Passos Coelho despede-se encostando António Costa a José Sócrates

Sucessão. Líder cessante promete que será "bom soldado" na difícil batalha pelo poder

Foi um Pedro Passos Coelho igual a si mesmo - indignado com a forma como o PS tomou o poder e antecipando descalabros financeiros em perspetiva para o futuro - que ontem se despediu da sua liderança de oito anos do PSD, a segunda mais duradoura do partido, depois dos dez anos de Cavaco Silva.

O líder cessante chegou sozinho ao Centro de Congressos de Lisboa, rigorosamente pelas 21.00 - hora marcada para os trabalhos se iniciarem. E, muito aplaudido pelos congressistas, de pé, começou a discursar pelas 21.30 - numa intervenção que se revelaria curta para os seus hábitos (pouco mais de meia hora).

Cerca de dez minutos depois de começar a falar, Passos Coelho já está a atacar violentamente a maioria de esquerda que apoia o Governo do PS - e o PS em particular, associando diretamente atuais governantes ao Executivo de José Sócrates que em 2011 levou Portugal a ter de pedir à troika, colocando o país sob a alçada de um programa de austeridade.

Insinuando que nunca aceitará acordos de profundidade do PSD com o PS atual, recorda que no Governo de António Costa estão "muitos daqueles que conduziram Portugal à bancarrota em 2011". E a seguir indigna-se - "Não houve um pedido de desculpa, um arrependimento" - dizendo, sob a forma de pergunta, que pode muito bem estar aí a vir o "diabo": "Quem não nos garante que isto não volta a acontecer?" Pronuncia no mesmo contexto o nome de José Sócrates, para dizer que foi o antigo primeiro-ministro socialista quem "duplicou a divida pública portuguesa em seis anos".

Para o líder, a atual solução governativa, "não oferece dúvidas": é "um governo que faz a espargata para a agradar a todos". E que além disso governa sempre de olho na "propaganda". Exemplo: o facto de os aumentos das pensões ocorrerem em Agosto. Porquê? Porque, diz Passos, é "um mês antes das autárquicas e um mês antes das legislativas". É também na denúncia da suposta tentação permanente do Governo do PS para a propaganda que insere o facto de agora passar sem grande clamor público o que antes era criticado com indignação: as cativações ou a quebra do investimento público (ambas, no seu entender, "uma desqualificação das políticas públicas"). "O que era inaceitável [com o seu governo] passou a estrutural", indignou-se.

Para o seu sucessor, Pedro Passos Coelho deixou palavras de exigência: "Não é fácil bater a geringonça mas é preciso bater a geringonça." Porém, assegura logo de seguida a Rui Rio que terá nele um colaborador - discreto porém - nesta luta: "Rui, contas com todo o apoio, com a minha discrição também". Definindo os tempos que se seguem como de "batalha", promete que contribuirá "como um bom soldado": "Concordo que a mudança de liderança é importante mas sei que a batalha que temos pela frente é uma batalha difícil. Não estás sozinho nela."

Pouco depois das 22.00, Passos concluiria o seu último discurso como líder do PSD, aplaudido de pé por todos os congressistas. Assistiria ainda ao discurso de Rui Rio e, findo este, rumou a Massamá.

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