No concelho das praias, o PSD bate-se por uma nova maioria

Um presidente social-democrata, que descobriu o seu talento artístico como cantor de música cubana, que quer deixar nas mãos da sua vice-presidente a herança de três mandatos e o regresso de um "dinossauro socialista" vão marcar as eleições em Vila Real de Santo António, no Algarve.

Luís Gomes tinha apenas 32 anos quando foi eleito pela primeira vez, em 2005, presidente da Câmara de Vila Real de Santo António. Conquistava a autarquia após uma polémica gestão socialista de António Murta, que esteve 16 anos à frente do destino autárquico do concelho e que é agora de novo candidato. Luís Gomes ganhou outras duas eleições, e deu maioria absoluta ao PSD. Por limite de mandatos está de saída.

Nunca se ouviu falar tanto de Vila Real de Santo António, reconhecem até os seus adversários políticos, com a requalificação das praias (em Monte Gordo, o maior passadiço do Algarve foi finalmente concluído), mais de 35 quilómetros de ciclovias, festas de gente famosa e artistas conhecidos a promoverem o concelho.

Mas o "efeito Luís Gomes", como lhe chamou o candidato da CDU, Álvaro Leal, terá tido um preço demasiado alto? PS, CDU e BE dizem que o elevado valor da dívida da câmara - entre os 150 e os 200 milhões de euros - não se reflete na obra feita. Confrontado pelo DN, ao telefone, Luís Gomes responde com um riso suave. "Basta visitar o concelho agora e comparar com o que era há uns anos. Ainda me lembro dos esgotos a céu aberto a correrem para a praia da Manta Rota. É evidente e está à vista de todos o que fizemos para transformar Vila Real de Santo António num destino de qualidade que está no top dos mais visitados do Algarve", sublinha, destacando o passadiço da praia de Monte Gordo, com mais de quatro quilómetros e uma das maiores estruturas pedonais do país.

Mas não é apenas para "turista ver" que Luís Gomes exibe a sua obra. "A qualidade de vida das pessoas aqui residentes esteve sempre no topo das minhas preocupações", assinala. Para isso ultrapassou fronteiras políticas quando avançou com um protocolo com as autoridades cubanas para que os munícipes de Vila Real de Santo António pudessem ser tratados às cataratas, fugindo às demoradas listas de espera nos serviços de saúde nacionais. "Agora são os médicos cubanos a vir cá dar consultas. Só em Vila Real foram realizadas mais de seis mil", assinala.

Garante que sai "tranquilo com tudo" o que fez pelo concelho e confidencia que vai agora poder dedicar-se mais à sua "outra paixão", além da política, que é "a música". Nos seus contactos com Cuba acabou por se apaixonar pelos sons daquele país e até já gravou um disco com um conhecido cantor da terra de Fidel de Castro, Baby Lores. "Estou a terminar o meu novo álbum com o Baby Lore e pretendo acabar a tese de doutoramento de engenharia e gestão técnica no Instituto Superior Técnico, sobre avaliação de políticas públicas. Só faço coisas com que me sinta bem. Foi assim quando me candidatei e estive na câmara e será assim agora também".

Conceição Cabrita. a candidata do PSD que lhe sucede na corrida autárquica, elogia o "trabalho do grande político e pessoa que é Luís Gomes", mas quer definir a sua "própria identidade". Como professora que é, sublinha, "as pessoas e as políticas sociais e educativas serão sempre prioridade".

A candidata, natural de Vila Real de Santo António, até teve uma espécie de mãozinha do governo socialista nesta fase de pré-campanha eleitoral. A secretária de Estado da Administração Interna, Isabel Oneto, anunciou a construção de um novo posto da GNR em Monte Gordo e obras de requalificação na esquadra da PSP em na sede de concelho. O que acontece ainda no consulado social-democrata...

António Murta, regressado à ribalta política, não se intimida e mostra total convicção que será de novo presidente da câmara. A sua apreciação do estado do concelho é negativa. "Vive-se no medo e na coação. Dizem (o PSD) às pessoas que se não votarem nelas não têm subsídios, casas, nem alimentação. É imperativo que a democracia volte a Vila Real de Santo António", declara. Acusa Luís Gomes de ter "degradado a economia local e criar cada vez mais elevados impostos para as empresas". Não reconhece "nenhuma obra de cariz" e vê o programa de cooperação com Cuba como "apenas mais uma forma de comprar os votos das pessoas".

Indica como "prioridades" para a sua gestão a criação de um "Conselho Económico Municipal", que junte empresas e sindicatos, para lançar um plano que dinamize a economia local, e de um programa de apoio a famílias carenciadas "justo e honesto, sem compra de votos". implícito".

Do seu gabinete na Câmara de Castro Marim, onde trabalha como informático, o candidato da CDU, Álvaro Leal, confessa-nos que vê "uma janela de oportunidade" para o seu partido nas próximas eleições. Não quer "alimentar" guerras entre o PSD e o PS, nem sequer falar do vereador do PCP que, no primeiro mandato de Luís Gomes, rompeu com o partido para apoiar o social-democrata, mas não esconde a ambição de poder levar, de novo, os comunistas à liderança do concelho, onde estiveram na década de 90.

Para os comunistas, o concelho encontra-se "numa situação particularmente difícil" devido à "dívida astronómica, privatizações, venda de património, aumento de tarifas e taxas, despedimentos - fruto de uma gestão ruinosa da maioria PSD". Na mesma linha está a candidata do BE, Celeste Santos, criticando o "despesismo" de Luís Gomes. "No primeiro mandato ainda se viu alguma obra, mas depois foram só festas com artistas caríssimos, sem retorno para a autarquia", acusa.

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