Paulo é o maior homicida familiar da última década

A tentativa de fuga de Paulo Silva, depois de disparar sobre os quatro familiares, indicia frieza e planeamento. Foi o crime em família com mais vítimas da última década.

Paulo Silva, de 44 anos, que confessou à polícia ter assassinado os ex-sogros, a ex-mulher e o enteado num café da Póvoa de Varzim, irá confrontar-se, na fase de julgamento, com uma testemunha de peso: o próprio filho, de 16 anos. Joel Lima viu o crime, as dezenas de balas disparadas e o pai a sair do local. Viu tudo e até tentou desarmar o pai. O adolescente e a irmã de 10 anos, que estava na escola quando a tragédia se deu, já estão à guarda provisória de familiares.

Os problemas de Paulo Silva com a ex-mulher, o enteado e os ex-sogros por causa de um litígio de partilhas em tribunal tiveram ontem um trágico desfecho. A disputa era em torno de uns pavilhões que o suspeito teria construído em terrenos do ex-sogro e reclamaria agora o dinheiro pelo valor dessa estrutura na sequência da separação da mulher, há dois anos.

A vida do próprio homicida já estaria marcada por um crime. O vizinho José Gomes recordou ao DN uma história que circula por toda a Póvoa de Varzim: que o pai de Paulo terá matado e esquartejado a mulher há uns anos, em Lisboa.

Agostinho Alves, pai do enteado de Paulo, que ontem perdeu o filho, Renato Alves, de 23 anos, descreveu como este já era um desfecho anunciado. "O meu filho chegou a dizer-me que o Paulo tinha problemas com a mãe dele. Já se ouvia falar que ele tinha ameaçado matá-los, mas nunca pensei que viesse a acontecer com o meu filho."

Paulo Silva, de 44 anos, terá matado a tiro o enteado, a ex-mulher Sílvia Lima, de 42, a ex-sogra Maria Araújo, de 64 anos, e o ex-sogro Domingos, de 65, num café, propriedade dos ex-sogros, e na casa contígua onde moravam. Um dos filhos do presumível homicida e da antiga companheira, Joel Lima, de 16 anos, assistiu à tragédia, mas saiu ileso.

Paulo Silva até era visto como "pacato" e "uma joia de pessoa" na freguesia de Estela, na Póvoa de Varzim, onde ocorreu o crime. Segundo o tenente-coronel Silva Ferreira, o próprio ex-sogro, uma das vítimas mortais, já tinha apresentado queixa contra ele na GNR por ameaças. Paulo já teria ameaçado que os matava a todos se perdesse o litígio por umas partilhas que decorria em tribunal. Mas ontem de manhã, pelas 09.00, passou das ameaças aos atos e premiu o gatilho várias vezes.

Vizinho viu-o antes do crime

Antes do crime, Paulo Silva, um conhecido empresário da área dos tetos falsos, chegou a cruzar-se com José Leite, vizinho do café S. Tiago, na Rua Comendador Araújo, quando este se dirigia à padaria. Até se cumprimentaram cordialmente. "Estava a vir da padaria com a minha mulher quando ouvi os tiros. O Paulo foi por aí abaixo na rua. Entrei logo no café com o presidente da junta de freguesia", conta, ainda em sobressalto. "Foi quando vi três cadáveres: a avó Maria, a mãe do rapazito e o rapazito mortos."

Depois de alegadamente cometer o crime, Paulo Silva pôs-se em fuga em direção a Espanha. O alerta à GNR foi dado por populares por volta das 09.10, segundo a GNR do Porto. Quando os militares chegaram ao local, encontraram um cenário macabro com duas das vítimas no interior do café e outras duas na residência que tem acesso direto ao estabelecimento comercial. O café era explorado por Renato Alves, o enteado do alegado homicida e uma das vítimas mortais. O filho do casal, Joel Lima, encontrava-se no café na altura do crime, mas conseguiu fugir por uma janela, segundo vizinhos das vítimas. Ainda segundo moradores, que se foram concentrando perto do local do crime, o Joel ainda terá tentado desarmar o pai. Não saiu ferido fisicamente, mas "ficou em estado de choque", segundo o tenente-coronel Silva Ferreira. Assim como a irmã Inês, de 10 anos, que estava na escola na altura do crime. O pai e alegado homicida ainda terá tentado ir à escola, mas a GNR já tinha montado cerco no local por precaução depois de alertada para a ocorrência do crime. Os dois irmãos estão a ser acompanhados por uma equipa de psicólogos do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM).

Perseguição automóvel

Entretanto, com o alegado homicida já em fuga, a GNR montou um conjunto de operações policiais para intercetar o fugitivo, que ia ao volante de um Mercedes de matrícula espanhola e a caminho de Espanha. Segundo o tenente-coronel Silva Ferreira, Paulo Silva foi avistado na Estrada Nacional (EN) 13 em direção a Valença pelo Destacamento de Trânsito de Viana do Castelo, tendo sido alvo de uma perseguição policial. Acabou por ser detido pela GNR já em Valença, depois de um despiste seguido de colisão contra outras duas viaturas, a dois quilómetros da entrada da ponte internacional de Valença. "Não ofereceu qualquer resistência e terá avançado ser o autor do crime", disse fonte da GNR. Na altura, Paulo Silva foi detido na posse de uma pistola de calibre 6.35 milímetros e de um revólver de calibre .32. À hora de fecho desta edição estava nas instalações da PJ do Porto e deverá ser apresentado hoje no tribunal de Vila do Conde.

Filhos entregues a familiares

A Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) da Póvoa de Varzim já entregou o rapaz de 16 anos e a rapariga de 10, filhos do alegado homicida, à guarda provisória de familiares. "Ouvimos os menores, que pediram para ficar com esses familiares, que não vou revelar quem são. Mas já não estão na freguesia da Estela, até para poderem ter alguma privacidade neste momento", afirmou, em declarações ao DN, a presidente da CPCJ local, Lucinda Delgado. A CPCJ interveio no caso com urgência assim que foi contactada pela GNR para o facto de haver duas crianças sobreviventes da tragédia. "Imediatamente, uma psicóloga e uma assistente social foram ao local para encontrar os dois menores e contactar com os professores e familiares." Os dois irmãos foram acompanhados por psicólogos do INEM, tal como outros familiares.

A CPCJ abriu o processo pelo crime de maus-tratos psicológicos, visto que o rapaz de 16 anos viu o crime. Sendo um crime público, a comunicação ao Ministério Público é automática. Como é um processo urgente, a guarda definitiva será decidida dentro de dias.

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