Zika: Suspeita de primeiro caso em Portugal por transmissão sexual

Uma mulher terá sido infetada pelo companheiro depois de o homem ter chegado à Madeira sem sintomas

Depois dos EUA, Itália, França, Argentina e Nova Zelândia, foi a vez de a Madeira reportar um caso "provável" de transmissão do vírus zika por via sexual. Uma mulher terá sido infetada pelo companheiro, o que, a confirmar-se, vem comprovar que o vírus pode ser transmitido através do sexo e que permanece no sémen várias semanas depois de a infeção passar pois o homem não apresentava sinais de infeção.

As autoridades de saúde da região autónoma notificaram ainda uma outra infeção numa mulher que regressou do Brasil - país onde já foram notificados mais de 1,5 milhões de casos. Mas, por agora, não há razões para alarme, garantem as autoridades de saúde, uma vez que não se registou atividade do mosquito nas últimas semanas. Sobem assim para 14 os casos reportados em Portugal, 13 importados.
A picada do mosquito Aedes aegypti é a principal forma de transmissão do vírus zika, mas existem cada vez mais evidências científicas de transmissão por via sexual. Este caso reportado na Madeira, que vai ser sujeito a nova análise na segunda-feira.

Já o caso importado foi confirmado na sexta-feira pelo Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, avançou ao DN Ana Nunes, presidente do Instituto de Administração da Saúde e Assuntos Sociais, IP-RAM. Ambas as mulheres apresentavam sintomas ligeiros e os casos evoluíram favoravelmente. Embora o mosquito - um dos principais vetores de transmissão de chikungunya, dengue e zika - exista na Madeira desde 2005, Ana Nunes assegura que não há razões para alarmismo: neste momento, não há risco de transmissão local. E o plano de prevenção e controlo continua em ação.

Sempre que existem casos suspeitos de infeção provocada pelo vírus, é feita uma "vigilância apertada" numa área aproximada de 200 metros em torno do local onde a pessoa reside e onde trabalha. Foi o que aconteceu quando surgiram os dois casos já referidos. No entanto, o mosquito não foi detetado.
Neste momento, diz Ana Nunes, "a atividade vetorial do mosquito está muito baixa". A monitorização do Aedes aegypti é feita através de uma rede de armadilhas colocadas em pontos estratégicos (geralmente onde a atividade é mais elevada). Nas últimas quatro semanas, adianta a responsável, "não houve qualquer deteção de mosquitos ou de ovos". Destacando que a vigilância será mantida reforça que para já "não há registo de doença por transmissão vetorial na região". "Não há risco de transmissão local", frisa.

Dada a existência do mosquito na ilha, as autoridades de saúde estão em alerta para o risco de ocorrência de casos esporádicos no período de atividade vetorial alta. "Interessa estarmos preparados para a deteção precoce de casos importados através do registo epidemiológico. Sendo rápida, exercemos bloqueio, evitando a formação de clusters e de propagação para surto", explica Ana Nunes.
Desde o início de 2014 que "os alertas de saúde pública estão atualizados de forma a que os médicos das unidades de saúde públicas e privadas estejam sensibilizados para a possibilidade de entrada de um viajante ou turista" infetado. Há também educação para a saúde junto de viajantes e turistas para minimizar o risco de novas infeções.

Atendendo à possibilidade de transmissão por via sexual, o comunicado do Instituto de Administração da Saúde e Assuntos Sociais madeirense aconselha os homens que regressem de países afetados pelo vírus e que apresentem sintomas - mesmo sem confirmação laboratorial - a realizarem tratamento e a utilizarem preservativo "nas relações sexuais durante seis meses, à luz do princípio da precaução e segundo os conhecimentos atualizados". Caso não apresentem sintomas, a recomendação é que usem preservativo nas relações sexuais durante 28 dias.

Além de estar associado a milhares de casos de microcefalia - uma malformação em que o bebé nasce com o cérebro mais pequeno do que o habitual - existem suspeitas de que o vírus causa síndrome Guillain-Barré, um distúrbio neurológico grave.

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