"O SNS não pode deixar fugir a mais-valia dos médicos com experiência"

Entrevista a Ana Jorge, médica reformada a trabalhar e ex-ministra da Saúde

Foi para fazer frente à saída de médicos em larga escala por causa das reformas antecipadas e à falta de clínicos de várias especialidades, sobretudo médicos de família, que em 2010, com Ana Jorge à frente do Ministério da Saúde, o governo PS - o segundo liderado pelo então primeiro-ministro José Sócrates - criou um regime especial para contratar médicos reformados para o Serviço Nacional de Saúde. A medida excecional tem sido renovada todos os anos pelos sucessivos governos e foi aprofundada pelo atual executivo socialista.


Que balanço faz da medida que lançou em 2010 para atrair médicos reformados para o SNS?
Tínhamos falta de médicos e havia uma procura pelas reformas, a maior parte antecipadas, porque os médicos não queriam perder as condições. Houve uma grande saída de médicos do SNS e era preciso tentar que alguns continuassem a trabalhar. O resultado não foi tão espetacular como isso, mas sei que houve alguns que continuaram a trabalhar, continuando a descontar para a reforma ser cumulativa. Quem tinha reforma por antecipação poderia continuar a ter tempo inteiro, mas garantia aquelas condições de reforma. Quem tinha reforma por tempo recebia o valor mais favorável, acrescido de um terço. Depois foi alterado. Com Paulo Macedo, o vencimento era proporcional ao número de horas.
Os médicos podem exercer sem remuneração?
Quem quisesse trabalhar voluntariamente, seria possível. Mas tem de haver sempre um contrato que pode ser remunerado ou não.
Foi uma das médicas que beneficiou deste projeto.
Quando renunciei às funções de deputada, voltei ao Hospital Garcia de Orta como chefe de serviço (janeiro 2012). Reformei-me em 2014, mas nunca cheguei a sair. Tive um contrato de três anos, que podia ser renovável com a legislação de Paulo Macedo. Tenho um contrato de 20 horas semanais, segundo a nova legislação. Tenho a reforma por inteiro, por anos de serviço e por idade.
O que a levou a manter-se ao serviço? Foi o desafio pessoal e profissional ou foi pelo valor da reforma?
Tinha que ver com tudo. Não querer ficar sem trabalhar e também precisava de um complemento da reforma... Não posso dizer que é baixa, mas precisava naquele momento de ter um complemento e fui à procura. Alguns fazem trabalho na privada, mas há outras maneiras e eu optei pelo SNS. Até por gostar de fazer o faço. A instituição também.
Tem sido compensador?
Tem. Gosto do que faço, acho que o que desenvolvi foi interessante do ponto de vista da instituição e continuo a fazer. Em termos pessoais, tem sido gratificante. Não me via sem estar a trabalhar. Preciso de ter horários, obrigações, porque me fazem manter ativa. Acho que valeu a pena aprovar o diploma. Permitiu mais médicos a trabalhar, que pessoas mais velhas, mais experientes e fundamentais pudessem manter-se nos serviços. O Serviço Nacional de Saúde não pode deixar fugir a mais-valia que são os funcionários com mais experiência, essenciais à qualidade dos serviços e formação dos mais novos. A formação em saúde faz-se ao longo da vida, com formação ombro a ombro.

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