Inspector-chefe da PJ não percebe porque não se valorizou informação de prostituta

Um inspector-chefe da PJ disse hoje não perceber porque razão a investigação ao caso Rui Pedro não seguiu em 1998, ano do desaparecimento, a pista de uma prostituta que apontava para a possibilidade de rapto do menor de 11 anos.

"Tenho dificuldade em perceber porque não se valorizou essa informação relevante", afirmou Henrique Noronha, que chefia a investigação deste caso desde 2008.

O inspector recordou que no ano do desaparecimento foi ouvida Alcina Dias, que então disse à PJ e ao Ministério Público ter estado com uma criança em Lustosa, pista que acabou por não ser valorizada pela investigação nos anos subsequentes.

"Essas diligências deviam ter sido completadas", insistiu Henrique Noronha.

O inspector explicou que durante vários anos as investigações realizadas por duas equipas distintas, anteriores à sua, estiveram focadas na tentativa de descoberta do que aconteceu a Rui Pedro, acabando por não dar atenção à possibilidade de um crime de rapto ter precedido o desaparecimento da criança.

Só em 2008, quando a PJ criou uma equipa específica para investigar o caso, é que os inspectores seleccionados decidiram atribuir maior importância às informações prestadas por Alcina Dias, o que motivou a sua inquirição e junção aos autos das suas declarações.

O Ministério Público (MP) sustenta neste julgamento que o arguido Afonso Dias seduziu e conduziu Rui Pedro para um encontro com prostitutas em Lustosa, após o qual nunca mais foi visto.

Henrique Noronha enunciou todos os passos dados pela investigação desde 2008 no sentido de perceber todas as diligências feitas anteriormente e "traçar uma linha de investigação", que culminou com a acusação de Afonso Dias.

Nesse trabalho, que incluiu novas diligências, como buscas, inquirições e reconstituições, os inspectores recolheram imagens com pendor sexual no quarto de Rui Pedro, concluindo o inspector que no menor havia "um interesse sexual pronunciado".

O inspector destacou também o facto de, apesar de todas as diligências, a PJ não ter conseguido apurar o que fez o arguido desde cerca das 14:00, quando terá estado com o menor junto à escola preparatória local, até ao final da tarde, quando a família de Rui Pedro se apercebeu do seu desaparecimento. A tese da acusação advoga que foi ao princípio da tarde que Afonso Dias conduziu Rui Pedro à prostituta.

Contudo, em declarações prestadas no inquérito, o arguido alega que nesse período, depois de um encontro com Rui Pedro junto à escola, deslocou-se sozinho a Paços de Ferreira, tendo regressado à sua casa em Lousada para tomar banho e ido depois a Freamunde ter com a namorada.

"Há aqui um hiato de tempo que não conseguimos perceber", afirmou hoje o inspector, recordando que a investigação não encontrou ninguém que se tenha encontrado com Afonso Dias nessa tarde e que dê sustentação à tese do arguido.

"Ficamos um pouco perplexos", afirmou, comentando o facto de o Afonso Dias alegar ter estado parado cerca de hora e meia "num local a olhar para nada e a fazer horas".

Na sessão desta terça-feira, a nona do julgamento, foram ouvidos mais três inspectores que explicaram as diligências efectuadas desde 2004.

Na quarta-feira, vão ser ouvidos mais quatro agentes da PJ arrolados pela defesa e será feita a reconstituição dos factos, com deslocações à antiga escola de Rui Pedro e a Lustosa.

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