Luís Miguel Cintra: "Hoje tenho mais dúvidas e menos medo. Sou mais livre"

A entrevista teve dois momentos distintos e distantes. Primeiro, há dois meses, na Cornucópia, uma conversa que o gravador escondeu quase toda sabe-se lá porquê. Talvez o gravador não gostasse do que eu disse", brincou ele quando nos reencontrámos, no sábado passado, numa pastelaria do Calhariz.

Escolheu esse lugar por ficar perto do Cinema Ideal, onde ia ver a segunda parte das Mil e Uma Noites de Miguel Gomes. Já vira a primeira parte e tinha gostado muito. Podia ter-me feito sentir desconfortável, nesta repetição, mas falou com a mesma disponibilidade sincera de sempre, rindo-se ao contar peripécias como a viagem com Sophia a Bordéus, comovendo-se ao recordar os pais e o irmão Denis, também ator, que morreu tão cedo. Falou com simplicidade da vida e da morte. Luís Miguel Cintra, nascido em Madrid a 29 de abril de 1949, filho do filólogo e linguista Luís Lindley Cintra, o professor por excelência. Homem do teatro desde os tempos de estudante da Faculdade de Letras, foi bolseiro da Gulbenkian na Bristol Old Vic Theatre School, fundador e ainda hoje mentor da Cornucópia, encenador, ator de todos os filmes de Manoel de Oliveira e de filmes de outros portugueses, de João César Monteiro a Catarina Ruivo, e também de realizadores estrangeiros. Foi Prémio Pessoa em 2005, e em 2014 o Festival de Teatro de Almada homenageou-o por toda a carreira. Foi para o Festival de Almada de 2015 que encenou Hamlet, de Shakespeare, na tradução de Sophia de Mello Breyner, a mesma que estará em cena na Cornucópia de 18 de setembro a 17 de outubro, para depois regressar por três semanas ao Teatro Azul de Almada.

A pergunta pode parecer básica, mas acho que lha posso fazer: o que é o teatro?

Estou numa fase da vida em que penso muito sobre tudo e sinto necessidade de fazer um balanço. O teatro é uma maneira de perceber as coisas e de viver. Através das peças e dos textos que nos chegam à mão e que vamos trabalhando, nós vamos falando, pensando, lendo coisas que vêm a propósito. E pensar a um ponto que envolve o próprio corpo. Passa por uma experiência pessoal, quando se trata de representar personagens que foram inventadas por pessoas de outras épocas. Temos de passar pela cabeça daquelas pessoas, pela sua maneira de pensar. É isso. E é também uma maneira de estar com as outras pessoas.

É sempre um trabalho de equipa, ou tem um lado solitário?

Só é solitário porque há sempre uma parte secreta no teatro. Há uma reserva indispensável, para os atores sobretudo, uma espécie de cofre-forte onde guardamos um manancial de coisas que se vai buscar, ou não, mas que são resíduos da experiência. Muitas vezes digo aos atores: "O que é importante para se ser ator? É ser uma pessoa interessante". Porque o público está sentado na plateia a olhar para outras pessoas - é isso que basicamente o teatro é, porque estão a fazer alguma coisa que elas propõem a alguém assistir. Se não forem interessantes, o que produzem não é interessante.

Como é que o público sente isso?

Isso sente-se mais numas peças do que noutras, mas é isto: na conceção de uma personagem, o que apresentas ao público como ator é o resultado da tua experiência de vida. No Tchékhov, que tem peças sobre as relações humanas de uma forma muito direta, nota-se imenso. Como é que se imagina a personagem de A Gaivota, o percurso daquela miúda? Se temos uma cabeça muito convencional, sai uma coisa sem graça. Quanto maior e mais rico for o nosso conhecimento da vida, mais rico é o resultado. Na comunicação com o público isso também acontece.

Mas o público não é uma entidade neutra, são pessoas com diferentes vivências.

Aconteceu-me pensar formas de comunicar com o público e depois sentir que caiu no vazio porque as outras pessoas não têm o mesmo tipo de experiência nem de vivência. Este confronto é que é interessante durante a vida toda, e mais importante do que coisas mais espetaculares ou mais traduzíveis em números e que são menos pessoais. Os espetáculos e a cultura em geral deviam ser uma coisa cada vez mais pessoal e mais profunda. O produto pronto a usar por toda a gente é necessariamente mau, mais fraco, menos rico interiormente.

