"O Independente foi um projeto político escondido com um jornal de fora"

Para os autores do livro sobre o Independente, o semanário quis criar uma nova direita

No livro fica patente que havia um projeto político n"O Independente. Foi bem-sucedido?

Filipe Santos Costa (F.S.C.): O nosso pressuposto é que O Independente foi um projeto político escondido com um jornal de fora. Apesar das dificuldades iniciais, tornou-se um fenómeno jornalístico, político, cultural, sociológico quase, e marcou uma geração, uma época e vendia bem. Paulo Portas tinha o objetivo de só sair quando vendesse mais um exemplar que o Expresso. Foi uma promessa que não cumpriu, mas é da vida.

Liliana Valente (L.V.): Mas não esteve longe. Fez mossa no cavaquismo, mas não a que esperava. Derrubou ministros, provocou o pânico de quinta-feira à noite, mas não destruiu o cavaquismo.

F.S.C.: Mas tinha duas vertentes: demolir o cavaquismo, as políticas de esquerda que, segundo Portas, Cavaco prosseguia (apesar de ter os votos da direita), e abrir espaço a uma direita conservadora, liberal, patriótica, nacionalista. E ele arranjou espaço para relançar o CDS e acrescentou-lhe as suas iniciais (PP) e é o líder partidário com maior longevidade da história da democracia.

Essa pretensão de Portas já existia nos tempos em que era diretor d"O Independente? Ou até antes?

F.S.C.: Acho que essa é a pergunta de um milhão de euros [risos].

L.V.: Já havia uma intenção política no nascimento do projeto mas, por exemplo, temos uma descrição de Marcelo Rebelo de Sousa que, se calhar, responde a essa pergunta, em que ele identifica as três fases d"O Independente, e dá para perceber um bocado como é que por fora era visto o projeto que era ao mesmo tempo político.

F.S.C.: A partir de 1991, O Independente criou espaço para uma nova liderança, em que Portas encontra Manuel Monteiro e começa a haver um trabalho umbilical entre o jornal e o CDS, que até permite que o CDS à quinta-feira marcasse conferências de imprensa para sexta sem revelar o tema, sabendo qual ia ser a manchete d"O Independente. E os editoriais de Portas sobrepunham-se na perfeição aos discursos de Monteiro, o que não era estranho porque era Portas que escrevia boa parte desses discursos, como ele próprio reconhece.

Cavaco fez caça às fontes d"O Independente. Portas diz que "direta ou indiretamente só Cavaco é que não era fonte". Como é que um jornal pode suscitar tanta fobia?

L.V.: Havia fontes que davam notícias para elas próprias não serem atacadas, isso era um fenómeno. O próprio Portas diz que [Mário] Soares usou O Independente, que foi um instrumento também para o presidente na altura, um bocado na lógica de que "o inimigo do meu inimigo meu amigo é".

Houve gente que recusou falar convosco. Ainda existe o trauma d"O Independente?

F.S.C.: Há uma pessoa, membro do governo de Cavaco, que se referia a O Independente como a lápide. E diz que aquilo não era mortal mas deixava tanto rasto, era tão corrosivo, tão eficaz que é natural que haja traumas. O próprio Portas admite que houve momentos em que foram longe de mais.

Miguel Esteves Cardoso diz que nunca pediram desculpa.

L.V.: Não pediam licença e também não pediam desculpa. E foram longe de mais com muitas pessoas. Há dois capítulos, por exemplo, sobre como tratavam o casal Cavaco e Maria, mas também membros do governo só porque não eram lisboetas e urbanos - numa perspetiva de snobismo até.

F.S.C.: Esteves Cardoso, numa crónica que recuperamos, admite que pode ter havido momentos em que foram longe de mais mas que preferiram arriscar e espalhar-se ao comprido do que ficar quietinhos, bem comportados, e isso é toda uma atitude difícil de repetir.

Sentiram a tentação de fazer comparações entre o Portas jornalista e o Portas político?

L.V.: A maior parte das vezes deixámos ao leitor essa análise mas há situações em que é legítimo perguntar se o Portas político resistiria ao Portas jornalista. Temos quase a certeza de que não seria uma relação pacífica.

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