Nem só o carro foi elétrico num dia com força nas canetas

Passos e Portas não aplaudiram António Costa. Esquerda não aplaudiu Cavaco Silva. Até as cores das canetas contam

António Costa conseguiu conduzir um acordo que o levou a tomar posse ontem como primeiro-ministro, mas ia ficando apeado. À saída da cerimónia, que se realizou ontem no Palácio da Ajuda, o novo chefe do governo não tinha carro à sua espera. Costa sorriu. Pouco depois lá apareceu um carro azul citadino da Nissan. Elétrico. Como o discurso de Costa na cerimónia.

Um sinal - neste caso de preocupação ambiental - numa tarde de simbolismos. "Eu, abaixo assinado, afirmo solenemente pela minha honra que cumprirei com lealdade as funções que me são confiadas." Após estas palavras, Costa assinou com uma caneta vermelha, a mesma cor escolhida para os acordos de esquerda.

Força nas canetas

Também a ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, Maria Manuel Leitão Marques, assinou a posse com uma caneta cor-de--rosa. Nada mais simples, ou Simplex (o programa que quer recuperar): uma caneta da cor do PS.

Porém, a maioria dos ministros optou por canetas uni-ball de tinta azul. Todos assinaram com firmeza. Tomaram posse 58 governantes. Há aqui sinais? Sim.

O primeiro e o ausente

Não é inocente que, entre os secretários de Estado, o primeiro a tomar posse tenha sido Pedro Nuno Santos, que tutela os Assuntos Parlamentares. É uma secretaria de Estado com sabor a ministério, já que será muito importante no atual quadro político e parlamentar.

Houve ainda um secretário de Estado que não tomou posse, pois estava fora do país. O que faz sentido pois Jorge Oliveira será o secretário de Estado da Internacionalização. Já marcou pela diferença por estar, precisamente, no estrangeiro. Não conseguiria chegar a tempo e, por isso, terá de ter uma tomada de posse à parte.

Foi também a primeira vez que tomou posse um governante invisual. Para que a secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com Deficiência, Ana Sofia Antunes, tomasse posse, foi pedido à Biblioteca Nacional que preparasse um auto em braille para que a governante pudesse ler a breve frase de juramento.

Sala dividida por muro

Na sala da tomada de posse, no Palácio da Ajuda, manteve-se o muro que foi erguido na política portuguesa entre a esquerda e a direita. Os líderes do PSD e do CDS, Passos Coelho e Paulo Portas, não aplaudiram o discurso de António Costa. Na mesma medida que, minutos antes, a ala esquerda da sala (executivo e convidados da esquerda) também não aplaudiram o discurso de António Costa.

O PCP fez-se representar pelo líder da bancada do PCP, João Oliveira. Já o Bloco de Esquerda contou com a líder, Catarina Martins, que logo que saiu ripostou os ataques do Presidente ao acordo das esquerdas. A bloquista falou em "equívoco" do Presidente, quando este fala em governo que resulta da crise.

Também o líder da bancada do PS, Carlos César, respondeu a Cavaco Silva, dizendo que este "é um governo de convergência e não de divergência". O socialista adverte ainda que a relação do governo com o Presidente "é importante", mas não "totaliza o conceito de estabilidade", pois a relação do governo será "essencialmente com o Parlamento".