O que pensava aos 20 anos, no Grupo de Teatro de Letras, era diferente?

No fundo, pensava a mesma coisa. Tinha era menos dúvidas e as ideias menos claras. Estou continuamente num esforço de clarificação: "Porque é que eu penso isto? Porque é que eu fiz isto?" Naquela altura, refletia menos e fazia mais, se calhar. Quando, por dever de ofício, leio o que escrevi na altura, surpreendo-me por ver as mesmas ideias ali chapadas. Penso "então eu não evoluí?" Mas evoluí, perdi o medo.

Mais dúvidas e menos medo?

Sim. E agora, depois dos prémios, do Prémio Pessoa e do reconhecimento que tive, isso traduziu-se numa liberdade enorme. Perdi o medo de me enganar, de não ser considerado. Foi muito útil para me dar liberdade de criação e de movimentação, e para ganhar a estima das gerações mais novas. Esse gosto de nos utilizarmos para nos expormos ao público, agora é um prazer. Mas durante muito tempo foi mais torturado, mais difícil. Isso foi muito injusto, aliás. Durante muitos anos, nós tivemos sempre de provar que éramos bons. Provar e provar. Os prémios criaram uma espécie de estatuto de intocável que não me interessa nada a não ser por me ajudar a perder o medo e a ousar mais. A ser mais livre.

Está agora a fazer o Hamlet de Shakespeare, na tradução de Sophia de Mello Breyner. É diferente do que tem sido feito?

Tenho a sensação de ter feito uma peça dela tanto como do Shakespeare. Ela conseguiu que o texto em português tivesse um valor poético comparável ou paralelo ao dele. É uma releitura, uma recriação, com coisas que não são de uma fidelidade obediente e tacanha ao texto. Ela capta o espírito daquilo de uma maneira especial. É uma mistura entre o português do António Vieira e os poemas do Camões. Faz uma ponte que é certa para aquela época, na transição de uma imagem do ser humano para outra imagem do ser humano. E vai dar a temas que são dela, como a liberdade individual, a retidão. A tradução é lindíssima. Não é mesma coisa que foi o veículo para o Laurence Olivier brilhar, ou o John Gielgud, que me parecem uns senhores muito vaidosos, muito bem-educados, muito cultos, grandes atores, mas a gostarem pouco do texto e sem saberem apoderar-se dele.

Por causa da dificuldade do texto de época?

Porque a relação com o teatro é diferente. A Sophia tem com o teatro a mesma relação que tem com a poesia e isso coincide com o que penso. Os ingleses são muito técnicos e distantes, sabem que estão a fazer o mais considerado texto da literatura inglesa. A Sophia tem paixão. Assistimos ao trajeto da construção de uma consciência. Começa pelo destrinçar do problema da verdade e da mentira, do ser e do parecer, que os adolescentes costumam achar importante, portanto coincide com um início de vida, o que é engraçado por ser um jovem príncipe. Ele quer saber o que é a verdade da situação que está a viver e quer ser fiel a um pai que morreu e que o manda vingar-se, mas que tem uma estrutura moral que não é a do próprio príncipe. É uma pessoa a viver com uma ideologia que não é a sua. Esse assunto fica arrumado com a representação teatral, quando o novo rei e a mãe do Hamlet assistem e são desmascarados.

Depois vêm a responsabilidade e a liberdade política, numa evolução cada vez mais complexa. Ele é expulso, afasta-se da corte, e volta purificado da viagem a Inglaterra em que foi capaz de matar os companheiros. Já é capaz de encarar a caveira do Yorick, de encarar a morte. Faz a cena final, deslumbrante, sem medo da morte, porque também abdicou do poder. Percebeu a vaidade humana e a passagem do tempo, a eterna vanitas. A Sophia consegue isto com uma transparência maravilhosa. E a peça acaba por tornar-se um elogio à liberdade.

Conheceu bem a Sophia?

