Morte solitária é "prova de desumanidade da sociedade"

A Igreja Católica considerou hoje, domingo, que os casos de idosos encontrados mortos em casa são a "prova acabada de uma desumanidade da sociedade" e que os culpados por esta situação devem chamados à responsabilidade

Nos últimos dias foram encontrados três idosos mortos em casa há vários dias. O caso mais mediático foi o de uma mulher encontrada morta no seu apartamento, em Sintra, oito anos depois de ter falecido. "Estes casos só vêm evidenciar e incomodar quem, por acaso, tivesse a consciência adormecida e não reparasse quantas pessoas, sobretudo nas cidades, são abandonadas e isoladas pela família", disse à bispo responsável pela Pastoral Social. Para o bispo Carlos Azevedo, estas situações demonstram, "antes de mais, uma crise da família que não é capaz de manter uma relação com as pessoas que já estão dependentes de outras".

"É necessário humanidade e que as pessoas não tenham apenas critério de utilidade funcional, não tenham apenas o pragmatismo de quem é útil, e que não estejam a pôr as pessoas defuntas antes delas morreram", defendeu. Carlos Azevedo afirmou que estas pessoas acabam por "permanecer vivas no Bilhete de Identidade, quando já morreram há muitos meses ou há muitos anos. Isto é a prova acabada de uma desumanidade da sociedade". E defende que os responsáveis por estas situações sejam responsabilizados: "Quando as pessoas responsáveis por arrombar uma casa para ver se estava lá alguém não o fizeram, essas pessoas são responsáveis por esta desumanidade e a leviandade com que decidem fazer ou não fazer o que lhes compete é que deve ser também realçado".

E, acrescentou, "a pessoa concreta que tomou essa decisão deve ser também chamada à pedra, o que não inibe de certo modo a todo vermos como é que é possível criarmos pessoas tão insensíveis que não se desdobrem em resolver um caso destes". Por outro lado, a quebra das relações de proximidades entre os vizinhos, acentuada nas cidades, é "também produtora de pessoas cuja família está afastada". "Isto só vem evidenciar para que batamos com a mão no peito e reconheçamos na nossa consciência aquilo que estamos a produzir na sociedade", frisou Carlos Azevedo à Lusa. Para o coordenador do Instituto do Envelhecimento da Universidade de Lisboa, Villaverde Cabral, estes casos demonstram a "urgência" de uma intervenção face ao processo de envelhecimento demográfico português.

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