Magreza em excesso não é formosura. Portugal deve impor regras de peso?

França quer proibir modelos excessivamente magras. Por cá, as opiniões dividem-se, mas todos querem proteger a saúde.

Depois de desfilar em biquíni na ModaLisboa, Jessica Athayde foi alvo de duras críticas ao seu corpo. Houve quem sugerisse que devia fazer mais abdominais, ou comer menos hidratos de carbono. Nada que abalasse a atriz, que reagiu com um apelo antibullying pela forma como as mulheres são julgadas. "Se fosse há uns anos, podia ter corrido muito mal", disse ao DN, referindo-se ao período em que sofreu de anorexia nervosa. Na mesma semana em que lançou o seu primeiro livro - Não Queiras Ser Perfeita, mas Faz o Melhor por Ti -, um grupo de deputados franceses propôs que se afastem os modelos demasiado magras das passerelles. Lembrando que há pessoas naturalmente magras e saudáveis, e que também são vítimas de preconceito, Jessica Athayde aplaude a proposta, pela influência que os padrões de beleza têm nos jovens.

"Quem aparece em público acaba por ser um exemplo para as gerações mais novas. Digamos que representa o bonito", afirma a atriz. Por isso, Jessica diz que não é "a favor de uma indústria da moda que vende magreza." Mas há pessoas naturalmente magras "e que se vê que são saudáveis." Só que há muitos casos em que isso não acontece, e a indústria da moda "entrou numa fase de magreza doentia". "É importante que as agências se preocupem em garantir que as manequins não estão doentes."

Em França, a proposta de combate aos distúrbios alimentares, apoiada pela ministra da Saúde, passa por proibir as agências de contratar modelos com um índice de massa corporal (IMC) abaixo de 18,5, infração que poderá ser punida com 75 mil euros de multa e penas de prisão de seis meses. Para Fátima Lopes, "tudo o que é radical está errado e funciona mal." Na opinião da estilista, determinar quem pode ou não desfilar através do IMC não é correto. "Até há dois anos, eu estava abaixo dos 18 e não era doente. Não é pelo IMC que se vê se a pessoa é ou não saudável", destaca. No caso de a medida ser aprovada, "vão ser discriminadas as modelos que são naturalmente magras." As manequins que desfilam na capital da moda, destaca, "ficariam praticamente todas de-sempregadas. E nenhuma delas tem ar doente."

A estilista assegura que na Face Models "não há manequins doentes. São naturalmente magras". Fátima Lopes refere que "nunca é dito a uma modelo para fazer dieta", mas sim para cuidar da sua alimentação e fazer desporto. "Já recusei manequins por serem demasiado magras". Se a proposta avance, a estilista considera que poderia fazer mais sentido "pedir provas de que as pessoas estão saudáveis, como um atestado médico".

Para a endocrinologista Isabel do Carmo, esta proibição faz todo o sentido, mas terá "grandes dificuldades de aceitação". Isto porque, explica, "há muitas raparigas jovens com um IMC de 16 e 17, ou seja, abaixo do considerado saudável". Mas se há muitas que são saudáveis com um IMC inferior a 18, "há jovens que fazem um esforço de dieta muito grande para estar abaixo desse valor. Manter uma magreza assim de forma voluntária é prejudicial. Facilmente deixam de ser saudáveis".

A "ditadura da imagem imposta"

Jessica Athayde conta que, por diversas vezes, lhe apontavam coisas que "achavam que não estavam bem","ou que não podia aparecer na televisão porque tinha os dentes tortos, ou que a minha voz era muito aguda". No seu livro partilha a sua história e as estratégias que encontrou para superar os problemas que surgiram na adolescência. Embora nunca tenha tido uma obsessão por ser magra, aos 24 anos, a ansiedade levou a que não conseguisse comer, tendo ido parar a um hospital. Depois disso, reaprendeu tudo o que sabia sobre alimentação, exercício físico e saúde emocional.

As imagens de modelos extremamente magras não chegam para que uma jovem desenvolva anorexia, mas se existirem outros fatores (biológicos e psicológicos) podem potenciar a doença. Para a presidente da Associação dos Familiares e Amigos de Anoréticos e Bulímicos, "todos os trabalhos que permitam que os casos não evoluam fazem sentido." Adelaide Braga afirma: "Embora não se possa relacionar diretamente com a moda, muitas vezes é isso que leva as pessoas a pensar ter determinada imagem." "Há raparigas que querem ir para a passerelle, onde só se vê esqueletos ambulantes, e fazem tudo para lá chegar". Por isso, "esta é uma medida que pode e deve ser adotada em Portugal". Mas há mais a fazer, nomeadamente na indústria têxtil, a nível dos tamanhos da roupa.

Em 16 anos de trabalho na área da moda, Vanessa Veloso, diretora da Just Models, diz ter acompanhado "um único caso de anorexia diagnosticada". "De um modo geral, a nossa realidade é inversa: comem muito e às vezes mal [risos], mas têm de certeza uma genética, metabolismos rápidos que favorecem uma figura mais magra." A preocupação com o bem-estar dos modelos é constante, garante, acrescentando que se um modelo não for saudável isso se percebe.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG