"Ouvia as nossas angústias existenciais"

O DN convida todas as semanas uma personalidade a recordar os seus tempos de escola. A vice-presidente da comunidade israelita em Portugal, a autora e cronista Esther Mucznik, recorda como era ser uma aluna judia no Liceu Francês há meio século e a professora que marcou a sua vida .

Teve professores que marcaram a sua vida?

Frequentei o Liceu Francês desde o jardim de infância até ao final e tive uma professora que me influenciou para toda a vida, a professora Ângela Grácio. Foi ela que me despertou para a História, que adoro, e naquela fase em que os adolescentes têm sempre imensas dúvidas metafísicas ela tinha uma paciência infinita para nos ouvir. É dela que me lembro como exemplo de uma professora que não só era excelente como professora - não era nada de datas, abria os nossos horizontes e ajudava-nos a compreender o mundo - mas também do ponto de vista humano. Ficava sempre depois das aulas para responder às nossas angústias existenciais.

Sentia alguma diferença por ser judia?

Não notei nenhuma animosidade, mas havia duas diferenças. Primeiro o nome. O Liceu Francês não era cosmopolita ao ponto de haver muitos nomes diferentes e era sempre horrível para mim porque as pessoas riam--se. Depois algumas estranhavam "o que é isso de ser judeu". Ser judeu era uma coisa que não cabia nos horizontes da maioria. Não nos podemos esquecer que a sociedade portuguesa era muito fechada. Três séculos de Inquisição e depois a ditadura não ajudaram muito à abertura. Não é por acaso que aos16 anos me fui embora.

Foi para Israel. O que é que a levou até lá?

A minha família cultivava não só o judaísmo mas também o sionismo. Achávamos que Israel era o nosso destino e ainda achamos, mas hoje é diferente. Depois voltei para acabar o liceu e fui logo embora, para França. Aqui sufocava-se, é um facto. Apesar de tudo, tenho boas lembranças do liceu, que era um oásis, com as limitações da época, claro. Tinha professores de grande qualidade também porque muitos deles tinham sido impedidos de ensinar no público, por causa das suas posições, e transmitiram-nos uma visão do mundo muito humanista.

É filha de imigrantes de origem polaca. Em casa falavam português?

Sim. Os meus pais muitas vezes falavam em yiddish entre eles, sobretudo quando éramos mais pequenos e não queriam que nós percebêssemos. Às vezes falava francês com a minha mãe, porque ela falava muito bem e nós andávamos no Liceu Francês. Mas os meus pais falavam muito bem português, o meu pai veio muito jovem e a minha mãe tinha muito jeito para línguas. Tinham uma mentalidade mais aberta e nós tínhamos mais liberdade e nesse aspeto tivemos uma educação diferente. Uma dupla cultura é uma coisa muito enriquecedora.

Continua a ter contacto com escolas e professores. Que diferenças nota?

Nunca estive numa escola pública e não posso fazer comparações. O que distinguia a escola era uma exigência muito grande dos professores e o sentimento de que a escolaera uma segunda casa. Mas conheço professores extraordinários. Trabalhamos com bastantes, na Associação Memória e Ensino do Holocausto, e vejo verdadeiros heróis. As condições é que são muito mais difíceis. A democratização do ensino trouxe uma população muito mais variada, o que é muito bom, mas também dificulta o trabalho do professor. Mas não é só isso, antigamente os professores eram os detentores do saber e hoje em dia qualquer miúdo vai à Internet ler sobre o que quiser. Por fim, a instabilidade é péssima, cada governo, cada ministro traz reformas, os professores andam de um lado para o outro... Tive a sorte de ter muita estabilidade dos professores. A estabilidade é fundamental e as minhas filhas, por exemplo, já não tiveram.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG