Milhões de euros para recuperar negócios e empregos

Mais de oito milhões de euros é quanto custará a recuperação de duas das três fábricas destruídas pelas chamas no parque industrial de Tondela, em Adiça. São as contas da Tratris - tratamento de resíduos industriais - e da Valouro - uma unidade incubadora de frangos. Estão 72 postos de trabalho em suspenso

Ardeu ainda a Recypolym, tendo ficado mais cinco indústrias bastante danificadas pelos incêndios de domingo, que provocaram a morte a 43 pessoas. As restantes empresas foram afetadas - ficaram sem luz, telefone e internet. Agora a autarquia faz contas aos prejuízos e postos de trabalho atingidos no concelho. As empresas pedem apoio para recuperar o que agora é cinzas, ferro e entulho.

Três dias depois dos incêndios ainda sai fumo dos materiais, chapas e máquinas que estavam nas fábricas do Parque Industrial Municipal (PIM) de Tondela e que devido ao fogo se tornaram tóxicos. Veem-se pequenos incêndios que só com a segunda noite de chuva, de terça para quarta-feira, ficariam extintos.

Hélder Viegas, 63 anos, o diretor comercial da Tratris, tenta perceber como vai tirar dali o que restou do cartão, do plástico e do óleo alimentar usado que iriam tratar. "Resíduos industriais não tóxicos", esclarece. Numa destruição cuja gravidade não imaginava: "Soubemos que começou a arder por volta das 22/23 horas de domingo. Mas só tivemos a perceção real quando chegámos."

A empresa tem 25 funcionários e quer voltar a funcionar o mais depressa possível já que não há outra unidade onde colocar os trabalhadores. "Vamos ver se temos condições para o fazer, só escapou um camião [arderam cinco camiões e dois automóveis] que estava do lado de fora da fábrica, as máquinas foram todas. O seguro não cobre tudo e serão precisos 1,5 milhões de euros para recomeçar. Estamos em contacto com a autarquia, não sei como será o futuro se não tivermos apoio", explica Hélder Viegas. A fábrica existe desde 1989, começou em Viseu, mudou-se para este parque há 11 anos.

Pedro Adão, vereador da Câmara Municipal de Tondela, está no parque para fazer o levantamento dos prejuízos. Remete para o presidente da autarquia, José António Jesus, explicações sobre os valores que serão canalizados para o tecido empresarial. Do seu gabinete dizem ao DN que tem sido impossível contactar o autarca, umas vezes por muito trabalho, outras por falta de rede telefónica que ontem ainda não tinha sido restabelecida.

José António Silva, 59 anos, proprietário da Silva & Chaves, empresa de moldes r metalomecânica, tem a sua fábrica neste parque há 17 anos. As chamas não atingiram a unidade, mas nem assim consegue trabalhar. "Faltam a luz e os telefones, duas necessidades básicas para qualquer empresa. E não vemos ninguém para arranjar isto, está tudo a patinar", lamenta-se. Conta com a compreensão dos clientes para o facto de estar a falhar entregas.

Fumo por todo o lado

A preocupação de José vai, também, para a inalação dos fumos a que estão sujeitos desde que voltaram às instalações, na segunda-feira. "Tenho estado a ligar para os bombeiros, ninguém aqui aparece. Além do perigo de haver um reacendimento, isto é prejudicial para a saúde." Mesmo em frente, ardeu o armazém alimentar da Pereira & Sousa, produtos que continuam a queimar, ouvindo-se estrondos de vez em quando. Do lado esquerdo, uma oficina de automóveis cujo exterior ficou destruído. É a 2015Car onde arderam 21 carros de clientes, alguns até já estavam reparados. Pedem alfaias a José Silva - serve uma enxada - para começar a limpar na tentativa de retomar a atividade rapidamente. Tem cinco funcionários.

Perto da Tratris, uma unidade da empresa agroalimentar Valouro está totalmente queimada. Neste fogo perdeu 20 mil pintos. Em nota enviada à agência Lusa, a Valouro contabiliza cerca de quatro milhões de euros de prejuízos, acrescentando que são precisos mais três milhões para recomeçar.

Na fábrica do grupo Valouro da Adiça estão 47 postos de trabalho em causa, mas os responsáveis da empresa prometem colocar os funcionários em outras unidades fabris. "Nesta altura de tragédia, mais do que o compromisso que assumimos em rapidamente retomar a atividade e a reconstrução das instalações, pretendemos expressar a todos os nossos colaboradores que este infortúnio em momento algum compreenderá uma ameaça para os seus postos de trabalho e muito menos ainda para o nosso futuro na região." As chamas consumiram totalmente as instalações do centro de incubação.

Há empresas atingidas em todo o concelho de Tondela, não só nas zonas industriais como nas povoações atingidas pelas chamas. Em Adiça, na estrada principal, um cemitério de carros, de um lado e de outro da Nacional n.º 2, com um Mercedes preto polido à entrada quase intacto. Prejuízos da Realnorma, comércio de automóveis, tratores, alfaias agrícolas, manutenção auto e pneus. Cerca de 50 viaturas destruídas, informa Pedro, o proprietário, sem mais explicações. "Nem sei o que diga!"

António Rodrigues, 82 anos, comerciante, e Lisete Gonçalves, 80, funcionária superior do Estado, moram mesmo ao lado da Realnorma. "Parecia uma guerra, o meu maior medo eram os pneus, tudo a rebentar, felizmente que a minha casa ficou intacta, mas precisa de uma boa limpeza", conta Lisete. António, o marido, ainda não acredita: "Estávamos para nos deitar e, pela janela da marquise, vimos o fogo ao longe, abrimos a porta da cozinha e estava tudo a arder. Telefonámos para os bombeiros, estavam as linhas ocupados, fomos ao quartel dizer o que estava a acontecer. Responderam que não tinham ninguém para mandar, que havia fogo por todo lado. Voltámos, pegámos nas mangueiras e fizemos o que podíamos, deitar água por todos os lados." Um sobrinho veio buscar o casal às três da madrugada de segunda-feira.

Regras por cumprir

Quem passa no Parque Industrial, sobretudo agora, não pode deixar de reparar na pequena distância que vai dos eucaliptos às fábricas, não respeitando a faixa de segurança, 50 metros. Pedro Adão, o vereador, justifica, sublinhando que há locais sem floresta perto e que foram atingidos. "Esta zona industrial tem 30/40 anos, quando esta lei não existia, agora, que estamos numa fase de ampliação, estamos a cumprir."

José Silva chama a atenção para a falta de bocas de incêndio. "Não vejo nenhuma por perto. Se existem , são poucas." Existem estes equipamentos em fábricas que operam com determinados materiais, como a Tratris.

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