"Não basta construir saber"

No âmbito da iniciativa do DN, que visa reconhecer os melhores professores, ao longo deste ano vamos recuperar memórias e discutir o sector com personalidades de várias áreas. Para o sacerdote e poeta Tolentino Mendonça, vice-reitor da Universidade Católica, uma sociedade que erradica as Humanidades é uma "sociedade anémica"

Que recordações guarda dos primeiros anos de escola?

É sempre inesquecível, a primeira escola, e a minha foi no Lobito, em Angola. Depois mudámo-nos para Baía Farta, perto de Benguela, e já fiz a quarta classe na Madeira. Portanto, a minha primária foi muito itinerante. Há sempre um impacto muito grande do professor e da descoberta da camaradagem com os colegas, mas recordo sobretudo os espaços. As escolas em Angola eram muito grandes e com imenso espaço à volta. São memórias impressivas, talvez ficcionadas, mas são essas as recordações que guardo.

Que lugar ocupam os professores nessa memórias?

Tive a sorte de ter tido muito bons professores. Recordo-me da professora da quarta classe, que me ajudou muito na construção do olhar, de um certo olhar poético para a realidade. Mais tarde o professor João Henrique Silva, hoje diretor regional dos Assuntos Culturais, foi um despertador de muito interesses, sobretudo na área da cultura. E os professores de Filosofia foram sempre muito importantes.

Quanto daquilo que é hoje deve à escola?

Marcou-me muito. Há uma aprendizagem do mundo, um certo estilo que ganhamos na forma como lidamos com o conhecimento nesses primeiros anos. A escolarização vem a par daquilo que no belo romance do Vergílio Ferreira ele chama "a aparição", o processo de tomada de consciência de nós, do mundo. Que é acordada e potenciada pelo processo que a escolarização representa. A educação tem de ser sempre global: não basta construir saber, é preciso buscar uma sabedoria. Além da transmissão de conhecimentos, há outro processo de aprendizagem que passa pelo contágio, pelo testemunho. A figura do mestre exerce sempre algum fascínio. São mestres de uma outra ciência, que é a vida.

O que torna um professor num bom mestre?

A paixão, qualquer que seja a matéria, e a dedicação. Entender o seu trabalho como um serviço de esperança, como sementeira.

É professor universitário. Que visão tem das escolas do ensino básico e secundário e das dificuldades que atravessam?

Conheço a situação das escolas pelo relatos de professores que gostam muito de o ser. Também eles sentem as dificuldades desta hora. Há uma necessidade, no fundo, de reconhecimento. Era muito importantes reconstruir essa imagem de referência.

Como vê a tendência de desvalorização das Humanidades, por oposição à valorização da Matemática e das Ciências?

Com uma angústia muito grande. É de facto uma proposta insuficiente e diminuída, aquela que exclui as Humanidades. Considero uma sorte ter aprendido Latim, ter estudado Grego, línguas que me aproximaram dos Clássicos e são uma ferramenta essencial para a minha relação com o mundo. A desvalorização das humanidades é um problema muito grave e é um erro.

Como vê o argumento de que a escola deve oferecer uma formação que tenha saídas profissionais, que tenha mercado?

É sem dúvida um argumento importante, porque a escola deve estar articulada com a comunidade e as necessidades da sociedade. Mas uma sociedade que erradica as humanidades é uma sociedade que aceita uma anemia interior, que se descaracteriza.

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