Preferência por docentes da oposição

O DN lançou a iniciativa Professor do Ano, que visa reconhecer os melhores professores. Estamos também a ouvir personalidades de várias áreas que lembram os tempos de estudantes. Hoje, a finalizar a série de entrevistas, Arons de Carvalho recorda a vida estudantil que o levaria a ser eleito deputado à Constituinte logo após se formar em Direito.

Qual é a sua recordação mais antiga da escola?

É de estar no Liceu Francês, em Lisboa. Estive lá desde a infantil. Fui colega do [Eduardo] Ferro Rodrigues e do João Soares.

E lembra-se de algum professor?

Não me recordo. Estive lá na pré--primária e na instrução primária.

E onde fez o liceu?

A seguir fiz o liceu no Pedro Nunes, primeiro, e depois no D. João de Castro. Neste último tive um professor muito marcante, Luís Simões Gomes, de Literatura Portuguesa. Havia também outro professor, Roxo, de quem me lembro bem porque fazia umas piadas ao regime. Via-se que era da oposição. Mas Luís Simões Gomes era um professor notável.

E na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa?

Tive vários professores dos quais gostei bastante. André Gonçalves Pereira terá sido aquele de quem gostei mais. Dava aulas de Direto Internacional Público. Era um grande comunicador e uma pessoa cujas aulas eu seguia sempre com grande interesse. Gostei também de Freitas do Amaral, Miguel Galvão Telles, Sousa Franco, Luís Silveira, Sérvulo Correia. Tive um conjunto de bons professores, a par de outros dos quais gostava menos porque eram muito ligados ao regime. É preciso lembrar que estava na faculdade quando veio o 25 de Abril de 1974.

Como viveu esses tempos de transição? Esteve sempre ligado aos movimentos estudantis?

Ia às aulas e passava o resto do tempo na associação de estudantes. Fui delegado de curso num dos anos. Estava muito envolvido na associação académica. Estive numa lista à associação académica quer tinha socialistas e pessoas ligadas ao PC... mas foram quase todos presos e a lista não se candidatou. Escolhia criteriosamente as aulas e os professores de quem gostava e ao resto não ia tanto.

Em 1973, já era candidato às eleições pela oposição democrática. Mas ainda estudava. Como sucedeu isso?

De facto, ainda era estudante. Acabei o curso em janeiro de 1975. Estava ligado aos socialistas, ao PS, fui para a candidatura por indicação do grupo da Acção Socialista- ou antes do PS, que já tinha sido fundado na Alemanha, em 1973.

E mais tarde, recém-licenciado, foi logo eleito deputado à Assembleia Constituinte...

Sim . Acabei o curso, ainda cheguei a inscrever-me no estágio de advogado, mas fui eleito deputado e acabei por nunca exercer advocacia. Também já tinha sido jornalista, antes do 25 de Abril, antes de 1974 já era redator, e depois fui jornalista de A República durante uns anos. O Direito não me serviu de muito. Hoje dou aulas de Direito da Comunicação Social e devo-o também ao que aprendi, mas não segui a área do direito.

Mas apesar das muitas funções que foi acumulando, prosseguiu os estudos, fazendo o doutoramento na Universidade Nova...

Sim. Em Ciências da Comunica-ção, com uma tese sobre o serviço público de televisão. Aí a minha formação jurídica foi uma coisa lateral. Fiz provas de equivalência ao mestrado e depois o doutoramento.

O que considera ter melhorado e piorado no ensino desde os seus tempos de estudante?

O ensino melhorou muito depois do 25 de Abril, não tenho dúvidas, na participação dos estudantes, no tipo de aprendizagem.

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