"O PS está preso por três frágeis acordos bilaterais"

Marco António Costa fala em dia "tragicamente histórico" pelo chumbo ao programa de governo e sinaliza que o PSD não dará a mão a António Costa caso o acordo de esquerda falhe

O programa de governo foi rejeitado e o executivo está demissionário. O que é que espera que Presidente da República faça?

Não me cabe tentar adivinhar o que é que o Presidente da República irá fazer ou dar-lhe conselhos. Cabe-me analisar o que se passou e retirar conclusões daquela que foi a atitude do PS. Assistimos a um dia histórico pela negativa.Tragicamente histórico porque a democracia viu atropelado o resultado da vontade popular para dar força a um conjunto de acordos entre PS e três outros partidos com assento parlamentar, que, apesar de terem partes comuns de texto, estão cheias de anexos e de incongruências.

O acordo parece-lhe frágil?

O PS não tem uma plataforma de entendimento, está preso por três frágeis acordos bilaterais, que não passam de um manifesto de vontades negativas que não se traduzem na construção concreta e objetiva de uma solução de governo. O que considero frustrante é que, ao fim de tanto tempo de negociações tão intensas, tecnicamente tão aprofundadas, aquilo que resulta são matérias muito débeis.

Não crê que permitam o cumprimento da legislatura?

Parece-me que são acordos que dificilmente conseguem consubstanciar um acordo de governo e, mais do que isso, um primeiro Orçamento do Estado.

O PSD está disposto a dar suporte a um governo de gestão?

Devemos evitar ao máximo todas as especulações, mas devemos ser muito claros: o que está em causa num governo de gestão não é o modelo, é o resultado. O país não precisa de governos de gestão, precisa de governos sólidos, capazes de executar um programa que mantenha a confiança naquilo que foi o esforço que o país fez.

Qual vai ser a estratégia do PSD se for oposição? Vai votar contra a maior parte dos diplomas do PS?

António Costa, ao ter metido o país nesta aventura, tem a responsabilidade de assumir para si todas as cautelas indispensáveis para que a opção de caminho (e de companheiros) que fez lhe garantam toda a estabilidade de que precisa para levar por diante o seu programa.

Ou seja, António Costa não contará com o PSD para o Orçamento de 2016.

O PSD saberá sempre comportar-se com sentido de responsabilidade. Mas julgo que António Costa não deixou de reunir todas as condições de que precisa para apresentar a tal alternativa consistente que dizia querer construir para poder derrubar este governo [irónico]. Há pouco ouvia-o dizer que se alguém violar os acordos bilaterais este casamento acabará em divórcio. O problema não são os casamentos e os divórcios, o problema são as consequências que isto tem na vida dos portugueses.

Depreendo que, com as propostas que constam no acordo, terá o voto contra do PSD.

Estamos certos de que o Dr. António Costa se reuniu de todas as condições e de todas as garantias para apresentar a tal solução consistente que disse que garantiria para derrubar um governo legitimamente escolhido pelos portugueses. Derrubou o governo, tem a obrigação de ter essas garantias para si próprio. Se não as tem, tem de viver com as consequências dessa circunstância.

Em junho teremos legislativas?

Não me cabe fazer adivinhação.

Se esta plataforma não resultar, não será pelo PSD que o PS continuará a governar?

Essas perguntas têm de ser feitas ao Dr. António Costa. Têm de lhe perguntar que garantias efetivas, sólidas e consistentes tem para cumprir a palavra que disse que honraria de só derrubar um governo quando tivesse essas garantias. A palavra dada é palavra honrada.

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