Marcelo, o equilibrista: Passos não merece sanções. Nem Costa

Na Madeira, Presidente da República recusou que Portugal possa ser castigado - seria "enorme injustiça". PSD não concorda

Entre beijinhos e abraços, na sua visita à Madeira Marcelo Rebelo de Sousa fez equilibrismo na política. A nível nacional e regional. No primeiro caso, deve ter, provavelmente, atraído os apoios da esmagadora maioria dos portugueses: defendeu Passos Coelho, o que acontece pela primeira vez, de forma tão evidente, desde que tomou posse; reforçou os votos de confiança em António Costa e no seu governo de maioria de esquerda (pelo menos até 2018); e ainda deu uma bofetada de luva branca aos dirigentes da União Europeia (UE) que nos últimos dias têm assustado Portugal com as sanções, por causa do não cumprimento do défice de 2015.

Na ilha de Porto Santo, onde a nostalgia de "algumas das melhores férias" que passou com a família foi assumida pelo Presidente da República, Marcelo não se fez rogado no comentário ao terceiro dos "avisos" desta semana a Portugal a defender que o nosso país seja castigado (na quarta-feira foi o ministro da Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, na quinta o diretor-geral do Mecanismo Europeu de Estabilidade, Klaus Regling, e ontem um dos vice-presidentes da Comissão, Valdis Dombrovskis).
E foi Marcelo a explicar em detalhe por que o nosso país não merece ser punido. "Ora bem, vamos lá ver", começou o analista político que ainda está bem vivo no Presidente. "Como é inevitável, a poucos dias da decisão sobre as sanções, assistimos como sempre a alguma tensão e especulação. Estamos habituados a isso em Portugal."

Recordando a "grande unanimidade", que elogiou, de todas as forças políticas nacionais contra as sanções, Marcelo detalhou os dois motivos pelos quais se poderia aplicar as mesmas. O primeiro é o que "decorre do Tratado Orçamental, segundo a qual o Orçamento executado pelo governo de Passos Coelho ultrapassou em 0,2% o limite imposto de 3%". Isso "é de uma enorme injustiça. Qualquer pessoa de bom senso sabe que se houve governo que teve a preocupação de acompanhar aquilo que a Europa queria foi o de Passos Coelho. Ainda por cima por um valor de 0,2%, cujo cálculo é até discutível, num país que fez tudo nos últimos anos para sair da crise".

Uma segunda possível justificação, assinalou o Presidente, era a Europa querer dar ao atual governo um "aviso" de que está "atenta" a qualquer incumprimento do défice e é "dura" com os países que falham. "Mas aí também há azar", salientou, "isto porque os números divulgados nos últimos dias mostram que a execução do primeiro trimestre foi comparativamente melhor do que o trimestre homólogo de 2015, que foi muito difícil. Em vez de 5,5 foi 3,2. E aquilo que se sabe de maio ainda é melhor. Portanto, também não serve como justificação". Por isso, Marcelo avisou os dirigentes europeus que têm pressionado o país que "não faz sentido aplicar qualquer sanção, sobretudo numa altura em que a UE tem tantos problemas e tão graves. Isso é que seria de bom senso".

E, se Marcelo deu aqui o seu voto de confiança a Costa e à sua "geringonça", ele também ficou implícito quando - noutro número de equilibrismo profissional, desta vez no artístico "rendilhado" da política madeirense - admitiu que conta com Costa, pelo menos até 2018.

Desafiado pelo presidente da Câmara do Porto Santo, do PS, a presidir à Comissão de Honra das comemorações dos 600 anos da descoberta do território por Gonçalves Zarco (1418), Marcelo, sabendo que na Madeira Miguel Albuquerque (o presidente do governo regional, do PSD) também vai preparar celebrações nesse ano, declinou elegante e airosamente.

Agradeceu e elogiou o trabalho de Filipe Menezes na ilha, disse a sorrir que "comissões de honra" são "para pôr uns velhinhos nas prateleiras sem fazer nada" e manifestou-se disponível para "participar mais ativamente". Deixando a promessa de que até vai falar com o primeiro-ministro para que ele o acompanhe nessas celebrações daqui a dois anos...

Se Maria Luís fosse ministra...

Já o PSD crê que se vierem as sanções a culpa será do atual governo. "Se eu ainda fosse ministra das Finanças, esta questão não se estaria a colocar", atirou ontem Maria Luís Albuquerque. Em causa, defendeu a dirigente do PSD, não está o ano de 2015. A culpa é da trajetória do atual governo, que está "a ser desviada daquilo que foi nos últimos anos".

Em 2013, a 2 de julho, Maria Luís tomava posse como ministra das Finanças, no dia da carta "irrevogável" de Paulo Portas. Hoje, três anos depois, a dirigente do PSD fez o elogio do seu governo por comparação com o atual. "O que está a ser feito nestes meses de governação" e "as dúvidas fundadas sobre as metas macroeconómicas e as reformas estruturais" atiraram para cima da mesa a possibilidade das sanções. Com Maria Luís tudo seria diferente. "Com [as reformas estruturais] conseguimos merecer a confiança dos nossos parceiros europeus. Se tivéssemos continuado no governo essa credibilidade não se perdia."

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG