Passos alerta Cavaco para riscos de governo de gestão

Primeiro-ministro quer uma solução rápida e não quererá ficar a desgastar-se num governo sem condições de governar. Ferro reconhece que há situação "complexa" no Parlamento

Cavaco Silva e Pedro Passos Coelho estiveram ontem reunidos durante mais de uma hora e, segundo apurou o DN, na ressaca do chumbo parlamentar ao programa de governo PSD-CDS, o primeiro-ministro terá alertado o Presidente da República para as dificuldades inerentes ao facto de um governo como o seu ficar em gestão.

Ciente de que a relação de forças mudou e de que na Assembleia da República (AR) só passarão os diplomas que a esquerda quiser, Passos terá sinalizado que não tem condições para governar, apesar de não ter dito que não quer ficar em gestão. A ideia é clara: o líder do executivo não quer "ficar a assar" até junho - altura em que os portugueses poderiam voltar às urnas -, tal como terá afirmado na Comissão Política do PSD de 22 de outubro.

No seio da coligação, a questão do governo de gestão não é considerada útil para o país e está resolvida. Sociais-democratas e centristas afastam a possibilidade e salientam que Cavaco conhece essa posição. Mesmo que para solucionar o impasse leve mais tempo e indigite António Costa.

Ancorado na tese de que não quer ficar a desgastar-se a governar sem governar, Passos terá até sugerido ao Presidente que resolva a equação com a maior brevidade, para assim poder passar ao combate político. Na oposição.

Na audiência com Cavaco, não se terá debruçado muito sobre as fragilidades dos acordos da esquerda, algo que, a fazer, só depois de ter a estratégia afinada em petit comité. Isto porque a Comissão Política do PSD vai reunir-se na segunda e Passos ainda voltará a Belém, desta feita na pele de líder partidário e, aí sim, deverá atacar quem o derrubou.

Ferro pressiona Presidente

Ontem, o presidente da Assembleia da República também esteve em Belém. Após os curtos 15 minutos de encontro e a cerimónia de condecoração da sua antecessora, Assunção Esteves, e do ex-presidente do Tribunal de Contas, Guilherme d"Oliveira Martins, Ferro Rodrigues declarou que prolongar este impasse seria mau para o país.

"Não iludi o facto de que na AR o prolongamento de uma situação nova, difícil e complexa, em que mesmo do ponto de vista da constitucionalidade certas propostas de lei do governo podem ser polémicas, não é uma situação positiva para o país, mas o Presidente é que tem nas mãos a chave da decisão e dos tempos da decisão", referiu.

Embora Cavaco já tenha dito ser imune a pressões, a verdade é que elas chegam de todos os lados. Em tempos conturbados e na antecâmara de presidenciais, os candidatos à sua sucessão convergem nas críticas a um governo de gestão (ver página 7).

Nos parceiros sociais, o cenário é diferente. Arménio Carlos (CGTP) e Carlos Silva (UGT) - nenhum deles foi ainda convocado para ser ouvido - indicam que o caminho passa por dar posse ao PS, enquanto João Machado, presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), defende eleições "o mais rapidamente possível".

Arménio Carlos nota ao DN que "um governo de gestão ou de iniciativa presidencial acrescentaria instabilidade" ao país e Carlos Silva sublinha que prefere "um governo estável e que respeite o Parlamento".

Hoje, Cavaco recebe os representantes da confederações patronais. De manhã, a Confederação Empresarial de Portugal e a Confederação do Comércio e Serviços de Portugal, de tarde a CAP e a Confederação do Turismo Português.

Ainda não estão agendados os encontros com os partidos, e Cavaco Silva estará na Madeira nas próximas segunda e terça-feira, no âmbito do Roteiro para uma Economia Dinâmica.

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