O que o Banif propôs à Europa para salvar o banco

Sair totalmente do imobiliário, deixar o interior do país, partir o banco em três. Ideias apresentadas em junho de 2014 à Comissão

O Banco de Portugal, depois. Para já, as administrações do Banif. São elas que, no imediato, vão ter de responder perante os deputados da comissão parlamentar que investiga o colapso do banco e a sua venda ao Santander por 150 milhões de euros, com custos para os contribuintes de 2,2 mil milhões de euros.

Hoje o primeiro inquirido será Joaquim Marques dos Santos, presidente do banco de 2010 até março de 2013 (em janeiro desse ano o banco tinha sido recapitalizado com dinheiros públicos em 1,1 mil milhões de euros); depois, à tarde, Jorge Tomé, CEO desde março de 2013 até à resolução, em 20 de dezembro passado.

Um plano de reestruturação que o Banif apresentou à Comissão Europeia em junho de 2014 - documento de 368 páginas a que o DN teve acesso - revela que a administração do banco laborou por exemplo em cenários macroeconómicos que se revelaram longe da realidade. O plano, se tivesse sido posto em prática, teria duração até junho de 2018.

A realidade tomou um rumo bem distinto do cenário. O plano de recuperação previa, por exemplo, que a economia estivesse a crescer a uma taxa de 1,4% logo no final de 2014, meio ponto percentual acima dos 0,9% de evolução real (cumpriram-se porém os 1,5% previstos para 2015).

Quanto à taxa de poupança das famílias, fixou-se nesse ano (2014) nos 5,8% do rendimento disponível e em 2015 nos 4,2%, o valor mais baixo desde 1999 e longe da fasquia de 12% apontada para os dois últimos anos no mesmo relatório.

Pior ainda foram os efeitos do inesperado comportamento das Euribor e da ação do Banco Central Europeu (BCE) para relançar o crescimento. Em 2014, com a economia da zona euro ainda em semicoma e a inflação abaixo de um ponto, Mario Draghi puxaria de toda a artilharia do BCE para estimular o crescimento, anunciando um corte histórico da Euribor para 0,05%, o que acompanhou de um pacote de medidas para garantir mais liquidez no mercado e no financiamento.

Mas o que aconteceu desde então não foi a esperada reação de impulso ao crescimento; o financiamento continuou a não chegar às empresas, que mantiveram as dificuldades de pagamento de dívidas, de contratação e de desenvolvimento de negócios. E em consequência o BCE foi obrigado a alimentar a "bazuca" com munições sucessivamente maiores e a cortar os juros inclusivamente para valores negativos. Em que é que isto influencia a atividade dos bancos? Por um lado, é um desincentivo à poupança - estando os juros dos depósitos indexados às Euribor, uma taxa negativa implica um retorno de 0%; por outro, retira margem aos bancos nos empréstimos: quanto mais baixa a prestação da casa, menos o banco recebe em juros. O que também correu muito mal foi a fuga de capitais. Em 2012, a carteira de depósitos perfazia um total de 7747 milhões de euros e o banco previa uma quebra na sua fatia de depósitos relativamente ao mercado quer no continente (uma redução prevista de 2,4% para 1,8%) quer nas ilhas (aqui a quota de mercado passaria, antecipava--se no relatório, de 31% para 28%).

Limite salarial: meio milhão

Nos três anos seguintes, esse valor reduziu-se em cerca de um terço, com mais de 1200 milhões de euros a desaparecer só entre junho e dezembro de 2015, na sequência de notícias de que o banco iria mesmo cair. A corrida aos depósitos terá precipitado o desfecho, dificultando significativamente o cumprimento do plano de recuperação.

O plano de reestruturação previa a separação do Banif em três unidades de gestão diferentes mas de uma mesma entidade legal e com o mesmo CEO: o banco de retalho (Banif Retail), o Banif Legacy (parte não central do negócio) e o Banif Mais (crédito ao consumo). A administração comprometia-se também a cortar os seus salários. Ninguém poderia ganhar mais do que 500 mil euros/ano.
Sair do imobiliário

Depois haveria uma diminuição drástica de balcões (o crescimento desmesurado da rede foi apresentado pela administração como uma das razões dos problemas do banco, bem como a inexistência de mecanismos de avaliação de riscos no crédito. A rede ficaria reduzida, no final de 2017, a 150 balcões (eram 276 no final de 2013). Todo o interior continental deixaria de ter balcões. A representação nas ilhas continuaria forte: 31 balcões nos Açores e 27 na Madeira .

Outra medida era a retirada do banco de setores que se revelaram muito prejudiciais. "O Banif vai parar de servir os setores do imobiliário e da construção civil no continente, já que são considerados demasiado arriscados e não deram no passado o retorno desejável", lê--se na página 135 do documento.

Imparidades disparam

As contas que o banco apresentou revelam que o desastre começou em 2011 - o ano em que o governo de José Sócrates foi forçado a pedir ajuda à troika dado que o Estado estava à beira da falência. As imparidades (crédito malparado) eram de 108 milhões de euros no final de 2010 e no final do ano seguinte mais do que triplicaram (para 342 milhões de euros). E em 2012 foram para 411 milhões de euros. Por consequência, a dependência do banco em relação ao financiamento do BCE também foi aumentando: de 2008 para 2013 triplicou (passando de 966 milhões de euros para 3083). O banco teve em 2010 um lucro de 44 milhões de euros mas no ano seguinte já deu prejuízo (153 milhões), valor que aumentaria exponencialmente para 578 milhões em 2012.

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