A cisão eleitoral da CEUD com a CDE

Alternativa. A propaganda fascista perdia o argumento de que os contestatários do regime eram todos comunistas quando a oposição, pela primeira vez, não concorreu com listas unitárias

Nas eleições de 1969, para mostrar que havia uma corrente que não era comunista, em vez da unidade na candidatura às eleições, a ASP avançou com listas da CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática) em Lisboa, Porto e Braga, em concorrência com as da CDE, que juntava os comunistas e os seus alegados compagnons de route (mas integrava todos os oposicionistas nos restantes distritos, com Maria Barroso, por exemplo, a concorrer por Santarém), surgindo ainda, na capital, uma lista da Comissão Eleitoral Monárquica.

"A quem coube a responsabilidade da divisão oposicionista nos três distritos referidos?" No Portugal Amordaçado, o autor dava a resposta à sua pergunta retórica. "A questão é - e será - evidentemente controversa, dependendo fundamentalmente do ponto de vista em que cada qual se colocar." Mesmo assim, "pela primeira vez, num momento eleitoral, eu surgia como o líder dessa corrente socialista autónoma. Todo o País percebeu que aquele homem que ali estava, um advogado chamado Mário Soares, era o líder da CEUD" (Ditadura e Revolução).

O comunista Lino de Carvalho, no livro 1969 - Um Marco no Caminho para a Liberdade, tem a versão do seu sector. "Embora Mário Soares costume hoje negar, a verdade é que nunca conseguiu afastar a forte impressão que lhe teria sido acenado, nestas várias conversas com emissários de Marcelo Caetano e com altos funcionários da Embaixada americana, a possibilidade de uma relação preferencial com a ditadura se se afastasse das restantes correntes da oposição democrática organizadas na CDE": os comunistas; a geração das lutas académicas de 1962, que formara o MAR, com Jorge Sampaio e José Manuel Galvão Teles; os "católicos progressistas" Pereira de Moura, Nuno Portas ou Nuno Teotónio Pereira.

José Manuel Tengarrinha, da CDE, também dirá, em entrevista à Seara Nova, em 2005, que "Soares pretende apresentar-se como o dirigente máximo da oposição e como o interlocutor legítimo para Marcelo Caetano dialogar com a oposição. Nesse sentido, elabora um documento [que reúne 120 assinaturas] que é tornado público e enviado a Marcelo Caetano, em que diz que é preciso encontrar forças políticas capazes de ter visibilidade, e dando como completamente excluída a hipótese de o PCP desempenhar qualquer ação relevante no panorama da oposição portuguesa por se encontrar praticamente extinto". E, cáustico, em A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (A Contrarrevolução Confessa-se), Álvaro Cunhal comenta a posterior versão do líder da CEUD. "Dificuldades em assumir atitudes passadas? Interpretação? Falta de memória?"

À direita, as opiniões parecem dar razão aos comunistas, com José Freire Antunes a referir o "encosto circunstancial da CEUD de Mário Soares ao regime" (Nixon e Caetano) e Jaime Nogueira Pinto a dizer que se "especulou" que "Marcelo Caetano teria querido fazer dele [Soares] o líder de uma "oposição de Sua Majestade", isolando os comunistas e esquerdistas e livrando-se, progressivamente, dos restos da direita salazarista" (Portugal - Ascensão e Queda).

Mas, para Soares, perante esta "divisão de águas, que foi tão importante para o futuro" - pois "o País compreendeu que, para além do Partido Comunista, que sempre teve grandes anticorpos, havia uma outra força organizada, a ASP, que ainda não se dizia partido, mas o viria a ser"(Um Político Assume-se). Jorge Sampaio, um dos "intelectuais socialistas radicais" do MAR, concluirá que Soares "ficou sempre a achar que esta divisão foi virtuosa e explicava o que veio a seguir - e não vale a pena destruir essa ideia" (Uma Vida).

