Marcelo encheu a alma em São Tomé e vê unidade em Portugal

À distância de meio oceano, quase em cima da linha do equador, o Presidente encontra razões para o que sempre disse sobre o país político: "Aquilo que nos une é, de longe, muito mais importante do que aquilo que nos divide".

Juntar Marcelo Rebelo de Sousa e uma ilha de gente que não usa travão nas emoções dá naquilo a que se assistiu durante cerca de meio dia no Príncipe. Uma comitiva atrasada, movendo-se ao ritmo das pausas para beijos e abraços, e constantes fugas ao protocolo numa ilha que saiu à rua para dar afeto ao Presidente dos afetos.

Marcelo fez o balanço da visita de Estado a São Tomé e Príncipe começando por confessar que sai daqui de alma cheia. Encontrou nestas ilhas calor para lá dos termómetros e diz que quer ver os dois países a caminhar juntos com "um calor, se possível, ainda mais acentuado, mais jovem, mais dinâmico e mais motivador". Toda a visita, planeada há muito, acabou por ser uma resposta às críticas do primeiro-ministro santomense, que dias antes tinha comentado com algum azedume o que diz serem atrasos e alguma falta de dedicação na cooperação portuguesa.

Tudo parece ter sido ultrapassado, nos momentos privados e nas demonstrações públicas, numa visita "emotiva", como a qualificou o Presidente. Afinal, a influência de Portugal esteve sempre à vista. "A presença portuguesa esteve por toda a parte", sublinhou Marcelo, relembrando os exemplos: "quando ouvimos uma jovem recitar um poema de Eugénio de Castro, de forma muito emotiva, quando tivemos aquela experiência do jogo de futebol num campo que se deve à Fundação Benfica, quando hoje visitámos a segunda sede do Sporting - a primeira foi Lisboa e depois abriu aqui no Príncipe - e descobrindo eu que o presidente da República, o presidente do governo e o da assembleia regional, são todos sportinguistas e que o incansável chefe do protocolo é um ferrenho portista, o que quer dizer que, não tendo sido esse o objetivo da visita, lateralmente fomos encontrando as mais inesperadas presenças portuguesas".

Houve sinais desse caminho coletivo numa e noutra ilha. "Em todo o lado encontrámos a pujança de São Tomé e Príncipe, a juventude, a construção do futuro e a presença de Portugal na construção desse futuro". Sob um sol forte, na varanda da roça Sundy, uma fazenda adaptada recentemente a unidade hoteleira, Marcelo soltou a emoção: "não pode haver experiência mais gratificante do que esta. Saio de alma cheia por aquilo que vi neste grande país, por aquilo que há de grande na conjugação dos dois países e naquilo que há de grande em projetos para o futuro nessa relação".

A distância reforça a união

O ritmo leve-leve da vida em São Tomé podia bem servir de tom ao que o Presidente tem vindo a pedir - um esforço de entendimento entre os partidos à roda de questões estratégicas para Portugal - e que ganhou um novo fôlego com a eleição de Rui Rio para a liderança do PSD. Mesmo que as conversas, sobretudo entre PS e PSD, avancem lentamente, Marcelo, que já deixou a bola do lado dos partidos, quer acelerar a parte que lhe diz respeito.

Aqui nas ilhas, o Presidente mostrou-se disponível para "acompanhar, de facto, de forma empenhada, esse esforço" de diálogo e eventuais entendimentos entre os partidos. Ontem, na despedida da ilha do Príncipe e perante uma pergunta indireta de um jornalista que pretendia saber se já estava marcada nova audiência com Rui Rio, Marcelo foi direto ao assunto: "Não querem perguntar especificamente sobre um ponto da agenda?! Quanto a esse eu posso confirmar que receberei para almoçar na próxima segunda-feira". Dia 26, portanto, os dois encontram-se em Belém.

Uns dias em São Tomé dão a qualquer visitante uma noção diferente do tempo e põe qualquer um a relativizar os problemas caseiros e a dar valor àquilo que é verdadeiramente essencial na vida. Terá sido isso que aconteceu com Marcelo? "Quando se olha para Portugal a partir daqui é que se vê como é grande a unidade nacional, de fora tem-se outro distanciamento, outra perspetiva".

