Muitos dão aulas há 15 anos mas ficam sem emprego em agosto. Neste ano são 3800

Estiveram nas escolas, no ano inteiro, 3782 contratados. Voltaram a ficar sem vínculo neste mês e têm de tornar a lutar por um lugar. Há quem tenha adiado a maternidade até aos 41 anos ou tenha ido viver a 555 km de casa

Sabiam que a estabilidade não ia ser fácil de encontrar. Mas nenhum deles imaginava que 15 ou 20 anos depois de terem começado a dar aulas, a entrada nos quadros do Ministério da Educação (ME) fosse apenas ainda uma miragem. Todos os anos a mesma rotina: chega agosto e milhares de professores ficam desempregados e têm de voltar a concorrer a um contrato nas escolas. Se tiverem sorte, conseguem um novo vínculo anual e completo. Mas isso também pode significar mudar para a outra ponta do país. Neste ano, estão nesta situação 3782 professores que estiveram a tempo inteiro nas escolas até 31 de julho.

Ficar longe de casa e concorrer sempre para todo o país são sacrifícios que milhares de contratados estão dispostos a fazer na esperança de chegar aos quadros. Com cinco contratos anuais, completos e consecutivos conseguem essa meta, mas a Associação Nacional de Professores Contratados espera que mais do que aplicar essa regra, o governo esteja disponível para integrar nos quadros quem tem mais de dez, 15 ou 20 anos de serviço e continua a jogar na lotaria dos concursos de professores. É o caso de Lucinda Santos, Alexandra Botelho, Aires Ferreira e Miguel Ângelo Carromeu.

26 contratos em 20 anos

Lucinda bate todos os recordes. Tem 26 contratos, em 20 anos de serviço. Um ano antes de a norma-travão ser criada, em 2014, só foi colocada em setembro, quando já contava com sete contratos anuais e completos. "Não sei como fiquei de fora. Entrei mais tarde em Quarteira. Isso fez que não vinculasse", recorda.

Isto depois de se ter mudado há dez anos para o Algarve na esperança de ter horários que lhe dessem estabilidade profissional. A professora de Português, História e Geografia do 2.º ciclo ficou a 555 quilómetros de distância de casa. "Nos primeiros 15 anos de carreira nunca concorri a nível nacional por causa do meu filho. Sabia que era um risco", admite. Depois concorreu a nível nacional, ficou no Algarve, no ano seguinte separou-se e foi viver para lá, onde tem conseguido lugar: "Fiquei em Alcoutim, Olhão, Faro e Quarteira."

Agora espera que a escola onde esteve tenha autorização para renovar o contrato. "Falei com o executivo da escola sobre essa possibilidade na esperança de ter um agosto em que pudesse dizer, pela primeira vez, que eram férias. Realmente estou em casa, mas não são férias. Vivo o ano inteiro angustiada, mas agosto é pior." A somar a esta preocupação, Lucinda, de 48 anos, acrescenta outra: "Acabei de comprar casa aqui em Faro."

Uma necessidade permanente

Mais irritado por não ser reconhecido como uma necessidade permanente do sistema e por ter de ficar longe de casa, Aires Ferreira não entende como é que ao fim de 15 anos com contratos sempre completos não entra para o quadro. "Durante sete anos tive sempre horário completo, não eram anuais por causa dos atrasos nas colocações dos TEIP [Territórios Educativos de Intervenção Prioritária] e contratos com autonomia, que começavam a contar já a meio de setembro." É professor dos sete ofícios: "Dou aulas no 1.º ciclo, de Português e Francês no 2.º ciclos e de Educação Especial." O medo de ficar sem colocação leva a que concorra a todos os lugares possíveis. Por isso, perdeu a hipótese de entrar nos quadros: "Não posso arriscar ficar sem lugar, e quando demoraram a sair os resultados da bolsa de contratação que levaram o ministro [Nuno Crato] a pedir desculpa, eu já tinha ficado noutro horário incompleto." O visiense tem conseguido sempre colocações na zona de Lisboa. E gostava de saber mais cedo como é a sua vida: "Só sabemos no fim de agosto e depois temos de arranjar tudo em dois dias."

Filho nasce no início das aulas

Sempre com as malas prontas está Alexandra Botelho. Se bem que neste ano será diferente, já que o seu primeiro filho vai nascer em setembro e mesmo que fique colocada num horário anual e completo vai estar de licença.

Contudo, o estado de graça não é pleno. "Estou a semanas de ser mãe e não me consigo abstrair do concurso, se vou ficar colocada e onde. Porque apesar de neste ano ter abdicado quase da hipótese de ter horário completo porque só concorri a escolas aqui na zona, ainda posso ficar colocada a mais de cem quilómetros de casa."

Miguel mudou-se para Massamá para estar na zona onde há mais horários

Natural de Vila Real, Alexandra não tem passado muito tempo nessa zona, desde que começou a dar aulas, há 18 anos. O sonho de ser mãe foi adiado, até aos 41 anos, precisamente porque a professora de Português e de Inglês do 3.º ciclo e secundário andou pelo país e pelo estrangeiro para amealhar os anos de serviço necessários para entrar no quadro. "A zona de Lisboa é que tem horários completos e anuais. No ano passado estive em Odivelas, de 2011 a 2013 estive em Angola num projeto entre o ME e o Instituto Camões." Em 2014, quando ia chegar aos cinco contratos consecutivos, acabou por ser colocada só a 20 de setembro. Ficou sem segurança e deixou de adiar a sua vida.

Mudou-se para junto das escolas

Quem também deixou de adiar os projetos pessoais foi Miguel Ângelo Carromeu. Ele e a mulher, ambos contratados, adiaram o primeiro filho até que há dois anos decidiram que não iam esperar por um lugar no quadro. Miguel desde cedo percebeu que o ideal era deixarem as suas terras (ele, Palmela, e ela, Estremoz) para viverem em Massamá. "Esta é a zona do país onde há horários", justifica. Por 11 anos teve contratos anuais e consecutivos, sete deles numa escola TEIP, infelizmente só começavam a contar a meio de setembro - "fui apanhado nesta situação ingrata". Para ultrapassar a angústia de agosto, o casal marca férias "nas duas últimas semanas. Mas desligar, não é fácil"...

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