Os cravos da liberdade viraram amarelos

A manifestação dos colégios juntou 40 mil pessoas, o dobro das esperadas, e foi também um espetáculo de variedades

Pelo palco em frente à escadaria da Assembleia da República passaram grupos de ginástica, de cavaquinhos, bombos, música, dança e uma banda filarmónica. Atuações intercaladas com gritos de ordem - "Defesa da Escola Ponto", "a luta está ganha" -, agradecimentos às forças de segurança e discursos dos representantes do Movimento Defesa da Escola Ponto. A manifestação de ontem convocada pelo movimento contra os cortes nos contratos de associação foi assim: um espetáculo de variedades, com participantes bem-dispostos e quase sem pedir a demissão de ninguém (exceção feita para a secretária de Estado Adjunta e da Educação, Alexandra Leitão). A tarde ainda ficaria mais animada para a própria organização, que foi surpreendida com o número de manifestantes, o dobro do esperado.

"Esperávamos 20 mil pessoas e apareceram 40 mil", referiu um elemento da organização. No palco o speaker confirmava os números: "Quero agradecer a todos. Não somos um sindicato nem um partido, somos pais e professores, pessoas simples que amam os seu filhos e somos 40 mil. Já ganhámos".

Apesar de não serem um partido, os defensores dos 79 colégios com contrato de associação contaram com o apoio de várias caras políticas. Desde os menos reconhecidos presidentes de junta, até aos presidentes de câmara e deputados, que foram ao palco. Figuras do PSD e do CDS-PP marcaram presença, a título pessoal, na defesa de que o financiamento não deve ser cortado.

Alguns, como Ana Rita Bessa e João Almeida (ambos do CDS-PP) não quiseram deixar de usar a "farda" dos participantes. De t-shirt amarela juntaram-se à concentração que aconteceu entre as 14.30 e as 17.00. Outro adereço imprescindível a quase todos os participantes era o cravo amarelo. "Mostra a liberdade deste país e a liberdade de escolha", justifica António Rodrigues, trabalhador há 34 anos do Colégio Imaculada Conceição de Cernache (CAIC). Além de trabalhador, António foi aluno da escola. É o caso também de alguns pais. Estudaram no colégio e vieram agora defender a escola dos filhos.

"Até eu lá andei e tenho 50 anos"

Equipada a rigor, com cravos de papel na cabeça e na mão um molho de flores verdadeiras que vai partilhando, Ausenda está não só na manifestação, mas também na festa. "Tenho dois filhos no externato [D. Afonso Henriques] e até eu lá andei e já tenho 50 anos. Foi a primeira escola a existir lá e a nível de educação é a melhor". Orgulhosa do percurso dos filhos, olha para trás, aperta as bochechas à filha e diz: "Estou aqui para lutar pela escola e ver a minha filha a cantar." A filha subiu ao palco a seguir para cantar I didn"t mean it de Aurea.

O registo de festa continuou com ondas, o hino entoado várias vezes e muitas salvas de palmas. Mas como o momento era também de lembrar ao governo que são contra os cortes nos contratos, houve tempo para a defesa da causa.

Recusar ser moeda de troca

"A estratégia de dividir para reinar falhou. Estão cá todos: os que o governo quer emancipar e aqueles a quem o governo não quer fazer nada, por enquanto. Estão cá escolas estatais e privadas que não têm nada a ver com os contratos de associação", elogiou Luís Marinho, representante dos pais no Movimento Defesa da Escola Ponto. Este evocou ainda a ideia de serem "moeda de troca", algo que na multidão também se ia apontado - "somos moeda de troca para manter a geringonça [a coligação de esquerda que apoia o governo do PS] a funcionar".

Para o porta-voz do movimento e diretor do Centro de Estudos de Fátima (CEF), Manuel Bento, a tarde foi "histórica". "Pela primeira vez estamos na Assembleia da República, neste local de liberdade, 40 mil pessoas com esta cor da alegria a reivindicar para que reconheçam a nossa razão. Somos escolas de qualidade. Estamos aqui para que nunca mais se desdenhe a nossa escola".

Também em defesa do colégio da sua terra, Silvério Rodrigues Regalado (PSD), presidente da Câmara de Vagos, não calou a indignação: "Se o colégio fechar são 600 crianças que ficam sem alternativa, por isso, só tenho que ser contra a hipocrisia de um governo que só entende a escola pública como aquela que é do Estado. Num país onde há liberdade para tudo, onde há liberdade para um homem casar com outro homem, não percebo como não há liberdade de escolha de um ensino público e de qualidade."

Do lado dos deputados, uma das presenças mais notadas foi de Ana Rita Bessa, do CDS-PP. A centrista acredita ser "impossível" que o governo ignore a manifestação de ontem, "também pela forma ordeira como decorreu e o facto de não ser contra nada, nem contra ninguém. É a favor de projetos educativos", concluiu a parlamentar.

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