'O Dezanove' que afinal se chama Artur

Em Lisboa já chegaram a ser 400, mas agora estão reduzidos  a meia centena. Histórias  de quem vende a "taluda".

"É o 19, o 19. Quem quer o 19 para a Lotaria do Natal?" Apregoa o cauteleiro junto da Casa da Sorte do Rossio, em Lisboa. Tanto se fixa num número que é conhecido pelo "dezanove" e muito poucos sabem o seu verdadeiro nome: Artur Loureiro, 50 anos, há 26 a vender cautelas.

"Podia ser seu colega, tirei o curso de línguas e de comunicação social na Universidade Nova, mas não encontrei nada no jornalis-mo, para muita pena minha", explica. É cego, "mas não surdo", brinca com quem lhe fala alto. Guarda números certos para os clientes habituais. Mas também faz negócio com quem passa, quem escolhe os números de acordo com a superstição de momento - apenas 20% da clientela.

Artur Loureiro desloca-se entre a Rua do Amparo e a Praça D. Pedro V. Chega por volta das 10.00, mas antes vendeu "alguma coisinha" na Pontinha, onde mora. Não desvenda os lucros deste negócio, actividade para a qual trouxe os pais, já falecidos. Acaba por revelar que vende uma média de 120 cautelas (fracções) da Lotaria Clássica e 200 da Lotaria Popular. E a Lotaria do Natal? "Ainda é a que se vende mais por causa da tradição, mas, com a degradação do tecido social português, nem todos têm 15 euros para comprar uma cautela, e a clientela vai decrescendo."

São os clientes certos que o mantêm na rua, a quem já "deu alguns bons prémios. Antigamente, tinha mais compradores do bilhete inteiro, agora quase só o compram "em sociedade".

João Salgado, 79 anos, ex-empregado de mesa, é um dos clientes habituais. "Sou de Estremoz e comprava lá. Compro mais aqui ao "Dezanove", mas também na Casa da Sorte e em outros sítios. Jogo em tudo: Totobola, Totoloto e o Euromilhões. Há tempos saíram-me dez mil euros na Lotaria e, em 1998, ganhei sete mil contos no Casino Estoril." Compra a terminação 15 e este Natal adquiriu, ainda, o 61 nos Correios.

O que interessa na Lotaria são as terminações. E Luís Lopes, dono do Quiosque da Sorte, frente à Santa Casa da Misericórdia, tem de ter sempre o 344 e o 744, este último o seu número da tropa e com que também joga. O quiosque está na família desde 1933. Vendem todo o tipo de jogo e têm revendedores. São sobretudo papelarias, já que os cauteleiros praticamente não se vêem.

"Vendo Lotaria porque sou cego [não gosta do "eufemismo invisual"]. Tenho 51 anos e sou dos mais novos, não se vê renovação da classe. A juventude não quer isto", justifica Artur. Aliás, a Lotaria tem uma componente social, cujos lucros revertem, também, para a assistência social. Os cauteleiros surgiram, também, como uma forma de dar emprego a pessoas com deficiências.

O responsável pelos cauteleiros da Casa da Sorte diz que a venda de lotarias até é um bom negócio e sem risco, as fracções não vendidas são devolvidas minutos antes da extracção. Garante que há quem tire quatro mil a cinco mil euros por mês (recebem entre 8% e 10% do custo dos bilhetes. Têm a maior cota de mercado da Lotaria, com quatro mil revendedores, sobretudo papelarias. E, apenas, 80 cauteleiros. Há 25 anos chegavam aos 400 só em Lisboa, hoje são 50.

"Nós vivemos mais do cliente da classe média-baixa. Os da média-alta compram nas casas de jogo ou vão para os casinos. Nós vivemos do cliente que compra a cautelinha", explica Artur Loureiro. Sonhou um dia em fazer da cautela profissão com vínculo laboral e com uma farda. "Sonhos!"

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