." Paulo Teixeira (CDS-PP) é um dos candidatos ouvidos pelo DN em municípios diferentes daqueles onde residem e dos que já governaram antes: o centrista foi presidente em Castelo de Paiva e concorre em Marco de Canaveses; Gabriela Tsukamoto (CDU) liderou Nisa e avança no Crato; Joaquim Raposo (PS) dirigiu a Amadora e candidata-se em Oeiras; Fernando Seara (PSD) geriu Sintra e apresenta-se em Odivelas.

Mas porque é que quem já foi presidente de câmara concorre noutros municípios e até por outros partidos? É por causa do bichinho de ser autarca? Pelo interesse do partido? Por dedicação à causa pública? Ambição pessoal? Os quatro lideraram autarquias em vários mandatos seguidos e todos poderiam concorrer aí por já não estarem impedidos. Porém, só Joaquim Raposo enfrentaria um recandidato do mesmo partido (a socialista Carla Tavares).

"Não voltaria a concorrer onde o PS tem poder, uma pessoa competente e que fui preparando para ser presidente", explica Raposo, lembrando que "também há um ditado popular que diz que "uma pessoa não é feliz duas vezes no mesmo sítio"". O deputado diz o que o motiva: "Quem é autarca uma vez não deixa de querer continuar a ser", o desafio do PS-Oeiras, o haver lacunas para as quais tem "um conjunto de projetos" e, ainda, uma ligação afetiva, ter ido residir aos 5 anos, em 1959, para o concelho de Oeiras, num local que muitos anos depois passou a pertencer ao da Amadora.

A viver em Carnide, Raposo é taxativo quanto a mudar-se para Oeiras: "As pessoas têm de ser sérias e isso seria uma forma de enganar o eleitorado." Porém, recorda, "partilhei empresas com Oeiras" enquanto autarca na Amadora, desde serviços de água ao saneamento. Depois "tive a oportunidade, na Área Metropolitana [de Lisboa], de discutir os problemas de municípios que não vivem isolados". Por fim, "tenho um conhecimento [de Oeiras] que advém da experiência política de pôr uma câmara a funcionar", dado ter presidido a um executivo onde "todos tinham pelouros".

Fernando Seara é o único que já concorreu em dois concelhos (Sintra e Lisboa). Mas agora o desafio é outro, mais emotivo e de superação existencial: "É uma motivação de vida!", exclama, depois de ter recuperado de um problema de saúde. "O convite das gentes de Odivelas, que demonstraram querer a minha experiência de Sintra e o meu conhecimento de Lisboa" para lidar com os problemas do concelho, foram outro fator de estímulo, diz Seara. Lembrando que o limite entre Odivelas e Sintra "é uma rotunda" a dividir Caneças de Vale de Cambra, o vereador na capital assinala: "Neste tempo de descentralização é necessário ter uma visão metropolitana e é preciso ter uma voz forte" nesse plano.

Também "nunca tive uma visão partidária dos problemas autárquicos ou metropolitanos, e em Sintra dei pelouros" aos vereadores do PS ou da CDU, frisa Seara, dizendo estar fora de questão mudar-se para Odivelas. "Nunca mudei [de Lisboa para Sintra] e sempre fiz o IC19 durante 12 anos, como hoje faz o Basílio Horta" - o que lhe permitia, lembra, ter presente os problemas de mobilidade dos munícipes.

Gabriela Tsukamoto explica concorrer ao Crato com o "percurso de vida" inerente às opções académicas, profissionais e políticas: "Venho de Torres Vedras, tirei o curso de Engenheira Agrícola com especialidade em desenvolvimento rural e vim trabalhar para a zona demarcada do queijo de Nisa." Conhecedora da Beira Baixa e Alto Alentejo, aceitou o convite da CDU por aliar "o objetivo do trabalho político ao desenvolvimento do interior". A quem diz que "os mais capacitados saem do interior", contrapõe: "Se o são que trabalhem pelo interior, mostrem que existe gente no interior capaz para mudar esta situação alarmante de perda de população para o litoral."

Acresce a intenção de "permitir que os mais jovens progridam" e ganhem autonomia. Para isso aposta na "conectividade digital", a fim de facilitar a instalação de serviços e fixar os pouco mais de 300 jovens (entre os 20 e 25 anos) do concelho. E mudar de residência? "Não sei. Tudo depende. Vivo em Nisa, tenho ligação a Torres Vedras e os filhos em Lisboa, estou a fazer o doutoramento" na capital (em Gestão do Território e Modelos de Governação)... "estamos num mundo global", conclui.

Paulo Teixeira, que em 2009 perdeu a Câmara de Castelo de Paiva "por oito votos" e desde então optou pelo setor privado, vive junto à ponte de Entre-os-Rios - cuja trágica queda em 2001 lhe deu projeção nacional - e garante ser-lhe "mais fácil ir beber um café à primeira freguesia do concelho de Marco de Canaveses do que ir à sede" daquele que presidiu durante 12 anos. Apesar de convidado a recandidatar-se pelo PSD do seu concelho, o advogado e consultor de empresas optou pelo "desafio de Marco de Canavezes".

Sendo há anos sócio honorário de uma instituição desse concelho, Paulo Teixeira evoca Mário Soares: "Sou um cidadão do mundo, gosto de trabalhar para as pessoas e com as pessoas. É a minha maneira de estar, gosto de fazer o que fiz [como ser vice-presidente de um clube desportivo ou presidente da assembleia geral de uma empresa pública] e a atividade política é uma delas." Por fim, admite a sorrir, a "questão sentimental" também teve peso: "Comecei a namorar com a minha mulher numa discoteca do Marco."

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