Mário Nogueira: "Quando sair, a única coisa que vou ser é aquilo que era quando entrei: professor"

Em entrevista, Nogueira defende a greve dos professores e culpa o governo pelo momento em que esta aconteceu. Revela também que por vezes sente o desgaste da função, e gostaria de voltar à escola, mas não estabelece prazos para sair

A greve de professores valeu a pena?

Valeu muito a pena. Se não valesse a pena, teria sido para o Ministério da Educação algo de irrelevante. Não teria sentido ter estado sentado, o ministro da Educação e a sua equipa, em dois dias, mais tempo do que diria em toda a legislatura. Foram nove horas de reunião e, sobretudo, percebeu-se exatamente que tipo de abertura é que neste momento o governo tem para dar resposta aos problemas dos professores. Para aqueles aspetos que estavam em cima da mesa, foi absolutamente transparente até onde é que o ministério ou o governo irão e o que é que para eles, neste momento, continua a ser tabu. E a adesão dos professores, em particular do pré-escolar e do 1.º ciclo, foi das mais elevadas de sempre.

Do ponto de vista da opinião pública a altura era complexa: exames, a tragédia dos incêndios. Sente que as pessoas entenderam as razões da greve?

Preocupa-nos sempre a opinião pública mas aqueles com quem mais nos preocupamos são os professores. As confederações de pais, ao contrário até de outros momentos, não tiveram posições públicas que fossem de grande animosidade. Estivemos a distribuir na rua folhetos à população, evidentemente que houve quem estivesse a favor e quem estivesse contra, mas reações de uma animosidade grande, de uma revolta, não houve nada. Por que é que se faz nesta altura? Porque os governos sabem que esta é uma altura muito difícil para os professores e empurram para o final do ano um conjunto de aspetos pensando que, chegando aí, estão salvos da contestação. Tivemos este filme com ministros como Lurdes Rodrigues e Nuno Crato. Em cima da mesa estiveram aspetos que estão colocados desde setembro. O ministro da Educação só não reuniu em maio connosco porque não quis. Adiou.

Nestas reuniões sentiu-se que a Fenprof queria levantar a greve. Se queriam, por que não o fizeram?

Quando admitimos suspender a greve foi admitindo também que o ministério teria compromissos mínimos. Se a nossa questão fosse não fazer a greve a qualquer custo, não a tínhamos feito. Acho curioso que nos perguntem se no contexto do país a greve se podia fazer ou não. A greve é um momento de afirmação de trabalhadores, neste caso professores, por aspetos que eles consideram ser seus direitos. Não me parece que a seleção nacional de futebol tivesse posto a possibilidade de deixar de jogar à bola. Não me parece que as festas de Lisboa ou o São João no Porto - e aí sim falamos de festividades - tivessem estado à beira de ser anuladas. E é legítimo. Com todo o respeito que as vítimas desta tragédia merecem - e da Fenprof mereceram logo no dia em que o acontecimento se deu, sendo que tivemos a preocupação de dizer que os colegas deveriam estar na escola nesse dia [da greve] com os alunos, nessas zonas - parece-nos que a vida continua.

E quais eram os compromissos mínimos possíveis naquela altura?

O que quisemos foi de facto assegurar mínimos, não para levantar a luta, porque o levantamento da luta passava por um regime de aposentação especial, descongelamento de carreiras em janeiro, horários de trabalho resolvidos em setembro, as questões que têm que ver com a garantia de novos períodos de vinculação em 2018-19 e ainda a gestão democrática das escolas. Isto é que levantava a luta. Aquilo que nós admitimos foi suspender aquele momento de luta perante compromissos mínimos do ministério...

... de negociação futura?

De negociação futura e, entre outros, dois que para nós eram muitos importantes. Um deles era uma resposta a três resoluções da Assembleia da República, aprovadas por unanimidade, de resolução do problema de carreira dos professores. O ministério recusou. É estranho, porque o próprio partido do governo votou favoravelmente três vezes esta medida. E a outra que tinha que ver com a questão do desgaste em que, pelo menos, aquilo que nós quisemos foi que o Ministério da Educação aceitasse criar um grupo que pudesse aprofundar os problemas de desgaste dos professores e as causas e consequências desses problemas junto dos alunos. E o ministério também não quis.