A par desta demarcação, havia ainda o "refrescamento" das listas da ANP (novo nome para o partido único, que durante o salazarismo se chamava União Nacional), com um conjunto de deputados que viriam a integrar aquilo que o jornalista Alves Fernandes batizaria de Ala Liberal - onde se destacaria Sá Carneiro. "Não teve curiosidade de conhecer Sá Carneiro?", perguntou-lhe Maria João Avillez . "Não. Nessa altura, Sá Carneiro vivia no Porto. Enviara-lhe o meu livro [Escritos Políticos, que teve quatro edições, "apesar de retirado das livrarias e vendido clandestinamente"]; ele, amavelmente, escreveu-me um cartão a agradecer" (Ditadura e Revolução).

"A nossa lista "socialista por Lisboa", que encabecei, foi a mais contestada e atacada pela polícia e pelo regime. Houve espancamentos, proibições, interrupções de sessões, ameaças várias e, finalmente, uma comissão da Internacional Socialista, que veio a Lisboa observar as pseudoeleições, a nosso convite, foi presa e expulsa de Portugal" (ibidem). E, ao contrário do que sucedera em todas as anteriores "farsas eleitorais" (à exceção da candidatura de Humberto Delgado), as oposições não desistiram à boca das urnas, mas os resultados divulgados pelo Governo seriam irrisórios para todos os adversários (para a CEUD eram menos de nove mil votos). No fundo, opinará Medeiros Ferreira, "a experiência da CEUD (...) saldara-se por uma relativa derrota" da ASP (Ensaio Histórico sobre a Revolução do 25 de Abril - O Período Pré-Constitucional). Mesmo assim, garantia Mário Soares no Portugal Amordaçado, este facto teve uma vantagem: "A experiência caetanista de tipo 'liberalizante' terminou com a burla eleitoral."

Depois, em janeiro de 1970, Soares ganhou muito dinheiro com uma causa de advocacia e decidiu fazer uma viagem pelas Américas: Brasil, Venezuela, Porto Rico, México, EUA - e, depois, Bona, Paris, Londres, Roma. Em Nova Iorque, sabendo da prisão de Salgado Zenha e Jaime Gama, que tinham integrado a lista da CEUD, fez uma conferência de imprensa onde denunciou a ditadura e as guerras coloniais, cujo eco teve como resposta o seu nome escrito nas paredes com "abaixo o turra [como eram designados os guerrilheiros dos movimentos de libertação]" ou "ao pelotão [de fuzilamento]".

Depois, regista José Freire Antunes, "Caetano acusou Soares na televisão (sem mencionar o seu nome) de propaganda antinacional. (...) Os tribunais culparam Soares à revelia, por atividades antipatrióticas, e foi expedido contra ele um mandado de captura" (idem). Preocupada, Maria Barroso telefonou-lhe para que não regressasse e ele foi para Paris com a intenção de concluir Portugal Baillonné (Portugal Amordaçado) - na opinião de Manuel Alegre, "o maior libelo até então publicado na Europa contra a ditadura salazarista" (Arte de Marear).

A 31 de julho, morre João Soares. Antevendo a vinda do líder da ASP, Pereira de Carvalho, terceiro na hierarquia da PIDE, propôs, conforme diria a José Freire Antunes, que "fosse autorizado a permanecer no país durante 48 horas para o funeral. [O diretor] Silva Pais telefonou [a Marcelo] e este concordou" (idem). Entretanto, Soares avisou amigos e jornalistas estrangeiros que viria ao funeral do pai.

No dia seguinte ao enterro, será Pereira de Carvalho a informá-lo que tem quatro horas para abandonar o País. E Freire Antunes até ironiza: "Caetano ofereceu também a Soares um prémio de lotaria política: a possibilidade de se fixar no estrangeiro como dirigente mártir e superlativo da oposição, paradoxalmente irrisória dentro de Portugal" (idem). O visado contrapõe que Marcelo "pensou ganhar duplamente: em Portugal, eu não seria um mártir [preso]; no estrangeiro, [supunha que, sendo eu uma pessoa polémica nos meios da oposição (...), iria (...) ser um segundo Delgado, um grande divisor dos meios oposicionistas no exílio]" (Ditadura e Revolução).

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