O dia em cheio de Marcelo, um Presidente a 200 à hora

Nenhum outro chefe de Estado foi tão rápido a entrar no Palácio de Belém, nem a reunir com as principais figuras da Nação

Mário Soares e Cavaco Silva foram de férias na semana a seguir à sua eleição para a Presidência da República, o primeiro para a Pousada de S.Lourenço, na Serra da Estrela, o segundo para a sua vivenda em Albufeira. Jorge Sampaio só se encontrou com o Presidente em funções, Soares, 10 dias depois da eleição, num almoço no Gambrinus. Muito, muito diferente da transição que está a ser protagonizada pelo atual Presidente eleito, Marcelo Rebelo de Sousa.

Quatro dias depois do ato eleitoral esteve, num só dia, a almoçar no Palácio de Belém com Cavaco Silva, num lanche/audiência com o Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues e a jantar com o primeiro-ministro, António Costa. "Ele é "agitado" por natureza, por isso parece-me normal esta atitude", diz Alfredo Barroso, que foi chefe da Casa Civil de Mário Soares e coordenador do processo de transição entre Soares e António Ramalho Eanes. Conta como foi nesse tempo: "falaram ao telefone, naturalmente, mas o Dr. Mário Soares estava muito cansado de todo o processo eleitoral (ganhou à 2ª volta contra Freitas do Amaral, em fevereiro de 1986) e decidiu ir com a Dra. Maria Barroso descansar para a Serra da Estrela, durante uma semana".

Alfredo Barroso recorda-se "que não chegou a haver uma passagem de testemunho entre ambos, nem reuniões", tendo em conta as relações "geladas" entre Eanes e Soares, como confessaria o fundador do PS na sua biografia, escrita por Maria João Avillez. E o primeiro encontro com o então chefe de governo, Cavaco Silva só foi mesmo depois da tomada de posse, que teve lugar a nove de março.

Jorge Sampaio também não teve pressa em receber o testemunho de Soares. O primeiro encontro entre ambos, dez dias depois da eleição, nem decorreu em Belém, mas sim no Gambrinus, um restaurante que estava na moda nessa altura, há 20 anos. A transição foi "calorosa", contaram os jornais, ou não fossem ambos militantes do mesmo partido político.

A passagem de testemunho de Sampaio a Cavaco Silva, quando o atual Presidente da República foi eleito, também foi a um ritmo bem diferente do de Marcelo. Cavaco foi recebido no Palácio de Belém oito dias depois da sua eleição, depois de uns dias de descanso no Algarve. A reunião demorou duas horas e meia. A de Marcelo e Cavaco ontem durou três horas, cerca de uma hora de audiência e depois duas horas de almoço. O primeiro encontro a sós de Cavaco Silva com o então primeiro-ministro, José Sócrates decorreu 12 dias depois da sua eleição, incluiu almoço em S.Bento e promessas de "cooperação estratégica".

"Bem vindo a esta casa"

Sorrisos, palavras amigáveis, sorrisos, marcaram ontem o primeiro encontro oficial dos atuais Presidentes da República, o eleito e o que está ainda em funções. "Senhor Presidente eleito, bem-vindo a esta casa que em breve será sua", disse Cavaco Silva, sorriso rasgado, dirigindo-se a Marcelo Rebelo de Sousa, um pouco mais circunspecto. Depois, pousaram para o batalhão de fotógrafos e operadores de câmara, com Cavaco a empurrar suavemente Marcelo para o lado, para que ficasse no enquadramento certo. "Até o sítio onde ficamos eles escolhem", gracejou Marcelo, sobre os fotógrafos.

Mais tímidos os sorrisos de circunstância, à tarde, no aperto de mão a Eduardo Ferro Rodrigues, o Presidente da Assembleia. O cumprimento formal só aconteceu a pedido dos fotógrafos, nos Passos Perdidos. O titular do segundo mais alto cargo da Nação tinha um presente para Marcelo Rebelo de Sousa: um exemplar em miniatura da Constituição da República Portuguesa, a lei fundamental do país, que tanta polémica suscitou entre a esquerda e a direita, na última legislatura. "Muito obrigada. A Constituição está no meu coração", agradeceu diplomaticamente o Presidente eleito. "Foi uma simbólica cortesia", justificou ao DN o gabinete de Ferro Rodrigues, lembrando que fez igual oferta quando recebeu António Costa.

António Costa regressou mais cedo de Haia para jantar com o Marcelo. Com o orçamento para 2016 debaixo de fogo, o primeiro-ministro ainda tinha um sorriso expressivo para receber o próximo chefe de Estado. Aperto de mão longo e, pela terceira vez no dia, Marcelo ouviu as "rajadas" das máquinas fotográficas. Subiu as escadas da residência oficial, em passos largos, atirou a parka pela porta e, ao lado de Costa voltou a sorrir, em pose formal para as objetivas das máquinas e das câmaras de filmar. O jantar ainda decorria à hora do fecho desta edição.

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