Os meus pais eram visita de casa dela, e eles da nossa casa. A Maria, filha deles, era minha colega e do Jorge Silva Melo na faculdade e convidava-nos muitas vezes a ir lá à noite. A Sophia gostava de estar connosco e contava coisas da vida dela. Leu-nos as primeiras versões dos Monólogos. Lia-nos poemas, mano a mano com o Francisco Sousa Tavares. Lia um verso, depois dizia "Francisco, leia agora você". Tenho umas saudades imensas. Toda a vida foi havendo cruzamentos de todo o género entre nós. Mostrou-me a tradução do Muito Barulho por Nada, de Shakespeare, que revi com ela frase a frase, foram dias inesquecíveis. Os dois sozinhos a ler aquilo. Fizemos essa peça.

Como era ela?

Era uma pessoa com um deslumbramento pela vida, de uma elegância... Não tive com mais ninguém a sensação de uma pessoa excecionalmente elegante em todos os aspetos. Fisicamente, porque cuidava de estar bem vestida, bonita, e a iluminação da sala também tinha de ser bonita. Era muito bonita por fora e por dentro. O gosto pela nobreza de coração e de sentimentos, uma certa dureza que ela identificava com a Grécia, a integridade. Valores que nela também eram valores estéticos. Uma vez a Maria não podia ir e fui eu acompanhá-la a um encontro de poesia portuguesa em Bordéus. Fui de avião com ela.

Deve ter sido uma coisa extraordinária, era famosa a falta de sentido prático de Sophia.

Foi uma aventura. Chegou ao aeroporto e disse: "Eu quero comprar um colar. Sempre que faço uma viagem compro um colar de pérolas." O avião pronto e ela a comprar o colar. Era um avião pequenino, tive de ir explicar que ela estava atrasada a comprar um colar. Chegou finalmente ao avião e disse "Não se pode fumar? Eu não entro neste avião se não puder fumar." Foi um escândalo. Lá lhe prometeram que a deixavam sair em Bilbau para fumar um cigarro. Depois em Bordéus estava rouca e isso humilhava-a. Quando uma pessoa tem este respeito por si mesma, isso alastra aos outros. Perante uma dignidade daquelas, um cuidado tão grande com os olhos dos outros, temos tendência a portar-nos bem.

Ela devia também admirar isso em si, a sua beleza. Está a dizer que não?

É verdade que agora, quando me vejo nos filmes antigos, fico surpreendido e agradado com o que vejo.

Não tinha consciência disso?

Não. E desaproveitei muitas ocasiões...

Mas disseram-lhe, com certeza.

Disseram. Mas achava sempre que havia coisas mais importantes. Ainda sobre a Sophia. O presidente Jorge Sampaio encomendou-nos um espetáculo sobre ela, que fizemos na Expo"98. Gostei muito de o fazer e ela gostou muito também. E isso deu ocasião a ela escrever para nós O Colar, que era uma brincadeira. É muito engraçado uma pessoa no fim da vida dar-se ao luxo de fazer uma brincadeira sem consequências, o mais leve possível. Ainda foi à Cornucópia, já muito doente, levada por amigos e pela Maria, e fizemos O Colar só para ela.

Imagino que houve muitas outras pessoas que o marcaram.

Tive tantas pessoas importantes na minha vida... O Orlando Ribeiro era visita diária de nossa casa, era colega do meu pai na faculdade. Ia lá muitas vezes jantar e chegava mais cedo para me dar uma aula de cultura geral. Ele advogava que o saber mistura-se todo. Disse-me que o autor de teatro de que mais gostava era Ibsen: "Agora não podes perceber, mas quando fores um bocado mais crescido logo perceberás." A melhor música, para ele, era a de câmara, em especial os quartetos de Beethoven. Vim a saber pelo professor Ilídio do Amaral que era discípulo e colaborador dele no Centro de Estudos Geográficos, que ele reservava uma manhã por semana com todos os colaboradores só para ouvirem e comentarem música. Ensinou-me: "Quando olhas para uma paisagem tens de perceber que a flora do sítio tem que ver com a construção tradicional das casas e com a arrumação da aldeia." Foi a primeira pessoa que me explicou como era elaborada e sofisticada a cultura muçulmana.

E o seu pai, que influência teve em si?

Muitíssima. Na cultura geral e do contacto com a arte. A minha mãe também colaborava nisso. Eles separaram-se depois, mas durante muito tempo foram um casal unidíssimo. Toda a família queria que eu fosse artista. Aprendi violino, fui para o ateliê do Bartolomeu Cid, fiz um curso na Cooperativa Gravura, mandavam-me para imensos sítios para aprender todas as artes e fazer depois o que quisesse. Sempre fui com os meus pais aos museus, às igrejas.

