Oito mãos escreveram manifesto da "geração à rasca"

Três dias, uma canção dos Deolinda e mais de 800 comentários na rede social Facebook inspiraram a escrita a oito mãos do manifesto que deu as palavras para o protesto de sábado da "geração à rasca".

A ilustração do movimento resultou do "contributo espontâneo de um rapaz", conta à Lusa Paula Gil, 'dona' de duas das oito mãos. A 04 de Fevereiro, Paula, Alexandre, João e António, à mesa de um café de Lisboa, falaram, como outras vezes, da "situação do país". "E concluímos que não éramos só os quatro", relata Paula. Perceberam que tinha "chegado a altura para mostrar" uma geração de "muitos com problemas de emprego, precariedade, desemprego". A letra da música "Parva que sou", dos Deolinda, ajudou a provar a "consciência muito social e que não há só casos individuais". Da conversa, partiram para a criação da página no Facebook.

Em três dias, os comentários ultrapassaram os 800, na sua maioria de pessoas que os quatro não conheciam. Tiveram, então, a certeza que não estavam sós e perceberam que "fazia sentido" avançar com uma "espécie de manifesto" que pudesse servir de definição e identificação. Da "reunião", que durou a "tarde e noite", resultou o manifesto, já em seis línguas, dos "desempregados, 'quinhentoseuristas' e outros mal remunerados, escravos disfarçados, subcontratados, contratados a prazo, falsos trabalhadores independentes, trabalhadores intermitentes, estagiários, bolseiros, trabalhadores-estudantes, estudantes, mães, pais e filhos de Portugal".

António e Alexandre têm 25 anos, Paula, 26, e João, 27. Conheceram-se na faculdade de Economia de Coimbra, onde se licenciaram em Relações Internacionais. Paula faz um estágio profissional, Alexandre é bolseiro de investigação científica, João está desempregado e António é trabalhador-estudante. Três dos quatro organizadores militaram em partidos políticos e todos envolveram-se em associações de estudantes, chegando a organizar um debate à imagem das Nações Unidas. Porém, quem chegava era de diferentes partidos e ideologias ou nem sequer os tinham. E o movimento definiu-se como "apartidário, laico e pacífico". "Não somos ingénuos em pensar que não iriam surgir apoios de partidos, que são formados por cidadãos e os cidadãos são todos convidados a participar", comenta Paula Gil, para quem o português não é "inerte e tem uma voz que quer mostrar".

O objectivo é conseguir uma "concertação social, com cidadãos, políticos, entidades empregadoras e sindicatos para se chegar a uma solução quanto a direitos laborais". Os quatro ficaram surpreendidos com o crescimento do movimento, mas afinal mostraram uma "realidade que só não estava na praça pública". Dos mais chegados, Paula Gil recebeu solidariedade, apoio e até a garantia dos pais de a acompanhar no sábado. Convidada a imaginar-se no final do protesto, Paula deseja que tenha sido dado um "passo no reforço dos movimentos civis e num modo de democracia participativa para lá das eleições". Nenhum dos quatro foi convidado para um partido e "não, não" conhecem os Deolinda.

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