Nem o frio fez José procurar abrigo e nem Marcelo convenceu António a deixar casa pouco convencional

Vaga de frio fez a autarquia acionar o plano de apoio aos sem-abrigo que tem equipas na rua para dar a conhecer os locais de abrigo. O Presidente da República também andou na rua

O frio gélido não corre nas arcadas do Terreiro do Paço, onde cinco pessoas passam a noite. José é um dos que aqui dorme "há muito tempo" e daqui só sai para um abrigo mais permanente. "Queria ter um quarto, mas não consigo pagar os preços que agora pedem. E também perdi o rendimento, precisava era de ajuda para arranjar um quarto que eu pudesse pagar", fala.

Debaixo das arcadas "é mais sossegado", defende. José vai ficar no mesmo sítio de sempre, embora pudesse ir, pelo menos, para uma das cinco estações de metro - Rossio, Cais do Sodré, Saldanha, Intendente e Oriente. Ainda assim, não deixa de admitir que "hoje é das noites mais frias". Está protegido por um casaco com capuz e um cachecol.

Antes de chegarem à conversa com José, as equipas de rua coordenadas pela autarquia passaram por outros pontos, onde tentaram convencer e informar as pessoas sem-abrigo de que por estes dias têm garantida uma cama para passar a noite. Quem também andou na rua foi o Presidente da República que chegou ao Saldanha pouco depois das 22.30 e depois de ter passado pelo Rossio, onde não estava ninguém.

No Saldanha, tinha António sentado num dos bancos do jardim à sua espera. Marcelo foi cumprimentá-lo e António até teve oportunidade de desenferrujar o seu alemão. Ambos ficaram surpreendidos com as capacidades germânicas de cada um, mas o que mais terá surpreendido o Presidente foi a solução encontrada por António para não dormir ao relento: "uma solução um pouco insólita", classificou o Presidente, prometendo manter segredo.

Marcelo Rebelo de Sousa passou depois pelas galerias do metro, mas mais uma vez ninguém aí tinha procurado abrigo. Os elementos das equipas de rua acreditam que só depois dos comboios deixarem de circular, pelas 01.00, é que alguém poderá recorrer às estações. Embora não seja esperada muita procura por estas soluções, uma vez que "são respostas de última linha", aponta o vereador dos Assuntos Sociais, Ricardo Robles.

A primeira opção e o papel das equipas de rua nestes dias é "encaminhar as pessoas para o pavilhão [municipal da Graça]", acrescenta o responsável. No primeiro dia, atenderam mais de 40 pessoas no pavilhão. O espaço vai estar aberto continuamente enquanto se mantiverem as temperaturas baixas - "pelo menos até sexta-feira" - e quem aí se dirige pode contar com uma refeição quente, roupa, um banho quente e encaminhamento para os centros de acolhimento, onde foram criadas 40 vagas nestes dias.

Ontem, a Cruz Vermelha preparou refeições para 80 pessoas, acabou por servir mais de metade desse número. Um balanço "positivo", refere Ricardo Robles. "Normalmente o primeiro dia é mais calmo, depois começa o passa a palavra e vão aparecendo mais pessoas." O importante é, sublinha o vereador, que "as pessoas saibam que têm um sítio onde ficar nestes dias mais frios".