Lutar contra a apatia em escola difícil

O professor José Alves Rocheta é o terceiro distinguido no âmbito da iniciativa Professor do Ano. Numa escola que se orgulha de não rejeitar alunos, a Dr. Azevedo Neves, na Damaia, José Alves Rocheta preocupa-se em motivar os jovens para que possam aprender, em dar-lhes um rumo. "O que me faz ferver é a apatia", resume este algarvio, que ainda não pensa sequer na reforma.

À primeira vista, a sala do professor José Alves Rocheta parece-se pouco com uma sala de aulas: há um lava-louças, louceiros, máquina de café profissional, frigorífico e prateleiras cheias de garrafas de sumo, vinho e licores... vazias, que numa escola o álcool fica à porta. Tudo o que é preciso para as aulas de serviços de restaurante-bar, do curso profissional a que José Alves Rocheta se dedica desde 2004. O professor dá instruções com a segurança de quem faz isto há muitos anos e não tem tempo a perder. É impossível adivinhar que veio de Engenharia e começou em 1981 a dar aulas de trabalho oficinais, depois transformadas em Educação Tecnológica. Mas é esse o percurso de José Alves Rocheta, que desde criança queria ser professor.

O escolhido do mês de dezembro da iniciativa DN Professor do Ano dá aulas numa escola que se orgulha de não rejeitar alunos. A Dr. Azevedo Neves, na Damaia, está rodeada de bairros considerados problemáticos e recebe jovens que só aqui encontram lugar, "empurrados por outras escolas" com o argumento de que não têm vagas, explica o diretor, José Biscaia. Doze por cento dos alunos até ao 9.º ano vêm de fora da área da escola por esta razão, percentagem que sobe para 30% no secundário. Neste caso, vêm atraídos pelos cursos profissionais, que têm "elevada empregabilidade. Falo em nome do coletivo e de todos os professores, funcionários e dos nosso parceiros, das empresas que dão estágio aos nossos alunos à câmara. É uma escola com características especiais, que tem a preocupação de formar homens que a sociedade precise", conclui.

Para Catarina Moreno, que todos os dias demora uma hora a chegar à escola , o curso profissional "não é mais fácil, ao contrário do que as pessoas pensam". Mas "dá mais gosto", o que fez que, desde que seguiu esta via, não tenha perdido mais nenhum ano, depois de repetir o 5.º e o 7.º. E é fácil ver a diferença em Catarina, Rafaela e Daice quando podem passar da teoria à prática e preparar bebidas, depois de passarem algumas horas a falar de refrigerantes e essências vegetais.

José Alves Rocheta chegou a esta escola em 1987, quando à volta existiam apenas campos e quintas, depois de andar a saltar por Sintra, Cascais, Alcabideche e Brandoa. "Havia coelhos e pássaros ali atrás", conta. Ficou encantado e nunca mais se foi embora.

Hoje tem o "mundo na sala de aulas". Alunos cujas raízes familiares se encontram em África, sobretudo nos países africanos de língua portuguesa (PALOP), mas também na Guiné, no Senegal e no Leste da Europa - uma diversidade que o professor aprecia. Tal como aprecia a forma como a escola mudou. "Estar em constante mutação é sinal de vida. Mudou tudo. Mudaram os alunos e mudaram os professores. Temos professores excelentes, muito bem formados, muito dedicados. Tenho colegas novos espetaculares, que vivem isto como deve ser vivido", conta. E como é que deve ser vivido? "Com espírito de missão, não se faz como se fosse outro trabalho qualquer."

Foi esse espírito de missão que durante anos o levou aos bairros, à procura dos alunos que faltavam. "Ir aos bairros facilita tudo, mais do que muita gente imagina. Não há nenhuma mãe que rejeite quem se preocupa com os seus filhos. E depois essa mãe, para quem muitas vezes a escola era um bicho, começa a vir à escola." A persistência valeu-lhe o prémio de Mérito Integração, do Ministério da Educação, em 2008. Distinção para professores com particular atenção às necessidades dos alunos de diferentes culturas.

Muito desse trabalho é agora feito pelos serviços de Psicologia e Orientação, que não se cansa de elogiar. Aliás, num passeio pela escola, sobram elogios aos colegas professores, funcionários e ao diretor, "um beirão que mantém isto tudo a funcionar". As instalações renovadas há pouco parecem novas, mas a rede de ténis é obra do professor Mário Figueiredo, "a custas próprias", aponta. Para os alunos há as boas-tardes e algumas advertências. É que a exigência é uma das suas características, que às vezes lhe dá "má fama" junto dos miúdos, brinca.

"Os alunos precisam de alguém que se preocupe com eles. O que me faz ferver é a apatia. Sentir que os jovens não aproveitam nem as oportunidades que lhes dão nem as suas próprias capacidades." Foi esse motivo que o levou a dar um raspanete à turma, contra o "deixa andar". "É isso que me dói, não aproveitarem o suficiente."

Catarina reconhece que nem sempre é fácil a relação com o professor que quer sempre "que sejamos melhores". Mas acha que isso a vai ajudar muito no futuro.

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