O filho da costureira e do carpinteiro que fundou uma dinastia

Belmiro de Azevedo deixa o cargo de presidente do conselho de administração da Sonae ao fim de 41 anos. Engenheiro, criador do Continente, dono do Público, fez comentários cáusticos à classe política.

Leia o perfil que Fernanda Câncio escreveu em 2015, quando deixa o cargo de presidente do conselho de administração da Sonae. Belmiro de Azevedo morreu esta quarta-feira 79 anos

"Nesta coisa de saber e de mandar há três maneiras: ou se é filho do patrão, ou se casa com a filha do patrão ou então é quem sabe. Mas só quem sabe é que manda." Não é de Shakespeare, decerto, este resumo sobre o poder, nem sequer de Belmiro, citado como costumando contá-lo em encontros motivacionais das suas empresas. Ter-lhe-á sido dito por alguém no início da vida profissional, quando estava na Efanor (Empresa Fabril do Norte, fábrica de fiação que terá sido a primeira do país a produzir carrinhos de linhas e que, propriedade da Sonae, foi encerrada em 1994). Belmiro, o mais velho dos oito filhos de uma costureira e de um carpinteiro de Tuias, Marco de Canaveses, decerto não foi filho de patrões e também não se casou com a filha de um: é antes de mais um produto combinado do pouco Estado social existente no pré-25 de Abril, das peripécias do período revolucionário e, claro, das suas próprias e reconhecidas capacidades - de mando, desde logo.

Começa tudo, é o próprio a contá-lo na biografia oficial no site da fundação com o seu nome, no professor da escola primária. E por acaso começou mal: chumbou na primeira classe, facto que atribui a um mau professor. Mas logo pelo caminho lhe surgiu um bom, Carlos da Silva, o qual, dando-se conta das capacidades da criança, terá convencido a família de que esta tinha de prosseguir os estudos. E esta assim fez, enviando o menino para o Porto, entregue ao tio e padrinho do mesmo nome, fiscal de obras.

Aí frequentou o liceu Alexandre Herculano, ingressando depois, em 1956, na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, onde se licenciou em Engenharia Química com 16, em 1964, depois de um interregno em 1959-60 para o serviço militar (escapando à risca à Guerra Colonial, iniciada em 1961).

No último ano da faculdade começou a trabalhar na já citada Efanor e casou (com Maria Margarida Carvalhais Teixeira, farmacêutica, com quem viria a ter três filhos: Paulo, Cláudia e Nuno). Abandona a empresa ao fim de dois anos, diz que por considerar faltar-lhe “estratégia”, e entra para a Sociedade Nacional de Aglomerados e Estratificados (Sonae), propriedade de Afonso Pinto de Magalhães, dono do banco do mesmo nome e presidente do FC Porto. “Nesta empresa desencadeou rápidas e profundas mudanças que a transformaram num pequeno grupo empresarial”, diz Belmiro diz de si próprio. Para prosseguir: “No período revolucionário de 1974, Pinto de Magalhães partiu para o exílio e Belmiro de Azevedo assumiu o controlo da Sonae.”

A história é um bom bocado mais complicada, e dela parece haver várias versões. No documentário Donos de Portugal, por exemplo, diz-se que quando a família Pinto de Magalhães saiu do país por causa da nacionalização da banca (no pós-11 de Março de 1975), a Sonae ficou entregue a um pequeno grupo de técnicos, a quem tinha sido entregue um conjunto simbólico de ações. “Anos depois, um deles [Belmiro] comprará uma quota substancial da empresa aos herdeiros de Pinto de Magalhães, com empréstimo de meio milhão de euros de origem até agora desconhecida”, conclui o excerto. O controlo da Sonae implicou uma longa batalha judicial com os originais proprietários, terminada a contento do fundador da nova dinastia, que no ano passado surgia como 687.º na lista dos mais ricos do mundo, com uma fortuna de 2,5 mil milhões de dólares.

Combinando a fama e o proveito de empresário de sucesso com pronunciamentos públicos não raro cáusticos, o dono do jornal Público, da cadeia de hipermercados Continente e Modelo, da Worten e Sportzone e da Optimus (agora fundida com a Zon na NOS) conta como principal derrota na sua carreira o soçobrar da OPA à PT, em 2006, falhanço de que responsabilizou o governo Sócrates e Ricardo Salgado. Ainda assim, reservou a tirada de maior violência para Marcelo Rebelo de Sousa: em 1998, numa entrevista à RTP, disse que o então líder do PSD deveria ser “erradicado da sociedade portuguesa; deveria ser eliminado, pura e simplesmente. Não tem a categoria, a honestidade necessárias a um líder da oposição.”

A Cavaco chamaria, anos mais tarde, “um ditador. Mandou quatro amigos meus, dos melhores ministros, para a rua, assim, ‘com vermelho
directo.’” Entre as suas declarações polémicas mais recentes conta- se a de, em 2013, ter defendido a competitividade baseada nos baixos
salários, pelo que foi verberado quer pelos representantes dos trabalhadores quer pelos dos patrões, quando em 2010 dissera: “Os salários são baixos. O pessoal do meio é que ganha de mais. Têm de ser aumentados o último piso e o rés-do- chão (…) Para se ter uma sociedade coesa, os trabalhadores têm de ser bem tratados, não se podem explorar.” Contradições talvez típicas de quem já soube o que é estar no rés-do-chão. E que, aos 77 anos, certifica que os seus filhos, na coisa de saber e de mandar, tiveram direito à primeira hipótese, a dinástica.

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