O ministro diz que questões como o descongelamento das carreiras estão a ser estudadas pelo governo para toda administração pública. Essa garantia não os convence?

Não. Aceitámos uma coisa que o ministério assumiu: que o descongelamento das carreiras terá lugar juntamente com o descongelamento geral da administração pública. Já não se põe a possibilidade de em janeiro de 2018 descongelarem as carreiras da administração pública, mas não descongelarem as carreiras dos professores. Garantida esta paridade há no entanto dois aspetos que terão de ser resolvidos antes: um que tem que ver com o acesso ao 5.º e 7.º escalões - uma portaria de vagas nunca publicada que o ministério agora assume que, essa medida, irá tomá-la previamente ao descongelamento. Mas quando chegámos à questão dos 7500 professores que, em setembro, estarão no 1.º escalão, apesar de deverem estar em outros escalões [pelo tempo de serviço], o ministério recusou isso em absoluto. É estranho. Há três resoluções aprovadas na Assembleia da República que o recomendam.

As decisões na Fenprof são tomadas em conjunto e quando aparece a comunicá-las faz questão de ter consigo os outros membros do Secretariado nacional. Mas, para o bem e para o mal, a imagem que passa é que o Mário Nogueira é que decide tudo...

Cada um forma as imagens que queira formar. Até lhe digo: muitas vezes os colegas dizem que a Fenprof não foi tão rápida a tomar posição sobre uma matéria como deveria ter sido. E não foi precisamente por isso. Se fosse um blogue poderia pôr lá qualquer palermice e a responsabilidade era da pessoa. Nós, sempre que temos de tomar posição, pedimos a opinião às direções dos sindicatos, depois reunimos o secretariado. Basta um sindicato não concordar para que a decisão não seja tomada. Temos de continuar até haver um consenso.

É secretário-geral da Fenprof há uma década. Qual é o seu horizonte? Vai continuar enquanto o elegerem?

O nosso horizonte, meu e dos outros dirigentes sindicais, é sempre o do mandato. No meu sindicato, na região centro, tivemos uma lista com pessoas de todos os quadrantes políticos, católicos e não católicos, e fomos agora eleitos com grande margem para três anos. Portanto, o horizonte são três anos.

E depois disso continuará se for essa a vontade dos professores?

Isso terei de ver também, por muitas razões, de ordem pessoal também. Há um desgaste. Nestes últimos dias, nos dias da negociação, saímos daqui há uma e meia da manhã, no dia seguinte estávamos cedo no ministério, saímos daqui às tantas e às seis da manhã estava de pé para ir à RTP.

Pondera passar o testemunho?

Só temos congresso em 2019, estamos em 2017. Nem sequer é uma coisa em que esteja a pensar nesta altura.

Ainda se vê a voltar a lecionar?

Vejo. Quando voltar para a minha escola. Não fui dos que aproveitaram estar num sindicato a tempo inteiro para fazer o doutoramento ou tentar saltar para qualquer outra coisa, não procurei subir no aparelho de nenhum partido para poder ir para deputado. Quando sair daqui, a única coisa que vou ser é aquilo que era quando entrei: professor, no meu agrupamento. E o trabalho que me for atribuído serão aulas, serão apoios. Serão as outras coisas todas normais na escola. E é assim que deve ser.

É professor do 1.º ciclo...

Exatamente. E com especialização também em alunos com necessidades educativas especiais.

Sente falta desse trabalho?

Sim, e durante muitos anos - não é a mesma coisa mas é como se fosse - também fui trabalhando na parte desportiva com os jovens, com os alunos. Fui mantendo essa ligação mas muitas vezes, quando a pessoa anda mais cansada, aquilo de que gostamos mais de fazer é a profissão que temos: Não fui para ela por obrigação, fui porque queria.

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG