Portugueses recorrem cada vez mais aos privados

Tendência. Na última década, a rede de hospitais privados tem vindo a ganhar terreno ao SNS na prestação de cuidados de saúde aos portugueses. Facilidade de acesso, resposta mais rápida e liberdade de escolha jogam a favor do sector privado. Beneficiários dos subsistemas e titulares de seguros de saúde são os principais utilizadores

Os hospitais privados já fazem mais de um quarto das consultas externas (27,5%) e dos atos complementares de terapêutica (27%). Ainda não têm um peso tão expressivo nos internamentos mas são já responsáveis por cerca de um quarto (19,5%). E mesmo ao nível do atendimento nas urgências e dos atos complementares de diagnóstico têm aumentado a sua intervenção, ganhando terreno face ao Sistema Nacional de Saúde (SNS). A expansão das unidades hospitalares privadas na última década (existem atualmente mais 14 do que em 2003 enquanto que o SNS conta com menos quatro, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística) não é a única explicação para este aumento.

"Não é fácil ler os números sem ter em linha de conta uma perspetiva ideológica do que deve ser o Estado social", começa por dizer ao DN Marta Temido, presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH), alertando para o facto de Portugal ser "um país com grandes assimetrias, nomeadamente na componente rendimento". Por isso mesmo, questiona: "Será que estes dados refletem complementaridade entre privados e SNS ou é substituição para quem pode pagar?"

"Não baseamos o nosso crescimento no falhanço direto do SNS", defende Artur Osório, presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP), vendo neste ganho um "sinónimo de confiança crescente dos portugueses no sector da hospitalização privada". "Os doentes têm sempre uma palavra a dizer, está em causa a liberdade de escolha e, no SNS, as pessoas não podem escolher, estão emparedadas por zonas de residência, em listas de espera", reforça. Por isso, aponta o atendimento mais personalizado e o acesso a uma consulta à distância de um telefonema como fatores decisivos para a preferência do sector privado em detrimento do SNS.

Uma situação que Marta Temido reconhece. Face à crescente preferência dos portugueses pelos serviços dos hospitais privados, Marta Temido considera que é necessário refletir sobre alguns aspetos e o que isso significa: é o caso dos tempos de espera, dos horários de funcionamento, das facilidades de acesso e de outras comodidades colocadas à disposição das pessoas. E, olhando para este conjunto de condições, a responsável não tem dúvidas: "O SNS está longe de estar a responder às necessidades dos consumidores." Mais: "Quem pode fazer escolhas opta por serviços com menor tempo de espera, que lhes permitam ter o apoio de um familiar, que tenha uma melhor conveniência de horários ou ainda lhes permita estacionar o carro. E o SNS está a perder terreno nestes aspetos. Mais adjacentes, é certo, mas também importantes para as pessoas."

No entanto, destaca, "o SNS continua a fazer o mais importante". E, mesmo após os cortes no orçamento (1,4 mil milhões nos últimos cinco anos), Marta Temido assegura que "a capacidade de resposta não está em causa". Apesar disso, lança o alerta: "Começamos a sentir estrangulamentos, sinais que devem ser lidos com preocupação. Deveríamos refletir para atacar as causas dos problemas, em vez de assumirmos apenas uma atitude reativa."

Apesar de o peso crescente dos hospitais privados estar a aumentar no total das consultas ou outros atos médicos, os dados oficiais apontam igualmente para uma subida de atos médicos na rede pública. "Aparentemente, este até é um bom sinal", afirma Marta Temido, "mas também pode indicar que não estamos a ser tão resolutivos como deveríamos ser". Por isso, defende: "Precisamos de um novo paradigma, precisamos de dar aos doentes o que eles precisam. Estamos com dificuldades mas é um caminho que temos de fazer."

Para além de maior integração dos diferentes níveis de prestação de cuidados, criação de equipas multidisciplinares, maior intervenção de enfermeiros, psicólogos, nutricionistas e outros profissionais, Marta Temido considera que será muito difícil, senão mesmo impossível, fazer esse caminho "com recursos humanos desmotivados". "Mais do que dizer que as pessoas são o ativo mais valioso do SNS, é preciso envolvê-las e, no mínimo respeitá-las, já que não se lhes pode pagar mais". E, neste momento, após os cortes salariais e o aumento do horário de trabalho, a responsável não tem dúvidas em dizer que "as pessoas não estão disponíveis para fazer mais esforços. É preciso investir nos recursos humanos, ter um diálogo franco com as ordens".

Este descontentamento dos profissionais de saúde está a ser aproveitado da melhor maneira pelo sector privado. "Agora é mais fácil ter bons recursos humanos", reconhece Artur Osório. "Há alguns anos era impossível pensarmos em ter quadros próprios. Agora estamos a conseguir, pagando-lhes por objetivos, um fator que garante maior rentabilidade dos serviços", adianta. O também administrador do grupo Trofa Saúde considera mesmo que estão criadas as condições para avançar com o regime de exclusividade dos profissionais de saúde, separando completamente quem trabalha no público e no privado. "Em nome da transparência dos dois sistemas que têm de concorrer entre si", defende.

No sector privado, só a Federação Nacional dos Prestadores de Cuidados de Saúde está em contraciclo. Armando Santos, o vice--presidente, fala num decréscimo de 30% do valor da faturação destas empresas responsáveis pelos exames complementares de diagnóstico, fruto "das quedas abruptas e desmesuradas nos preços pagos pelo Serviço Nacional de Saúde".

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