O Presidente viajou acompanhado por Augusto Santos Silva e encontrou no ministro dos Negócios Estrangeiros um parceiro atento, descontraído e sempre disponível para jogos de palavras e tiradas de humor com a política nacional como pano de fundo. Menos presentes, os seis deputados - PSD, PS, CDS, Bloco, PCP e Verdes - foram uma presença constante, tendo mesmo diversos pontos de agenda informal em conjunto. Acabaram todos, Presidente, ministro e deputados, a cantar a Grândola Vila Morena em território nacional, na Chancelaria da Embaixada portuguesa. Seria difícil pedir mais e também aí o Presidente leu sinais: "A unidade traduzida na participação entusiástica de deputados de todos os grupos parlamentares, na vivência da mesma política externa, mas também na vivência do que é essencial para essa unidade".

A conclusão? O reforço de uma frase batida: "Aquilo que nos une é, de longe, muito mais importante do que aquilo que nos divide. Se digo isso em Portugal, aqui muito mais seguro fico daquilo que costumo dizer", disse Marcelo ontem no Príncipe. A distância, diz o Presidente, reforça a busca da essência. "Em política e em democracia há o acessório. Mas, por muito importante que pareça o acessório, quando se tem distanciamento histórico e geográfico, percebe-se que esse acessório é isso mesmo, acessório".

Uma floresta farmácia

Dizem os de cá que no Príncipe, mas árvores e plantas da floresta, há mais de 60 tons de verde. Para lá da diversidade da cor, há uma equipa de investigadores, da Universidade de Coimbra, que publicou um levantamento do potencial farmacológico desta natureza em estado puro.

A visita ao parque da biodiversidade, onde Marcelo tinha encontro marcado com seis curandeiros que iam explicar as capacidades medicinais de outras tantas plantas e ervas, começou com um contratempo protocolar. A chuva dos últimos dias tinha forçado o encontro para lá da orla do parque. Ao ouvir esse lamento da boca de um dos responsáveis - "Devíamos estar lá no mato, mas por razões de segurança não podemos estar lá", Marcelo perguntou e decidiu logo ali a fuga às regras: "Ai não estamos no parque? Mas a que distância fica? 30 metros?!? Só...? Então vamos..."

A investigadora Maria do Céu Madureira aproveitou a apresentação de uma das plantas, com potencial para tratar casos de paludismo, tanto na forma hepática como sanguínea, para um desabafo. "Sabe que a investigação sobre a malária não é propriamente muito querida da indústria farmacêutica. De qualquer forma, está aqui a investigação, está aqui um manancial..."

O livro, esgotado, ficou entregue nas mãos do Presidente, que insistiu que deviam avançar para uma segunda edição. Seguiu-se na fila de "curandeiros" o Sr. Assunção. Apresentado como massagista, trazia nas mãos um molho de folhas de Nicócó. São boas, diz, para espevitar o apetite: "Se o senhor Presidente tiver falta de apetite, de comer..." Marcelo interrompe: "não é o caso..." Entre os risos, o Sr. Assunção passa para outro tema, outra qualidade da folha de Nicócó: "faz chá disso e (sorri) também aquece o material". Marcelo arregala os olhos, e espanta-se: "ai aquece o material...?!". Maria do Céu, investigadora, interrompe e muda de assunto: "Cheira muito bem e é da família do manjericão".

O céu começou a ficar cor de chumbo e sentiu-se um nervoso miudinho no Presidente do Governo Regional do Príncipe e no chefe do protocolo do governo central. É ele quem interrompe pela primeira vez a conversa entre Marcelo e os curandeiros: "senhor presidente, temos de ir... vai chover muito". Seguiu-se um inevitável chuto para canto: "eu sei, já percebi", diz Marcelo, "falou-se de coisas assim fortes e o protocolo intervém logo".

As interrupções seguiram-se uma e outra vez, quer pelo chefe do protocolo santomense quer pelo governante local. É um perigo, diziam. Se começasse a chover, os tais 30 e tal metros de caminho estreito e coberto de folhas secas que tínhamos subido tornava-se num insuspeito parque de diversões, num imenso escorrega. "É perigoso, senhor Presidente, temos de descer agora!" Marcelo ficava ainda mais decidido a ouvir tudo o que lhe tinham para contar sobre plantas medicinais, de todos e cada um dos curandeiros, a cada interrupção. "Está bem, está bem, já percebi. Só faltam três..."

Ainda sem pinga de chuva chegou o presente final. Uma garrafa de vidro, pequena, com folhas e ramos secos e um papel atado com um cordel ao gargalo. "Esta senhora preparou-lhe uma surpresa", disse Maria do Céu Madureira. Marcelo leu o que lá estava escrito e exclamou: "ai é para a hérnia! Vem um bocado tarde..."

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