Na prisão não se escapa ao código de honra dos reclusos

É a última vítima dos castigos aplicados pelos 'juízes' que estão atrás das grades. Os principais alvos são os violadores.

Espancamento. Choques eléctricos. Tortura com objectos. Levar com a cadeira na cabeça enquanto está a comer no refeitório. Estas são algumas das "penas" aplicadas pelos "juízes" menos ortodoxos do País: reclusos.

A última vítima mediática do código de honra dos prisioneiros foi o neonazi Mário Machado, que há uma semana esteve quase a ser espancado (ver página 23). Assaltantes de bancos e assassinos consideram-se superiores em honra a outros criminosos por eles desprezados, sobretudo os pedófilos e violadores. É um código ancestral, não escrito, como o dos samurais. O sistema prisional tem medidas previstas de protecção para os potenciais "alvos" mas os casos continuam a ocorrer.

Luís Castanheira, o jovem estudante de Medicina suspeito de ter assassinado a mãe adoptiva à facada, em Coimbra, foi "marcado". O jovem de 24 anos esteve quase a ser agredido por outros reclusos no Estabelecimento Prisional de Aveiro, na madrugada de 13 de Setembro, quando chegou àquela cadeia transferido da zona prisional da PJ de Coimbra. A Direcção-Geral dos Serviços Prisionais (DGSP) disse na altura que a pronta intervenção dos guardas impediu que o recluso fosse mesmo espancado (agressão que foi então noticiada na imprensa). Mas fonte conhecedora do caso insistiu ao DN que chegou a haver contacto físico: "Ainda lhe bateram num corredor. Só não foi pior porque os guardas intervieram." O "castigo" surpreendeu os guardas porque Luís Castanheira não preenchia - aparentemente - os critérios da vítima habitual do "código". "Terá sido por ter assassinado a mãe de uma forma tão brutal. E a mãe é uma figura sagrada para os reclusos", adianta fonte prisional.

Henrique Sotero, mais conhecido por "violador de Telheiras", foi transferido a 19 de Março da cadeia da Polícia Judiciária para o Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL) depois de ter sido, alegadamente, agredido por Mário Machado, líder dos hammerskin portugueses. Sotero foi colocado na chamada "ala dos violadores", um piso do EPL (ala F) onde se concentram os criminosos sexuais. Mas o "violador de Telheiras" rapidamente conquistou o seu espaço na maior cadeia do País. "Henrique Sotero movimenta-se bem na cadeia, tem os seus contactos e um perfil de vencedor", descreveu fonte prisional ao DN. O "violador de Telheiras", à semelhança dos outros reclusos da ala F, está numa cela individual. Sotero e os outros reclusos movimentam-se apenas naquele piso. "Só acedem ao piso superior para ir às cabines telefónicas e ao bar e mesmo assim só nas horas de almoço e no encerramento do bar, para não se cruzarem com os outros", adianta a fonte.

No EP Regional de Coimbra ainda há quem recorde bem o que aconteceu a um violador com 35 anos. Foi há cerca de seis anos. "Numa passagem de uma ala para outra, no corredor, introduziram- -lhe o cabo da vassoura no ânus. Mas como houve gritos os guardas acorreram e acabaram com aquilo", contou fonte prisional ao DN.

Na segunda maior cadeia do País, Custóias, no Porto, um recluso esteve na mira dos olhares predadores de todos os outros: o pai de Vanessa, a menina que foi atirada ao rio Douro. Paulo Jorge Pinto Pereira, agora com 31 anos, foi condenado a 17 anos e dez meses de cadeia. "Teve de ser logo transferido de Custóias, caso contrário 'faziam-lhe a folha'."