Portugueses e espanhóis juntos em manifestação contra nuclear

Em causa estão o encerramento das centrais nucleares - Almaraz incluída - e a não exploração da mina de urânio em Retortillo

Ambientalistas portugueses e espanhóis participaram numa manifestação, em Salamanca, Espanha, para exigir que o novo Governo espanhol tome medidas para encerrar as centrais nucleares e não autorize a mina de urânio em Retortillo, perto da fronteira.

A manifestação, convocada pelo MIA - Movimento Ibérico Antinuclear, juntou mais de duas mil pessoas, incluindo portugueses, segundo a organização.

Nuno Sequeira, dirigente da Quercus, disse à agência Lusa que os manifestantes pedem ao novo Governo de Espanha, liderado por Pedro Sánchez (PSOE -- socialista), que "se sente imediatamente à mesa das negociações e que negoceie o plano de encerramento faseado das centrais nucleares em Espanha que estão ainda em funcionamento".

A central de "Almaraz deverá ser a primeira a encerrar, pelo facto de ter apenas licença de funcionamento até junho de 2020", disse.

Os ambientalistas de ambos os países exigem também que o Governo espanhol "suspenda de imediato o projeto de exploração de urânio a céu aberto" que existe próximo de Salamanca, em Retortillo.

Defendem que o Governo de Espanha "realize uma avaliação de impacto ambiental transfronteiriça, que nunca foi feita", vaticinando o dirigente da Quercus que, no final, perceberá que "nem Espanha nem Portugal têm nada a ganhar com este projeto e [que] deverá desistir do mesmo", referiu.

José Ramon Barrueco, do movimento espanhol Stop Urânio, disse à Lusa que a presença dos portugueses na manifestação de Salamanca é importante, porque a mina de Retortilho terá consequências para Portugal, sobretudo para a zona do Douro.

"Se houver uma contaminação, das águas do rio Yeltes, que desemboca no rio Douro, os materiais radioativos chegarão à zona de produção do vinho do Porto", justificou.

Os manifestantes defendem que o Governo espanhol deve encerrar a central nuclear de Almaraz, que fica situada junto ao rio Tejo, na província de Cáceres, a cerca de 100 quilómetros da fronteira com Portugal, e não deve autorizar a abertura da mina de urânio de Retortillo, localizada a cerca de 40 quilómetros da fronteira portuguesa.

"A mina vai-nos contaminar o ambiente e vamos perder todo o trabalho de uma vida. Não podemos permitir esta barbaridade", disse Maria Martin, residente em Yecla de Yeltes, um povoado situado a cerca de 11 quilómetros de distância de Retortillo, Espanha.

Já Ivo Francisco, residente em Portalegre, disse que "é absolutamente contra o nuclear", porque "qualquer central nuclear é um perigo para a humanidade".

Os participantes realizaram uma marcha a pé pelo centro de Salamanca e no percurso gritaram palavras de ordem como "O povo unido jamais será vencido" e "Salamanca desperta, a mina está à tua porta".

As manifestantes também empunharam vários cartazes com mensagens como "Perigo à nossa porta! É urgente travar minas de urânio e fechar Almaraz!", "Nuclear? Não, obrigado", Mina não, vida sim", Não ao projeto nuclear! Retortillo cultivado e limpo" e "Futuro digno para os nossos povos", entre outros.

Na concentração também participou Pedro Soares, deputado do Bloco de Esquerda e presidente da Comissão de Ambiente, que frisou que a Assembleia da República "tem tido um grande consenso à volta da necessidade do Governo português diligenciar junto do Governo espanhol que não autorize" a mina de Retortillo.

"Com a mudança de Governo em Espanha abre-se uma nova janela de oportunidade" para que "acabe a energia nuclear e para que não haja a mina de Retortillo", afirmou.

Miguel Martins, dirigente do Partido Ecologista Os Verdes também se associou à iniciativa e reafirmou que o partido "é contra a energia nuclear" e desde a primeira hora está "contra a exploração de urânio" naquela zona de Espanha, perto da fronteira portuguesa.

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