Politécnicos prontos para fazer investigação para as empresas locais

Governo quer institutos a desenvolver e transferir tecnologia nas suas regiões

Os politécnicos estão preparados para avançar, já a partir deste verão, com projetos de investigação aplicada, em articulação com as empresas e as autarquias das suas regiões, respondendo ao desafio que lhes foi lançado pelo ministro Manuel Heitor no Programa de Modernização e Valorização deste setor. A convicção é de Joaquim Mourato, presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP), que não esconde o entusiasmo com o facto de, "pela primeira vez em muitos anos", o Ministério da Ciência e Ensino Superior estar "a olhar para os politécnicos no sentido de os valorizar".

A proposta do ministério, divulgada na semana passada, consiste na criação de projetos de curta duração - entre seis meses e um ano -, envolvendo professores, investigadores e alunos dos institutos na chamada "transferência de conhecimento". Ou seja: no desenvolvimento de soluções que sirvam as empresas e as comunidades em que se inserem.

Por exemplo, como já está a acontecer num projeto-piloto, citado ao DN na sexta-feira pelo ministro Manuel Heitor, que envolve o Politécnico de Bragança e a multinacional de componentes de automóvel Faurecia.

"Estamos todos muito empenhados em trabalhar com a tutela nesse sentido", disse ao DN Joaquim Mourato, que preside o Politécnico de Portalegre, assumindo que "só integrando todos os atores regionais, públicos e privados" será possível desenvolver parcerias que tragam resultados positivos e durem no tempo. "Temos muitos projetos em carteira. Rapidamente as instituições vão apresentar projetos interessantes para que, assim que tenhamos os editais [dos concursos] abertos, estes estejam disponíveis", prometeu.

O governo tem um orçamento inicial de cinco milhões de euros para investir nestas parcerias. Mas Manuel Heitor já assumiu ao DN que o objetivo é que esta verba vá aumentando progressivamente e que os institutos venham mesmo a criar unidades de investigação - atualmente quase um exclusivo das universidades -, concorrendo depois a verbas da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Outra novidade do programa lançado pelo ministério será a adaptação dos atuais cursos técnicos superiores profissionais (TESP), de dois anos, nomeadamente para tornar mais simples a continuidade dos alunos que queiram prosseguir para licenciaturas e mestrados. Uma medida que Joaquim Mourato também considera "positiva". Atualmente, funcionam 300 cursos, com mais de cinco mil alunos.

Este será ainda o ano em que - pela primeira vez desde a intervenção externa em Portugal - politécnicos e universidades vão poder contratar novos professores e investigadores para as suas equipas. A intenção do governo é valorizar a nova geração de jovens altamente qualificados que fizeram disparar o número de doutorados no país.

Distância é "obstáculo" a fusões

Como em todas as propostas, há uma contrapartida. E, no caso dos politécnicos, é dada a indicação clara de que estes têm de reforçar o trabalho em conjunto, eventualmente até evoluírem para fusões, para ganhar eficiência e compensar a quebra de estudantes.

Joaquim Mourato garante que os institutos estão "alinhados" com esse objetivo. Mas avisa que há ainda "muitos obstáculos" práticos a ultrapassar. "Como é que se pode concertar um projeto educativo se um docente de Portalegre, para ir a Beja, faz 400 km de ida e volta?", ilustrou. "Levantam-se questões práticas e operacionais que podem implicar mais encargos."

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