O dia em que Costa se agarrou à motorroçadora contra os fogos

António Costa chegou ao coração da Serra de S. Mamede pronto para deitar mãos à obra. "Venho para fazer o que me ensinarem e me deixarem", garantia, enquanto um sapador florestal o ajudava a equipar-se da cabeça aos pés, antes de ser ligada a motorroçadora que haveria de deixar pelo restolho cerca de 20 metros quadrados de mato.

"É uma mãozinha, precisamos de muitas mais", resumia o primeiro-ministro durante a jornada em que se juntou aos sapadores florestais de Portalegre e a dezenas de militares que desmatavam floresta na prevenção de fogos.

A manhã decorria agreste no alto da serra que convive paredes-meias com a cidade de Portalegre. Cinco graus, vento cortante e uns borrifos de chuva gélida de quando em vez. O sol também ia espreitando, enquanto António Costa recebia a primeira "dica" do ministro da Agricultura ao pegar na motorroçadora. "O disco não pode tocar no chão porque faz saltar pedras", alertava Capoulas Santos, tirando partido da experiência pessoal.

Costa levou o aviso à letra para não tocar em pedras nem atingir rebentos de árvores e só interrompeu o trabalho por breves instantes quando um cabo da motorroçadora registou uma avaria, que seria resolvida num minuto. O primeiro-ministro voltou a pegar ao serviço. Terão sido uns cinco breves minutos, o tempo suficiente para ter uma ideia do trabalho árduo de quem desde manhã cedo ali estava a desmatar aquela faixa da chamada rede primária da serra que tem um natural estatuto de vulnerável. Por aqui não faltam episódios de incêndios de grandes proporções que demoraram dias a combater. O despovoamento votou os terrenos ao abandono e mesmo pela estrada principal é possível percorrer dezenas de quilómetros sem encontrar vivalma entre as povoações de Alegrete e São Julião.

É por causa de terrenos com as características da serra de São Mamede que as autoridades alertavam para a corrida de fundo que o país tem pela frente. "É um trabalho imenso", sublinhava Costa, admitindo que bastava olhar à volta para se perceber a dimensão da floresta a perder de vista. "Temos que começar por uma ponta, é essencial passarmos à rede secundária e depois irmos, palmo a palmo, fazendo o trabalho", insistia o primeiro-ministro depois de já ter parado noutra franja da serra São Mamede, onde a desmatação já exibia a primeira fila de pinheiros a uns cerca de 50 metros da estrada.

"Não quer dizer que resolva todos os problemas, mas é um passo grande na prevenção caso haja um fogo aqui. O socorro ganha tempo", explicava ao DN um dos sapadores florestais, com a presidente da Câmara de Portalegre, Adelaide Teixeira, a puxar pela necessidade de garantir limpezas mais frequentes da serra. "Precisávamos que estivessem mais tempo e não só hoje, porque há muito material combustível", dizia a autarca, apontando para o "estradão" aberto pela autarquia em 2009 que precisa constantemente de manutenção. "Para isto são necessários mais recursos humanos e equipamentos", insistia.

António Costa admitia que também por isso abriu o concurso para mais 100 equipas de sapadores, o que representa mais 500 operacionais no terreno. "Estamos a reequipar as primeiras equipas com viaturas e material novo que não era renovado desde 2001", disse, sem poupar elogios ao trabalho que considera estar ser realizado "transformar a floresta numa fonte de riqueza e não de risco". Costa reforçava ser chegada a hora de "quebrar o círculo vicioso e tornar isto um círculo virtuoso", resumindo que este trabalho nunca acaba: "quando acabamos de limpar a natureza já está a renascer. É como ir barbeiro quando o cabelo cresce".

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