O deputado Pedro só entrou na sala ao segundo toque

Passos volta a ser deputado 16 anos depois. Reuniu 30 minutos com Portas. Perdeu mais tempo com burocracias

A pose foi a mesma dos últimos quatro anos, de Estado. Com o pin com a bandeira de Portugal, na lapela. Mas o caminho de Passos Coelho no regresso ao Parlamento foi igual ao de qualquer deputado: teve de passar pela casa de partida, a sala 7, onde foi feito o acolhimento aos deputados.

O plenário começou pelas dez da manhã (quando se ouviu o primeiro toque), mas o ex-primeiro-ministro só chegaria à tal sala às 11.20. E, claro, foi interpelado pelos jornalistas. "Assumirei funções para as quais fui eleito e exercerei aqui o meu papel também de líder do PSD, desta feita na oposição". Disse ainda encarar este regresso ao Parlamento "com muita naturalidade."

E deixou logo um aviso que não é por andar pelos corredores que vai estar sempre disponível: "O facto de eu ser deputado não significa que falemos todos os dias e a todas as horas, e creio que todas e todos compreenderão isso".

Ao contrário de Paulo Portas (que despachou tudo em 11 minutos), Passos Coelho esteve a tratar de questões burocráticas quase 40 minutos. De tal forma que só entraria no plenário (perto do segundo toque, ao meio dia), a tempo de votar ao lado das bancadas de PSD e CDS várias matérias legislativas.

Ao chegar ao primeiro posto de registo, Passos optou por ficar, como um líder, no topo da mesa (Portas tinha ficado ao lado do funcionário). O líder parlamentar, Luís Montenegro, o secretário-geral do PSD, Matos Rosa, e Marco António Costa, acompanharam Passos no registo. O líder do PSD fez-se ainda acompanhar por um dos homens de confiança do seu gabinete, João Montenegro.

Após tirar uma foto num estúdio improvisado, Passos preencheu diversos dados no computador. Burocracias: registo de interesses, informação sobre direitos e deveres, documentação para a licença de porte de arma (que pode ou não solicitar), situação do IRS, seguros e segurança social.

Na sala 7, a pose de Estado, deu por momentos, lugar à postura de regresso às aulas. Um pouco perdido, mas bem orientado. Após esses momentos na "Loja do Cidadão parlamentar", como lhe chamou um funcionário do Parlamento, Passos seguiu para o plenário.

Primeira fila, como os melhores alunos. E com dois colegas de carteira: Luís Montenegro à esquerda, Hugo Soares à direita. Muitas vezes, usou o telemóvel.

Após meia hora, o plenário acabou. Destino: gabineteS do grupo parlamentar do PSD. Pouco depois entrava Portas. Estiveram reunidos meia hora, até à hora de almoço, para afinar a estratégia.

E deu-se um episódio caricato. Passos perguntou a Portas onde era o seu gabinete. O líder centrista disse: "Não tenho um só para mim, tenho de partilhar com o Nuno Magalhães". Passos sorriu e disse a Portas: "Vem ver o meu, vais precisar de saber onde fica".

Paulo Portas não tem gabinete, mas andou elétrico pelo Parlamento. Também tirou a foto, mas não demorou mais de 11 minutos no acolhimento. Ao sair da sala, não falou, perguntou apenas por um jornalista que lhe tinha emprestado um isqueiro - que queria devolver.

Chegou ao plenário, por isso, mais cedo que Passos. Ainda às 11h20. Tinha à espera a primeira fila e, após cumprimentar toda a bancada do CDS, sentou-se. Depois falou ao telefone com a bloquista Mariana Mortágua. O que falaram? Não se sabe.

A nível da troika do anterior governo, a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, foi mesmo a mais madrugadora: esteve desde o início, preferiu a última fila e sentou-se ao lado de Paula Teixera da Cruz, com quem já tinha partilhado uma bancada no Parlamento: a do governo.

Foram vários os ex-ministros hoje a regressar ao Parlamento. Aguiar-Branco (ex-Defesa), tranquilo, prometeu contribuir para a "oposição que o país precisa". Pedro Mota Soares (ex-Solidariedade Social) destacou que sentia que era um "dia normal", considerando que este regresso "faz parte da vida democrática".

Aqueles que há umas semanas estavam na bancada do governo, na oposição. Passos e Portas estão agora no Parlamento mas tudo fizeram para aparecer juntos perante as câmaras. A coligação subsiste.