O gosto ajuda a explicar o sucesso

O DN lançou a iniciativa Professor do Ano, que visa reconhecer os melhores docentes. Depois de Juan Nolasco, de Santa Maria, Açores, Maria do Carmo Leitão é a vencedora de novembro. A professora de Lamego tem acumulado sucessos com uma abordagem em que as novas tecnologias têm um papel essencial

É professora há quantos anos?

Faz em janeiro 35 anos.

Onde começou? Lembra-se do primeiro dia de escola e do que sentia?

Comecei em Queimadela, Armamar. Trabalhei aí meio ano no primeiro ciclo. Lembro-me que era muito nova e de que a expectativa era grande. A escola não tinha eletricidade, trabalhávamos com um gerador a gasolina. Tive uma colega mais idosa que me ajudou, a D. Maria Luísa. Depois fui para a escola de que gostei mais, em Almofala, Castro de Aire, onde passei 24 anos. Nessa escola trabalhei em direto, com televisão, recorríamos muito aos audiovisuais. Estive ainda em Ervedosa, São João da Pesqueira, e depois em Lamego, onde continuo.

Integrou projetos de telescola?

Sim, trabalhei em direto e com aulas gravadas. Primeiro com menos autonomia mas depois com toda a autonomia. Eram complementos das aulas. Filmes, que levávamos às crianças da serra, do interior, mostrando-lhes um modo de ver o mundo diferente.

Esse contacto com as tecnologias influenciou a sua forma de trabalhar? Em 2009 a sua escola ganhou um prémio da Microsoft...

Sim. Não tenho formação académica em novas tecnologias, sou autodidata, mas dedico muitas horas à aplicação prática de muitas tecnologias que há para o ensino. Esse prémio da Microsoft foi muito importante, porque foi um prémio mundial de inovação pedagógica. Concorri com um projeto para os computadores Magalhães, que foi reconhecido mundialmente.

Como surgiu esse projeto?

Ninguém me pediu nada. Recebi o Magalhães e achei que devia dar-lhe uso. Começámos a fazer uns trabalhinhos que foram pioneiros na altura. Hoje não serão grande coisa, mas foram os primeiros passos. Houve escolas onde não se aproveitou nada, infelizmente. Na minha escola, ainda hoje os alunos da turma do terceiro ano os usam, como se fossem um lápis.

E tem conseguido recuperar alguns alunos com essa abordagem pelas novas tecnologias, não é verdade? Foi um dos aspetos que levaram o júri do DN a escolhê-la...

Temos tido sucesso com alguns alunos. Tornam-se mais dinâmicos, com a autoestima mais elevada, mais atentos. Trabalham de um modo diferente. Estão mais dinâmicos e criativos.

Recebeu prémios da Microsoft e do Ministério da Educação, foi distinguida também pelo seu concelho. Agora recebe este prémio do DN. Qual é o seu segredo?

Passo muitas horas a trabalhar para os alunos. Às vezes diz-se que os professores não trabalham. Eu passo muitas horas da noites a trabalhar. Vou coordenando o meu tempo. Por exemplo: agora tive um trabalho com idosos, um desafio que me lançaram. Há colegas que por vezes têm medo. Eu faço por deitar mão a esses desafios.

As estatísticas mostram que, regra geral, alunos de meios mais desfavorecidos têm piores resultados. No seu caso, parece contrariar essa regra, mas porque é que se mantém esse círculo vicioso no geral?

Também passa pelos professores. Alguns estão cansados. Com todas estas reformas [educativas] muitos ficam saturados. Houve muitas mudanças num curto espaço de tempo. Não sou imune a esse sentimento, sinto que há desalento. Mas saio da sala de aula e digo que gosto de trabalhar com os meus alunos. Não estou cansada.

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