Os cravos vermelhos da liberdade

25 de Abril. Queda da mais velha ditadura europeia com a Revolução dos Cravos encantou o imaginário das várias esquerdas, despertou invulgar interesse internacional pela política portuguesa e abriu caminho à independência dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa

Numa entrevista ao República, em fevereiro de 1972, Mário Soares tinha declarado: "Regressarei a Portugal no primeiro avião, quando isso seja útil e possível." Mas, nota Diaz Nosty, 26 meses mais tarde, "o aeroporto da Portela estava fechado" (Um Combatente do Socialismo). No 25 de Abril de 1974, que "foi a coisa mais extraordinária que [lhe] aconteceu na vida" (Uma Vida), o líder socialista, 49 anos de idade e 32 como oposicionista, estava em Bona e, mal soube do golpe de Estado, cancelou logo a entrevista com Willy Brandt.

"Podia ter morrido no exílio ou ter ficado por lá. (...) Quando partimos de Paris [no Sud-Express], não sabíamos se seríamos presos na fronteira. Não fomos! Pelo contrário: inesperadamente, para nós, fomos recebidos em triunfo num país que vivia as primeiras horas da grande euforia da liberdade reconquistada. Inesquecível e inesperado, uns breves dias antes!" (A Crise? E Agora?).

A 28 de abril, contrariando os camaradas que o aconselhavam a esperar mais uns dias (Salgado Zenha, Raul Rego, Vasco da Gama Fernandes, José Magalhães Godinho), entrou no chamado Comboio da Liberdade e, após ver estudantes em Salamanca com um cravo cujo significado ainda ignorava e de ter segurado pela primeira vez um megafone para falar aos socialistas em Vilar Formoso, chegando em triunfo à capital, perante a multidão que o esperava, na descrição de J. Rentes de Carvalho, "em lágrimas, sorrindo, e aos brados de vitória" (Portugal, a Foice e a Flor), subiu em triunfo à varanda de Santa Apolónia e, entre militantes do PS e do PCP, discursou àquela "massa de gente, que extravasava da estação e enchia a praça fronteira"- e improvisou-se uma conferência de imprensa "com jornalistas portugueses e correspondentes estrangeiros" (Portugal: Que Revolução?).

Entretanto, regista Teresa de Sousa, o general António de Spínola telefonava várias vezes para Raul Rego: "Então, o nosso homem, já chegou? Não se esqueça de o trazer imediatamente para cá" (Os Grandes Líderes) - isto é, para o palácio da Cova da Moura, que já tinha sido o Ministério da Defesa e era, agora, a sede da Junta de Salvação Nacional.

"A chegada de Soares de comboio a Santa Apolónia (num claro paralelismo com os dirigentes da 1.ª República ou com Humberto Delgado [as viagens no rápido Foguete até ao Porto, onde a multidão esperava o general na estação de São Bento, e a do regresso à capital, com a GNR a cavalo a dispersar os apoiantes]) chegou mesmo a ser comparada com o regresso de Lenine do exílio em 1917", salienta Maria Manuela Cruzeiro, ao referir as "ressonâncias míticas" nos regresso de Soares e de Cunhal, no blogue Caminhos da Memória.

Ao ser o primeiro dirigente a regressar do exílio conquistou logo um enorme capital político. Nessa altura, o PS teria dois ou três mil militantes; dois meses depois registava 150 mil! Na versão mais sarcástica de José Freire Antunes, "sem força dentro de Portugal, [em 1973, o recém-nascido PS] movia--se basicamente em Roma e em Paris, e os seus quadros todos não enchiam uma carruagem de comboio" (Nixon e Caetano).

Logo em junho de 1976, no seu longuíssimo diálogo com Vicente Jorge Silva transformado no livro O 25 de Abril Visto da História, José António Saraiva destacava esse "novo fenómeno curioso: um indivíduo que não tem ainda atrás de si uma força política organizada, uma máquina montada e a funcionar, consegue fazer uma carreira política na Europa de tal modo que hoje se apresenta como um dos líderes da Europa".

O próprio Mário Soares situará o golpe do MFA no contexto da época. "Note-se que o 25 de Abril de 1974 apanhou de surpresa todas as chancelarias, do Oeste e do Leste, os serviços secretos e a NATO. Foi uma conspiração urdida exclusivamente em Portugal, sem qualquer apoio ou motivação externa. Aliás, surgida em contraciclo (a crise do petróleo é de 1973) e quando a détente, na base do respeito pelo statu quo e pela não intervenção nos regimes de cada um dos blocos, começava a ser negociada, nos termos que seriam, um ano depois, os Acordos de Helsínquia" (A Crise? E Agora?).

A 30 de abril, vai esperar Álvaro Cunhal ao aeroporto, dá um abraço ao líder do partido com quem tinha assinado, dois meses antes, um acordo de colaboração para a queda do regime e percorre com ele de braço dado, pela primeira e penúltima vez, as ruas da Baixa e a Avenida da Liberdade.

Meia dúzia de dias apenas sobre o golpe militar do 25 de Abril, há a celebração do Dia do Trabalhador - que Portugal tinha sido um dos primeiros países a comemorar, logo em 1890, mas que estava proibida pelo regime fascista. Um jornalista francês não hesitou em comparar o 1.º de Maio de 1974 em Lisboa com as comemorações da libertação de Paris em 1944; o poeta Miguel Torga, comentando o "colossal cortejo pelas ruas" de Coimbra (mas poderia ter sido do Porto ou de qualquer outra cidade importante), registava no Diário essa "explosão gregária de alegria indutiva a desfilar diante das forças de repressão remetidas aos quartéis"; e a atriz Beatriz Costa "nunca [pensara] que em Portugal existisse tanta gente! Que lindo espetáculo!" (Sem Papas na Língua).

