Paraquedistas atacados por mafiosos que controlam capital centro-africana

Marcelo Rebelo de Sousa elogiou "determinação e serenidade" da reação, com recurso a metralhadoras pesadas de 12,7 mm, contra os autores da emboscada

A vontade da ONU em acabar com os grupos criminosos que controlam o bairro comercial PK5, em Bangui, explica a emboscada feita aos 15 paraquedistas que sábado patrulhavam o local, disse ontem o porta-voz do Estado-Maior General das Forças Armadas (EMGFA).

O comandante Coelho Dias explicou ao DN que o ataque - desencadeado ao princípio da noite por uma dúzia a duas dezenas de bandidos, escondidos atrás de mulheres e crianças - não constituiu uma surpresa, pois o chefe de um desses grupos criminosos já tinha anunciado há dias que os capacetes azuis iriam ser atacados se entrassem naquele bairro problemático da capital da República Centro-Africana (RCA).

A operação naquele bairro muçulmano, controlado por grupos mafiosos que exigem dinheiro aos comerciantes e habitantes a troco de segurança, foi planeada com base em informações do terreno e trajetos definidos. "Não era uma patrulha em vão" ou que de repente se viu perdida no PK5, frisou Coelho Dias. A primeira dessas ações tinha-se realizado na semana passada, traduzindo a decisão do comandante operacional da ONU na RCA, general Balla Keita (Senegal), de libertar os bairros de Bangui daqueles criminosos.

Este acabou por ser o primeiro ataque contra os militares da ONU no PK5, segundo a AFP, que citou o diretor de comunicação da MINUSCA a afirmar que "estes ataques (...) mostram a natureza criminosa dos grupos armados" naquele bairro. Hervé Verhoosel também lembrou que o líder do grupo envolvido no ataque, Nimery Matar Jamous, tinha alertado na passada quarta-feira que "atacaria os "capacetes azuis"".

Sem vítimas entre os portugueses e admitindo-se que alguns dos atacantes possam pelo menos ter sido feridos, a resposta dada pelos paraquedistas foi elogiada ontem pelo Presidente da República. O Comandante Supremo das Forças Armadas, que cinco dias antes andou a pé com o seu homólogo em Bangui, enalteceu a forma determinada e serena como agiram depois de "alvejados por tiros de armas ligeiras, disparadas por um grupo armado a coberto de mulheres e crianças".

"Os militares portugueses souberam reagir a esta situação complexa com determinação e serenidade, não tendo sofrido qualquer baixa" naquela que era "uma patrulha de rotina", realçou Marcelo Rebelo de Sousa, numa mensagem publicada na página online da Presidência da República.

Note-se que, em março de 2017, o Chefe do Estado já tinha publicado uma mensagem - na sequência do louvor dado pelo general Balla Keita - a elogiar os Comandos portugueses por terem revelado "competência, prontidão operacional e bravura", durante uma operação de combate para proteger civis e que "assim, são uma vez mais reconhecidos internacionalmente".

As G3 davam "pouco jeito"

Este ponto foi, aliás, reforçado há uma semana por Marcelo Rebelo de Sousa ao dirigir-se aos soldados portugueses - os da ONU e os que comandam a missão de treino da UE na RCA - em Bangui: "Aqui está também o Comandante Supremo das Forças Armadas, aquele que [...] se orgulha dos militares portugueses porque são militares portugueses, que são os melhores militares do mundo, foram sempre, mas são cada vez mais."

O porta-voz do EMGFA, citando um dos operacionais envolvidos na emboscada, referiu ao DN que o risco na RCA é significativo mas não tão significativo como as missões cumpridas no Iraque e no Afeganistão. No entanto, os paraquedistas emboscados tiveram de recorrer às metralhadoras pesadas Browning - com calibre 12,7 mm - porque as munições 7,62 das velhinhas G3 davam "pouco jeito".

Mas essenciais para a bem sucedida resposta foram os óculos de visão noturna e a blindagem dos carros de combate, adiantou o porta-voz do EMGFA, na medida em que lhes permitiu estar protegidos durante a fase em que não podiam disparar devido aos civis usados como escudos humanos. Depois, tendo recebido o apoio de 45 paraquedistas da Força de Reação Rápida, começaram por uma demonstração de força - tiros para o meio da rua - que incluiu o lançamento de granadas de gás lacrimogéneo.

A operação, que durou cerca de quatro horas, acabou com os militares a desobstruir as ruas bloqueadas com pedras, mobílias e até sanitas, com o objetivo de lhes dificultar a saída do bairro.

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