A grande amizade dele pelo Sebastião da Gama era lindíssima, mas não cheguei a conhecê-lo, foi antes de eu nascer. Sempre que íamos à Arrábida, íamos ao cemitério de Azeitão rezar junto à campa dele.

Foi muito importante a seriedade do meu pai perante todas as situações. Uma coisa de dignidade íntima, de respeito e lealdade por si próprio. Sou incapaz de ser aldrabão, fui educado de outra maneira, não faço esforço nenhum. E fui muito antiquado até muito tarde. O meu regresso tem que ver com ele.

Porquê?

Ele era um católico rigorosíssimo e muito consciente. Viveu o Vaticano II como uma coisa essencial. Eu acompanhei tudo isso mas aconteceu o que acontece a muitas pessoas, que é ter de cortar com o pai. É hilariante o que se passava entre nós. Eu dizia-lhe: o pai é um sentimental, não se pode ser, nós somos racionais. E ele levava isto muito a sério, chegou a chorar - só me atacas, só me criticas! - e eu era inconsciente das coisas que estava a dizer.

O seu pai nunca se afastou da Igreja?

Afastou-se depois do 25 de Abril. Foi um período muito desnorteante para ele, ao ver-se confrontado com uma complexidade da vida política para a qual não estava preparado. Ele tinha uma preparação moral, não tinha uma preparação política. Para ele, PS, PCP, MRPP, era tudo pessoas. E quem tinha razão era ele. Afastou-se da Igreja e eu também, foi mais ou menos paralelo. E tal qual como lhe aconteceu a ele, mais ou menos na mesma idade, voltei. Há dez anos.

O que o fez voltar?

A aproximação do fim da vida e ter sabido que estava doente, com a mesma doença do meu pai, Parkinson. É a noção de que a vida começa a passar para um outro lado, e uma pessoa começa a querer dar um sentido ao que viveu. E sobretudo a querer dar um sentido à morte, a querer encarar a morte de frente. Espanto-me como é possível tanta gente não ter tido a necessidade de uma explicação para que a vida faça sentido. Só acho possível aguentar a ideia da morte com a ideia de que outros vão viver. A vida vai continuar e o que tu fizeste nesta terra tem uma consequência. No cristianismo dá--se um nome religioso - a ressurreição - a uma coisa que é verdade, quer se queira quer não. Uma pessoa, mesmo que viva num ambiente reduzido, exerceu influência sobre as outras que cá ficam. No caso das mulheres, deram à luz, a vida ressurgiu. Como tudo renasce na natureza. Vivo mal é com a noção de pecado e de castigo. Acho que não tenho de me arrepender de nada.

A sua amizade com o padre poeta Tolentino de Mendonça passa pelo regresso à religião?

O Tolentino apareceu-me mais ou menos nessa altura por uma série de acasos. É uma pessoa com quem me entendo muito bem porque tem o sentido da liberdade, do respeito pela liberdade de cada um. É a pessoa menos impositiva que se pode imaginar, mesmo em relação a si próprio. Encara o ofício de ser padre como se tivesse de inventá-lo. Acho admirável.

O Luís Miguel reza?

Ele pediu-me o prefácio para um livro dele sobre o que é a oração, onde explica o que cada um sabe rezar. Há uma grande diferença entre a oração concebida como uma prestação pública da fé que a pessoa professa e que quer anunciar aos outros, e uma reflexão íntima que é um estado de contemplação. Esse estado custa a conquistar, mas é indispensável para uma pacificação que outras pessoas conseguem repetindo frases que não foram escritas por elas e à medida do seu desenvolvimento intelectual. Não desprezo as pessoas que vão a Fátima, que fazem peregrinações a pé, andam de joelhos, fazem promessas. Não têm utilidade nenhuma naquilo. Elas pensam que têm, acreditam numa coisa que não têm razão para acreditar. Acreditam. E isto é um engrandecimento do ser humano para além da norma. Tudo o que seja tornar o homem maior é fazer justiça à criação e à própria existência de Deus como criador do homem. É a maneira de dar sentido à existência. