Os P-3 da Força Aérea portuguesa "são dos melhores do mundo"

Capitão Ana Silva, controladora tática na esquadra 601, diz que as capacidades da aeronave de vigilância marítima estão a ser aproveitadas para apoiar missões terrestres

Ana Silva entrou há 17 anos para a Força Aérea, de onde o pai saiu no início de 2017. Ambos tinham a mesma especialização, como oficiais navegadores e controladores táticos na esquadra dos P-3. Estiveram colocados nas mesmas bases militares - Montijo e Beja - mas nunca trabalharam juntos nem estiveram em simultâneo na mesma unidade, donde partiu há dias a aeronave que está em Itália ao serviço da NATO.

A capitão não integra esse destacamento na operação Sea Guardian (ver caixa), mas está encarregue de explicar o que são e para que servem os P-3C Orion (comprados em segunda mão à Holanda pelo então ministro da Defesa Paulo Portas) que, duas vezes por mês e no quadro da mesma operação, também partem de Beja para missões de um dia no Mediterrâneo.

Casada com um militar da Força Aérea colocado noutra base aérea, com quem forma um dos muitos casais de "solteiros geográficos" que vivem afastados durante a semana devido à carreira militar, a capitão Ana Silva trabalha em Beja e reside com a filha de 4 anos no bairro deixado junto da base alentejana, em 1993, pelos militares alemães.

No dia da partida do P3-C para Itália, a oficial entra na placa em passo apressado e com o cabelo liso molhado: "Fui treinar... tenho de aproveitar o pouco tempo livre."

Com os EUA a substituírem os seus P-3 (construídos pela Lockheed Martin) por P-8 (da Boeing), os portugueses "são dos melhores do mundo" nesta altura, assegura a TACO - sigla inglesa que designa os coordenadores táticos, tão ou mais responsáveis que os pilotos-aviadores pelo emprego operacional dos aparelhos de patrulha marítima.

Se os pilotos decidem por onde e como levar a aeronave, é o TACO que "recebe e junta toda a informação" obtida pelos diferentes sensores e especialistas a bordo para "decidir como é pensada a guerra". Leia-se: onde lançar sonoboias de localização de submarinos, contra quem disparar os mísseis ou torpedos antinavio, em que momento largar os kits de busca e salvamento para os náufragos. "A programação do armamento é do TACO", diz a oficial, apontando para o ecrã que lhe permite "ver a situation awareness" no terreno em tempo real. "Há uma linha de comunicação privada com o piloto-comandante para a tomada de decisão e a cujas palavras mais ninguém a bordo tem acesso."

Com orgulho profissional, a oficial acrescenta que pilotos e controladores táticos muitas vezes nem precisam de conversar, pois a sintonia dada por muitas horas de treino e de operação permite a quem está no cockpit - flight station nos P-3, onde se usam termos navais e não aeronáuticos - saber antecipadamente como, quando e para onde levar a aeronave.

Daí resulta que mesmo ela, sendo a única da tripulação a saber quais vão ser as decisões do piloto-comandante no que toca aos movimentos do avião, acaba a correr para os sacos de plástico com o navegador, os operadores acústicos, de radar, comunicações e de armamento, mecânicos e técnicos de voo. "Fica tudo mareado, agarrado aos sacos.... levamos grandes tareias, porque a aeronave é muito manobrável."

Acresce que nas operações onde operam "com caças e homens no terreno em simultâneo, o trabalho é complexo, exigente... e é tudo muito rápido, porque é feito em função dos caças", explica a controladora tática, acrescentando um pormenor: "Usamos coletes com três quilos que, no fim da missão, pesam 10 ou 12 quilos."

Para receber e gerir a informação que "todos debitam", o/a TACO tem ecrãs, seis rádios com diferentes frequências encriptadas, três sistemas de troca de mensagens escritas, meios de processamento de dados e imagens em tempo real, comunicações satélite e rádio. Sendo o P-3C uma aeronave de patrulha marítima que funciona como plataforma de comando e controlo, a Força Aérea começou há alguns anos a rentabilizá-la através do apoio a operações em terra. "Conseguimos monitorizar alvos (fazer a sua deteção e identificação) a grande altitude e grandes distâncias, filmar e transmitir para o terreno imagens em tempo real", precisa Ana Silva.

Para apoiar missões que podem durar até 14 horas, o avião tem uma área de descanso e refeições. São duas ou três macas, forno, máquina de café, minifrigorífico... e não só: há local para biberons e ainda um trocador de fraldas (memórias de tempos e usos anteriores).

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