Jovens de Lordelo estreiam curta sobre Bairro do Aleixo

Jovens de Lordelo do Ouro realizaram uma curta-metragem que tem o derrube da Torre 5 do Bairro do Aleixo, no Porto, por pano de fundo, retratando as amizades perdidas com o realojamento de moradores.

"Nunca pensei que o bairro viesse mesmo abaixo" é o título da curta-metragem que sábado, pelas 22.00 horas, estreia no auditório da Fundação de Serralves e que resulta de um trabalho elaborado por jovens que frequentaram uma ação de formação em cinema no Centro de Iniciativa Jovem do Bairro de Lordelo do Ouro (CIJ).

"A história é muito simples: visto o Bairro do Aleixo ter de vir abaixo, apoiámo-nos nisso para mostrar que os jovens que vivem na freguesia vão sofrer uma separação, vão ser afastados dos amigos, das pessoas familiares que conheciam, de tudo o que era a sua casa, mesmo que fora de casa", contou à Lusa Júlio Oliveira, o realizador, de 17 anos.

E salienta que o objetivo não é a discussão em redor da demolição do bairro, mas "retratar a dificuldade em manter relações" entre as populações obrigadas a ser realojadas, " que isto que está a acontecer agora já aconteceu com muita gente". Como a uma moradora do Bairro do Aleixo, de 80 anos, um dos testemunhos do filme, natural do Barredo, que foi morar para as torres sobranceiras ao Douro e agora vai ser realojada noutro local.

Mas a história desta curta é uma história de música, de um grupo de dança que vai separar-se porque um dos elementos, representado por Júlio Silva, 17 anos, "MC Buster", com músicas na banda sonora da curta, vai "viver para fora e já não pode ensaiar", conforme ele relata. Ismael Calliano, 21 anos, é André, "um dos elementos do grupo que entra em conflito com a personagem de Júlio, porque se calhar não percebe a situação dele".

E há ainda o personagem representado por Emanuel Cardoso, 17 anos, que o retrata como "o amigo que está lá para tudo, para tentar resolver os conflitos da separação do grupo de danças hip hop". Dança que nenhum dos atores pratica, pelo que tiveram de recorrer a duplos para as cenas mais elaboradas

A história deste filme começou há três anos na escola Leonardo Coimbra, com o realizador José Oliveira e um grupo de amigos que decidiram fazer uma "brincadeira, uma espécie de curta-metragem". Depois de uma formação, a brincadeira acabou por ser transferida para o CIJ, onde foi escrito o guião, "baseado nas vivências da freguesia" e a partir de onde se arranjaram os apoios para as filmagens.

O filme foi desenvolvido com o financiamento do programa Escolhas pela ADILO, a Agência de Desenvolvimento Integrado de Lordelo do Ouro, que reúne um conjunto de instituições que, desde 1995, desenvolvem projetos de intervenção social e comunitária que pretendem "a promoção do sucesso escolar e a capacitação de crianças e jovens, no sentido da sua autonomia", como afirma Patrícia Costa, da ADILO.

"As pessoas fazem o bairro, mas o bairro não faz as pessoas" é uma rima que Júlio Silva usa, porque, para ele, "não é por viver lá que uma pessoa não tem que seguir os estudos, que tem de virar traficante ou bandido ou viver do rendimento mínimo". Mas há sempre que enfrentar o preconceito do "carimbo Aleixo".

Talvez o filme "traga uma perspetiva diferente de um habitante de um bairro, com um retrato de pessoas que são amigos, em que amizade prevalece apesar de um deles vir de um bairro problemático", defende Isamel Calliano.

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