O que explica as setinhas e a cor laranja do símbolo

Para se distanciar de associações ao Estado Novo, o PPD escolheu um símbolo da luta social-democrata alemã contra os nazis

Era o PSD ainda PPD, acabado de ser anunciado, ainda sem estar legalizado, o 25 de Abril vivia-se nas ruas e o país estava em agitação permanente. Em pouco tempo, foi preciso dar forma e conteúdo ao partido que Francisco Sá Carneiro, Pinto Balsemão e Magalhães Mota constituíram a 6 de maio de 1974, quando divulgaram as linhas do programa do Partido Popular Democrático. Ao nome, sugerido pelo escritor Rúben A. Leitão, era preciso juntar o que distinguiria o partido: um símbolo.

Como contam José Pacheco Pereira e Júlio Sequeira - no livro Autocolantes do PPD (ed. Tinta-da-China), da coleção que nasce da Biblioteca e Arquivo de Pacheco, Ephemera - o símbolo foi desenhado por Augusto Cid, cartoonista comprometido e responsável pelo grafismo do partido. As três setas que vingaram foram recuperadas da luta dos sociais-democratas alemães contra os nazis.

Num tempo em que não se admitia qualquer ambiguidade com a ditadura do Estado Novo, "uma das principais preocupações de Sá Carneiro e dos fundadores do PSD era uma clara demarcação de qualquer proximidade ao regime caído a 25 de abril". E havia outra necessidade: a de ter um "símbolo identitário que competisse com a foice e o martelo usados pelo PCP e por vários grupos esquerdistas, e com o símbolo do PS", o punho da autoria de um socialista italiano, Enzo Brunori, depois simplificado.

Para a imagem do partido contribuiu também a cor laranja, adotada "por sugestão de Conceição Monteiro", militante do partido e que seria secretária pessoal de Sá Carneiro. No site do PSD conta-se que a escolha do laranja se devia a ser "uma cor quente e mobilizadora, diferente do vermelho, ideologicamente conotado com o PCP e o PS". Pacheco e Sequeira acrescentam que "a cor laranja foi escolhida, em junho de 1974", antes do símbolo.

Decidir o símbolo era "uma escolha difícil e exigente do ponto de vista ideológico". Pedro Roseta, jurista e antigo dirigente do PSD, "um dos que estiveram presentes na reunião da qual saiu a sugestão que viria a ser definitiva", explicou aos autores que o símbolo "acentuava não só a inserção do PPD na tradição social-democrata (...) como também fazia uma clara referência à resistência contra o nazismo e o fascismo". E assim se separavam as águas com o Estado Novo, como pretendia Sá Carneiro.

Pedro Roseta socorre-se do livro proibido pela ditadura Le Viol des Foules par la Propagande Politique (A Violação das Massas pela Propaganda Política), de Serge Tchakhotine, para escrever um texto no verão de 1974 em que explica a opção, depois publicado no Povo Livre, o jornal do PSD, a 25 de fevereiro de 1975, e agora reproduzido em Autocolantes do PPD. Roseta nota que as setas nasceram "espontaneamente" nas ruas da Alemanha nazi por militantes sociais-democratas que lutavam contra o totalitarismo - e são três para simbolizarem "os três fatores do movimento: o poder político e intelectual; a força económica e social; a força física".

Faltava o desenho - e as cores. Foi pedido a Augusto Cid que incluísse o laranja no símbolo. "Cid preferia a combinação do preto, verde e branco, mas veio a substituir o verde pelo laranja."
Fixado este símbolo, os autocolantes ajudam a propagar a imagem do novo partido. "Os autocolantes são uma marca da revolução portuguesa de 1974", que explodem com a "liberdade na propaganda política após o 25 de Abril", escrevem os autores.

"Depois do 25 de abril de 1974, o autocolante tornou-se a forma mais popular de propaganda política que se podia usar pessoalmente, muito mais popular do que os emblemas e os pins, menos visíveis e mais caros", notam Pacheco e Sequeira. É nos anos 1980 que há um "declínio do autocolante". E hoje, na liderança do PSD, vingou o pin na lapela com a bandeira de Portugal.

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