Número de dias perdidos na Saúde por causa de greves duplica

Com nova vaga de greves à porta, que começa já nesta semana, este ano ameaça ficar acima das estatísticas de 2017

O número de dias de trabalho perdidos na área da Saúde no ano passado na sequência de greves foi quase o dobro em relação a 2016. No total, em 2017, as paralisações no setor levaram à perda de 116 mil dias de trabalho, quando no ano anterior tinham sido pouco mais de 68 mil. E tendo em conta os dados publicados no Portal da Transparência do SNS, este ano, com greves de médicos e enfermeiros já marcadas para as próximas semanas, promete fazer subir ainda mais essa estatística. Isto porque são apresentados já os dados de janeiro último, que mostram um aumento para mais do dobro de dias perdidos por paralisações: quase cinco mil dias num único mês, em comparação com os 2200 do ano passado.

Protestos de especialistas em saúde materna e obstetrícia, paralisações de enfermeiros e técnicos de diagnóstico, greves de médicos. O último trimestre de 2017 foi fértil em contestação na área da Saúde e teve um reflexo gritante nos dados publicado no site do SNS. Se até setembro se tinham perdido cerca de 50 mil dias por causa de greves no setor - praticamente em linha com o ano anterior, em que se perderam 40 mil dias em período homólogo -, em apenas três meses esse número aumentou para mais do dobro. O grande destaque vai para o mês de outubro, em que se perderam quase 30 mil dias de trabalho.

Mas o que justifica uma subida tão grande e em tão pouco tempo das paralisações na Saúde? O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) argumenta com "a degradação dos serviços, sem trabalho extra pago e com compromissos assumidos que não são respeitados" e lembra que nem sequer participou nas greves de setembro de 2017, que culminaram com uma manifestação em frente à Assembleia da República. "No que nos diz respeito, a contestação já vem de 2016. Nesse ano fizemos greves e depois entrámos em processo negocial", recorda Guadalupe Simões, dirigente do SEP.

Do lado dos médicos, que já marcaram uma paralisação de três dias para meados de abril, há o reconhecimento de "um período de tempo de contemporização" quando um novo governo toma posse. "Posteriormente analisam-se os comportamentos das equipas que negoceiam e qual o seu grau de honestidade política em concreto. Se não respeitam acordos ou fingem negociar, começam os protestos", explica, em entrevista a publicar no DN, o novo presidente da Federação Nacional dos Médicos, João Proença.

"E é natural este aumento da contestação", reforça Guadalupe Simões. "Peguemos no período de contingência da gripe, alargaram-se horários e o número de camas por causa da gripe, mas esse trabalho extra não foi pago, a que se junta o facto de não haver substituições de profissionais", exemplifica a dirigente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, que reconhece que foram criadas "expectativas pelo governo que saíram goradas".

"Excesso de expectativas? Não houve expectativas elevadas, mas mentiras", responde, por seu lado, a bastonária da Ordem dos Enfermeiros. Ana Rita Cavaco destacou-se pelo apoio que deu aos protestos da classe no ano passado, uma oposição ao governo justificada ao DN com "promessas falhadas" do ministro da Saúde. "Se o ministro da Saúde tivesse cumprido todos os compromissos que assumiu, nomeadamente nas questões das carreiras, não tínhamos chegado aqui" (ver entrevista ao lado).

Note-se que, segundo o último balanço social da área, com data de 2016, o setor da Saúde é o segundo maior empregador de toda a administração pública (representa 26,5% do universo total), com 130 mil funcionários, apenas atrás da Educação (ver info).

Impacto nos hospitais e utentes

Com nova vaga de greves à porta, que começa já no final da próxima semana com a paralisação de dois dias dos enfermeiros, os hospitais receiam grande impacto nas consultas e nas cirurgias já programadas. "Muitos médicos até avisam os serviços com antecedência para que se remarquem consultas e cirurgias programadas", admite o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), "mas há sempre um grande transtorno para as famílias".

Para Alexandre Lourenço, "com tempos de espera tão prolongados, causa grande incómodo aos doentes adiar cirurgias. Isto leva os serviços a sobrecarregar a agenda para datas mais próximas para limitar o impacto nos utentes". Segundo o presidente da APAH, realizam-se cerca de duas mil cirurgias por dia e "em atividades complexas basta faltar um profissional, como um enfermeiro, para adiar procedimentos".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG