Portuguesa trabalhou com laureado mas desistiu da carreira

Patrícia Castro participou no trabalho de investigação que hoje foi galardoado com o Nobel da Física. A portuguesa queria seguir investigação mas, por falta de apoios, acabou por abandonar a carreira.

A então estudante universitária estava a terminar a licenciatura em Portugal quando foi seleccionada, em 1998, para "fazer um estágio de dez meses e participar num projecto de investigação". Patrícia foi trabalhar para Berkeley com a equipa de Saul Perlmutter, hoje galardoado com o Nobel da Física.

"Eu fazia análise dos dados, mas também estava a fazer detecção e escolha de supernovas", recorda Patrícia Castro, que descobriu que "queria fazer investigação e seguir a área de cosmologia" graças à participação neste trabalho.

Patrícia, agora com 36 anos de idade, participou no artigo de referência do trabalho hoje premiado. "Participei no artigo, assisti à sua elaboração e ajudei na análise dos dados das supernovas. Ainda lá estava quando o trabalho foi considerado pela Revista Science como a experiência do ano", recorda, em declarações à agência Lusa.

Depois de terminada a primeira fase, com a publicação do artigo, as equipas continuaram a trabalhar para reduzir margens de erros. Patrícia abandonou a equipa consciente de que tinha sido "uma experiência determinante na vontade de continuar a fazer investigação".

As três equipas agora galardoadas continuaram a estudar o universo através da observação das supernovas, Patrícia optou por tentar "obter o mesmo resultado através do estudo da radiação cósmica de fundo".

De Berkeley, Patrícia Castro seguiu para a Universidade de Oxford, onde se doutorou em Astrofísica e depois foi bolseira de pós-doutoramento na Universidade de Edimburgo. Já em Portugal, continuou a fazer investigação no Centro de Astrofísica do Instituto Superior Técnico (IST).

Em 2007 sentiu que tinha de abandonar a carreira de investigadora: "Foi uma decisão muito difícil de tomar porque eu adorava fazer investigação, mas tinha de ser. Não havia perspectivas na minha área em Portugal e ser bolseiro é muito difícil, basta dizer que acabando uma bolsa as pessoas não têm sequer direito ao subsídio de desemprego".

Patrícia Castro lembra que os bolseiros que fazem investigação são sempre vistos como meros estudantes, havendo uma grande "falta de reconhecimento profissional". "Não se pode viver eternamente de bolsas. Há muita gente que sofre diariamente na pele com essa situação", lamenta.

Para Patrícia, deveria haver uma maior ligação entre o mundo empresarial e o da investigação: "Seria benéfico para as duas áreas, mas a verdade é que o reconhecimento do trabalho dos investigadores é muito mais difícil aqui em Portugal".

A ex-investigadora do Centro de Astrofísica do IST acabou por optar por um emprego "estável" e actualmente é consultora na empresa Cap Gemini. "Tem alguns pontos em comum, porque também temos de fazer investigação, mas não é a mesma coisa", explica.

Apesar de não ter seguido investigação na area de cosmologia, Patrícia ficou "muito feliz" com a escolha da Academia Sueca que reconheceu a "importância da descoberta".

O Prémio Nobel da Física foi hoje atribuído aos investigadores norte-americanos Saul Perlmutter, Brian P. Schmidt e Adam G. Riess pelos seus trabalhos que mostraram, através da observação das supernovas, que afinal há uma aceleração da expansão do Universo.

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