Paliativos não chegam a 10% dos 60 mil pacientes

O acesso a cuidados paliativos não chega a 10% dos 60 mil pacientes que se estima em Portugal precisarem desta assistência, disse à Lusa o presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP).

Segundo Luís Capelas, as unidades de cuidados paliativos existentes não chegam para as necessidades da população e, no que diz respeito aos cuidados domiciliários, existe apenas 7% de cobertura.

No internamento esse número oscilará entre os 20% e os 25%, sendo de 19% ao nível das equipas intra-hospitalares.

"Se olharmos para a distribuição geográfica também temos distritos que nos deixam que pensar: Aveiro, Leiria, Região Autónoma dos Açores e Viana do Castelo não têm um único recurso de cuidados paliativos. Também aqui a distribuição não é equitativa", apontou.

O presidente da APCP estima que em Portugal haja 60 mil doentes a precisarem de cuidados paliativos, mas arrisca dizer que neste momento só perto de 10% da população tem acesso a esses cuidados.

"Estou a falar de 6 mil pessoas que têm acesso por ano nas equipas de cuidados paliativos, mas tenho algumas dúvidas que cheguemos a esses valores", afirmou, acrescentando que isso significa que Portugal tem "uma cobertura muito abaixo do expectável, que é cobrir 60% a 70% das necessidades em serviços especializados".

Os problemas com a atual prestação de cuidados não terminam aqui e Luís Capelas apontou que faltam equipas com formação adequada ou suporte farmacológico adequado, ao mesmo tempo que há equipas que não têm a dotação mínima de pessoas, havendo mesmo algumas que chegam a ter um enfermeiro para 30 camas, quando o ideal seria ter um para cada cama.

O responsável disse ainda que há médicos a trabalharem 20 horas por semana para tratarem 20 doentes e que há equipas de domicílio que funcionam só com um médico.

Luís Capelas acredita que as novas regras para os cuidados paliativos estejam para breve e que nessa altura seja possível fazer mais e melhor com os meios já existentes, dadas as condições económicas do país.

"Trata-se de deslocar e reorganizar camas porque os doentes estão lá. Os doentes estão na medicina, na cirurgia, na ginecologia, em cuidados intensivos, estão noutras áreas onde são tratados inadequadamente, com custos horríveis para todos nós", denunciou.

Acrescentou que se forem criadas as estruturas de camas onde elas são estritamente necessárias para garantir um tratamento de proximidade, será possível criar a rede adequada às necessidades atuais com pouco investimento.

"O que sabemos pelos estudos que têm sido feitos, principalmente na Catalunha, onde foi feita a comparação do antes e o após do plano regional de cuidados paliativos, foi que se poupou em média 2 a 4 mil euros por ano por doente, por isso é que conseguimos fazer esta estimativa que em Portugal poupava-se cerca de 125 a 250 milhões de euros por ano se olharmos a este universo de 60 mil doentes", revelou.

As novas regras trarão "exigências muito claras", como o apoio à família após a morte do doente e critérios de intervenção e de dotação para melhorar os cuidados prestados.

Segunda-feira realiza-se, em Lisboa, o primeiro Encontro Interdisciplinar de Cuidados Paliativos.

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