Olá Portugal: a semana que muda a vida a crianças lusodescendentes

Um professor de Português em França organiza uma semana intensa de atividades para 33 crianças na serra de Aire

Vitória Cândido enxuga-se à pressa depois de um banho na piscina da Quinta da Escola. A manhã só vai a meio mas o grupo de 30 crianças que integra (a maioria filhos de lusodescendentes a viver em França) já correu e saltou em poucas horas mais do que habitualmente faz numa semana, às vezes num mês. Nos primeiros dias o grupo não teve sorte com as condições climáticas, mas neste as máximas vão rondar os 27 graus aqui em pleno Parque Natural das serras de Aire e Candeeiros, na aldeia de Alvados, concelho de Porto de Mós, no distrito de Leiria. Onde o calor se sente mais.

Vitória vem falar com o DN porque é uma das alunas de ascendência portuguesa que melhor fala a língua. Tem 11 anos, é das mais velhas, e já não é nova nestas andanças. "É a segunda vez que venho e estou a adorar. Conhecemos sempre coisas novas." A seu lado, a pequena Valentina da Rocha, 8 anos, filha de mãe brasileira e pai português, expressa-se com facilidade. "Gosto muito do que andamos a fazer. Está a ser muito divertido", diz ao DN antes de se atirar de novo para a piscina e mergulhar naquele rol de brincadeiras. Como ela também Clohé Marques, 11 anos, que exercita o português de forma intensa nestes oito dias em Portugal.

Há quatro anos que a Coordenação das Coletividades Portuguesas de França (CCPF) organiza uma semana de imersão linguística em parceria com a Quinta da Escola, um Centro de Educação Ambiental pelo qual passam alunos de vários pontos do mundo. A ideia não é apenas proporcionar aos jovens um maior contacto com a língua, mas sim ir mais além. "Esta é uma semana que permite vivências diferentes, um contacto cultural com o nosso país, com o património", explicou ao DN Adelino de Oliveira Sousa, o professor de Português que desde 2016 é responsável pela iniciativa. Deixou Portugal há 30 anos e desde então envolveu-se no mundo associativo, a partir da região de Paris. Ele e a mulher, a francesa Marie Hélène Euvrald, são dirigentes da CCPF e têm investido muito na promoção da língua portuguesa. Adelino é natural de Maiorga, no concelho de Alcobaça, e ainda em Portugal começou por trabalhar com uma organização internacional - MAC - Movimento de Ação de Crianças e Adolescentes. Quando chegou a França continuou essa atividade com crianças de países em vias de desenvolvimento, no âmbito de organizações de imigrantes em França, que se quotizavam entre si para apoiar o desenvolvimento de projetos nos países de origem: Argélia, Marrocos, Mali. Várias décadas depois de se dedicar ao ensino da língua portuguesa em França percebeu que alguns colegas "vinham a Portugal com as suas turmas, já do secundário, fazer visitas a Lisboa. Pensei que seria interessante fazer este tipo de experiência com crianças mais pequenas", contou ao DN.

E assim fez. Abriu inscrições e rapidamente esgotou as 33 vagas disponíveis, até agora inteiramente suportadas pelos pais financeiramente, mas neste ano, pela primeira vez, com um apoio oficial da Direção-Geral dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas. "Em casa, os pais pouco praticam o português e esta semana revela-se muito importante para a compreensão da língua", sublinha Adelino Sousa, que nesta tarefa é acompanhado por Ana Carlos, também ela professora de Português em França. "Aqui falamos sempre em português. E é curioso que, quando chegamos, perguntamos sempre quem é que não compreendeu alguma coisa. Ao princípio há muitos braços no ar. Quando chegamos ao fim quase não há nenhum", conta a professora, enquanto supervisiona as atividades que o grupo vai desenvolvendo. Entre aquelas 33 crianças (dos 7 aos 11 anos) há alunos de famílias com origem no Mali, Congo, Itália, França, Brasil e Portugal. E essa diversidade explica muito do interesse que nos últimos anos cresce à volta do ensino do português.

O programa de atividades é diversificado: desportos radicais, passeios de burro, visitas à praia de São Martinho do Porto, a uma fábrica de cerâmica, ao Portugal dos Pequenitos, em Coimbra. "Assim, os alunos ficam com uma noção clara de toda a arquitetura portuguesa", sublinha Adelino Sousa.

Há horas certas para cumprir, rotinas de banhos, refeições e atividades tão simples como escrever um postal aos pais. Como antigamente.

Exclusivos