Marcelo e António Costa acertaram convite a Draghi

Conselheiros mais à esquerda manifestaram-se surpreendidos pela participação do presidente do BCE e esperam para ver o que vai dizer na reunião de 7 de abril

O convite de Marcelo Rebelo de Sousa a Mario Draghi - e a Carlos Costa - para o Conselho de Estado "foi acertado entre Presidente da República e primeiro-ministro", confirmou ao DN fonte oficial do gabinete de António Costa.

Estes convites ao presidente do Banco Central Europeu (BCE) e ao governador do Banco de Portugal para participarem na reunião de 7 de abril surpreenderam alguns conselheiros ouvidos pelo DN. Segundo a ordem de trabalhos divulgada pela Presidência da República, Mario Draghi vai "apresentar uma exposição ao Conselho de Estado sobre a situação económica e financeira europeia".

Francisco Louçã afirmou a sua "surpresa" com a convocatória de Draghi. Recusou, porém - pelo menos para já -, juntar um qualificativo à sua surpresa: dirá o que tem a dizer quando a reunião se realizar (e sabe-se que haverá um espaço para perguntas dos conselheiros aos dois convidados).

Louçã tem sido muito crítico da atuação do BCE no "caso Banif", acusando o regulador bancário europeu de estar a fazer tudo para que o Santander seja "o banco europeu de referência para a Península Ibérica", à custa de todos os outros. No seu entender, o concurso pelo qual o Banif passou para as mãos do Santander, por 140 milhões de euros, "foi totalmente viciado" com o alto patrocínio do BCE, existindo de facto um "risco de espanholização da banca".

Na sua interpretação, os convites foram feitos pelo Presidente da República no quadro dos alertas que já havia feito - logo no discurso de posse - sobre os "riscos do sistema financeiro português".

"Surpresa" foi também a expressão de Domingos Abrantes, do PCP, outro dos novos conselheiros de Estado, que soube da convocatória "pela comunicação social", apesar de desvalorizar o facto por estar fora de Lisboa. "É uma surpresa" a presença de Draghi e Carlos Costa, antecipando que "o Presidente da República certamente dará uma explicação sobre os contornos do convite".

Este conselheiro eleito pela Assembleia não quis antecipar nenhuma questão que pudesse dirigir ao presidente do BCE. "Não vou antecipar o andamento da reunião, não sei nem os termos nem as condições do convite", disse ao DN Domingos Abrantes.

"Pode ser muito útil"

Já nos conselheiros da área do PS, a iniciativa presidencial é vista com bons olhos. Ferro Rodrigues, conselheiro de Estado por inerência das suas funções como presidente da Assembleia da República, disse ao DN que "o Presidente tem esse direito". Acrescentando, logo de seguida: "E pode ser muito útil."

O presidente do PS, Carlos César, também ele eleito pelo Parlamento, notou que "não é a primeira vez, embora nunca tenha sido uma regra". De facto, como ontem recordava o DN, outros chefes de Estado convidaram personalidades exteriores a este órgão de consulta, mas não há memória de um cidadão estrangeiro participar.

O também líder da bancada socialista limitou-se a acrescentar que "sendo o Conselho de Estado um órgão de consulta do Presidente da República, é ao Presidente da República que cabe definir o seu formato de funcionamento".

Quem não poupa elogios ao movimento de Marcelo é o seu amigo Luís Marques Mendes (que foi líder parlamentar do PSD quando o atual Presidente da República liderava o partido). "É uma bela iniciativa, só posso aplaudir", disse o comentador político ao DN. Segundo explicou, Marcelo também terá convidado o presidente do BCE para que os conselheiros de Estado o "sensibilizem para as especificidades da economia portuguesa".

Nessas especificidades cabem as preocupações que Marcelo Rebelo de Sousa tem manifestado sobre a banca, nomeadamente o eventual domínio acionista espanhol - preocupação que o Presidente português já levou ao rei Filipe VI de Espanha, no encontro que manteve com o monarca a 17 de março. "É conhecida a minha posição sobre essa matéria - segundo a qual é importante uma presença significativa espanhola em Portugal, o que é diferente de haver um exclusivo. Não é uma posição exclusiva a um país, é uma posição de fundo", disse Marcelo Rebelo de Sousa em Madrid.

Mario Draghi joga um papel-chave neste quadro até porque tem sido denunciado (na linha do que critica Louçã) que o BCE quer consolidar a banca através de uma redução do número de bancos e uma maior concentração.

BCP. BCE quer acionista espanhol

Nos últimos dias falou-se de um manifesto contra a "espanholização da banca" que estaria a ser preparado. O ex-presidente da Associação Portuguesa de Bancos, apontado como porta-voz do manifesto, elogiou a atitude do Presidente e do primeiro-ministro neste tema.

"Teve a grande vantagem de se atravessarem em relação a uma decisão do BCE que achava que eram favas contadas", considerou João Salgueiro, na SIC Notícias, revelando que o banco presidido por Draghi (e que tem Vítor Constâncio como vice-presidente) quer um banco espanhol a entrar no capital do BCP. Defendendo ainda que a solução passa pela nacionalização.

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