PS preparado para contra-atacar, se for caso disso

Rocha Andrade vai hoje à comissão de Finanças. Se o "Galpgate" surgir, o PS já tem um argumentário pronto a disparar

Os partidos estão a preparar-se para o debate do Estado da Nação, quarta-feira - e já se sabe que a demissão de três secretários de Estado por causa do chamado "Galpgate" será mais um tema quente a somar-se aos que já estavam na agenda: o incêndio de Pedrógão Grande e o desaparecimento de material militar em Tancos.

Hoje, pelas 11.00, começará no Parlamento uma reunião que poderá constituir-se numa espécie de primeiro ensaio para perceber como é que a oposição PSD/CDS irá explorar o caso que levou à queda de Rocha Andrade, João Vasconcelos e Jorge Costa Oliveira. A comissão parlamentar de Orçamento e Finanças (COFMA) tem na agenda a discussão do relatório da Autoridade Tributária sobre o "apagão" dos offshores e um convidado agora muito especial: um dos demissionários, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Fernando Rocha Andrade.

Este já está preparado para ser interpelado sobre a história que o levou a demitir-se (aceitou no verão do ano passado ir ver jogos da seleção portuguesa a França a convite e com tudo pago pela Galp, empresa que tem com o fisco um litígio já muito superior a 200 milhões de euros). Mas também definiu que sobre o assunto nada dirá - tentará resumir as suas intervenções ao tema da reunião, os offshores.

Quem também está preparado para contra-atacar é o PS. Os socialistas não esquecem que nesse verão não foram os únicos a ir a França pagos por uma empresa. Na altura ficou também claro que pelo menos três destacados deputados do PSD fizeram o mesmo. Só que o empresário que convidou foi outro: Joaquim Oliveira, proprietário da Sport TV e acionista da Global Notícias Media Group, a holding dona do DN, TSF, JN e O Jogo. Esses deputados foram Luís Montenegro (atual líder parlamentar), Hugo Soares (que vai suceder dentro de dias a Montenegro na chefia da bancada) e Luís Campos Ferreira. Na ótica do PS, estes três casos retiram ao PSD margem para criticar a atuação dos secretários de Estado demissionários e do chefe de governo.

Ontem a Procuradoria-Geral da República anunciou que Rocha Andrade, João Vasconcelos e Jorge Costa Oliveira irão ser constituídos arguidos, "estando em curso diligências para a concretização desse despacho". Para os governantes demissionários, na verdade o que fez a PGR acelerar foi o facto de eles próprios terem enviado ontem de manhã pedidos ao MP para que isso acontecesse. No governo suspeitava-se que esta medida processual poderia só ser desencadeada depois das férias judiciais - ou seja, mais em cima das eleições autárquicas. Por isso, a antecipação.

Segundo o comunicado da PGR, os três são suspeitos do crime de "recebimento indevido de vantagem" - crime que pode dar até cinco anos de prisão (para quem recebe a vantagem; três para quem a dá). Há ainda, na esfera governamental, outros três arguidos (ver lista na página anterior).

Quem ainda não foi pronunciado arguido - mas conta vir a sê-lo - é a entidade convidante, a Galp. "Entendendo o MP que, em termos processuais, a empresa deve ser constituída arguida, continuarão a ser prestados todos os esclarecimentos."

Em comunicado, a empresa disse que os convites para os jogos da seleção inserem-se numa "prática tradicional" que, no caso, não teve "outro objetivo que não fosse o apoio à seleção nacional".

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

Adelino Amaro da Costa e a moderação

Nunca me vi como especial cultor da moderação em política, talvez porque tivesse crescido para ela em tempos de moderação, uma espécie de dado adquirido que não distingue ninguém. Cheguei mesmo a ser acusado do contrário, pela forma enfática como fui dando conta das minhas ideias, tantas vezes mais liberais do que a norma, ou ainda pelo meu especial gosto em contextualizar a minha ação política e governativa numa luta pela liberdade.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.

Premium

Crónica de Televisão

Cabeças voadoras

Já que perguntam: vários folclores locais do Sudeste Asiático incluem uma figura mitológica que é uma espécie de mistura entre bruxa, vampira e monstro, associada à magia negra e ao canibalismo. Segundo a valiosíssima Encyclopedia of Giants and Humanoids in Myth and Legend, de Theresa Bane, a criatura, conhecida como leák na Indonésia ou penanggalan na Malásia, pode assumir muitas formas - tigre, árvore, motocicleta, rato gigante, pássaro do tamanho de um cavalo -, mas a mais comum é a de uma cabeça separada do corpo, arrastando as tripas na sua esteira, voando pelo ar à procura de presas para se alimentar e rejuvenescer: crianças, adultos vulneráveis, mulheres em trabalho de parto. O sincretismo acidental entre velhos panteísmos, culto dos antepassados e resquícios de religião colonial costuma produzir os melhores folclores (passa-se o mesmo no Haiti). A figura da leák, num processo análogo ao que costuma coordenar os filmes de terror, combina sentimentalismo e pavor, convertendo a ideia de que os vivos precisam dos mortos na ideia de que os mortos precisam dos vivos.