Além de ser uma espécie de alegre e gigantesco "plebiscito" de rua ao golpe de Estado, à liberdade e à democracia, essa comemoração do Dia do Trabalhador tem ainda outro valor, salientado por Maria Inácia Rezola: "A imagem de Álvaro Cunhal e Mário Soares, encabeçando a multitudinária manifestação que, no dia 1 de Maio de 1974, percorre as ruas de Lisboa, consegue a saída da clandestinidade dos partidos" (25 de Abril - Mitos de Uma Revolução) - e, no final do ano, num País em euforia por causa da liberdade e em reivindicações permanentes porque tudo parecia então possível, já existem 25 partidos!

Mas, de acordo com Carlos Brito, durante o desfile, o líder comunista bem tentava fugir de Mário Soares, que queria, "à viva força, dar-lhe o braço para partilhar a sua impressionante popularidade" (Álvaro Cunhal - Sete Fôlegos do Combatente). "No estádio [da FNAT, depois batizado 1.º de Maio] estava um enorme mar de gente: foi para ambos uma agradável surpresa" (Uma Vida). Ali, discursariam os dois regressados do exílio, os futuros "inimigos íntimos" (expressão de Mário Soares), com o socialista, entusiasmado, a exclamar: "Valeu a pena ter lutado, valeu a pena ter sofrido, para assistir a esta festa." O comunista leu um papel e avançou para a frente da tribuna com um soldado e um marinheiro, numa imagética leninista. No artigo publicado no DN a assinalar os 80 anos do adversário, intitulado "Parabéns, Dr. Cunhal", Mário Soares escrevia que, naquela altura, "em contraponto surdo, as fissuras de tom e as manifestas diferenças de estilo apareciam logo, claramente, a quem as quisesse ter examinado". E, na expressão do ensaísta Eduardo Lourenço, há mesmo um "complexo de Marx" que "une e separa" os dois partidos e os seus líderes carismáticos (O Complexo de Marx ou o Fim do Desafio Português).

"Quando cheguei a Portugal, em abril de 1974, tinha a ideia nítida que a nossa necessidade primeira era fazer a paz, acabar com as guerras coloniais. O nosso segundo objetivo era estabelecer os mecanismos democráticos que nos permitissem consolidar um regime pluralista de liberdade. O terceiro era assegurar o desenvolvimento do País - sem colónias -, o que implicava criar aquele mínimo de condições necessárias e possíveis para entrarmos no Mercado Comum. (...) Entrar no Mercado Comum, para mim, significava não só uma opção económica, mas, sobretudo, uma opção política: consolidar uma democracia civilista, sem tutela militar" (Diálogo de Gerações). No fundo, como em 2013 registará Boaventura de Sousa Santos, "em 25 de Abril, Portugal era o país menos desenvolvido da Europa e, ao mesmo tempo, o detentor único do maior e mais duradouro império colonial" (Portugal - Ensaio contra a Autoflagelação).

Seguem-se os governos provisórios, em que seria ministro dos Negócios Estrangeiros nos primeiros três (ver "Representar um país coqueluche da cúpula política internacional") - a primeira vez que viajou com Otelo, já como governante, ainda ignorava que era aquele o operacional do 25 de Abril - e ministro sem pasta no IV. "É indiscutível", assevera Medeiros Ferreira, "ter sido Mário Soares a forçar a presença de personalidades representativas de partidos políticos no [I] Governo Provisório"(Ensaio Histórico sobre a Revolução do 25 de Abril - O Período Pré-Constitucional).

Em 1979, ao recordar a sua impressão desses meses, Jean Daniel escreveu que "[se sentia] a História em suspensão, a transbordar de possibilidades, incluindo as melhores" (A Era das Ruturas). Surgem, então, as primeiras tentativas de moldar o regime e, logo em junho, Soares opõe-se à tentativa de alterar o calendário da transição defendida pelo Presidente da República (PR) António de Spínola, o primeiro-ministro Palma Carlos e o líder do PPD (depois PSD) Sá Carneiro, que pretendiam plebiscitar um PR e referendar uma Constituição antes das eleições parlamentares. Quando Palma Carlos confrontou Soares com esta proposta de se avançar para uma espécie de gaulismo com Spínola, ouviu um "não concordo". A partir desta fase, jogou-se muito do futuro da democracia (ver "Derrotar os novos Lenines no Verão Quente de 1975").

Uma obra que Soares nunca deixaria de citar quando se referia às repercussões da queda do fascismo lusitano é The Third Wave: Democratization in the Late Twentieth Century, de Samuel Huntington, que começa com a frase: "A terceira vaga de democratização no mundo moderno [com muitas dezenas de países que, desde então, se tornaram democracias, da Espanha e Grécia a regimes da América Latina, Leste da Europa, Ásia, África, Médio Oriente] começou, imprevisível e inesperadamente, 25 minutos após a meia-noite, quinta-feira, 25 de abril de 1974, em Lisboa, Portugal, quando uma estação de rádio tocou a canção Grândola Vila Morena".

E no discurso proferido em 1989, já como Presidente, na sessão solene da Assembleia da República evocativa do 15º aniversário, Mário Soares afirmará que "o 25 de Abril terá sido, porventura, das derradeiras revoluções europeias de um ciclo iniciado há cerca de 200 anos com a grande Revolução Francesa".

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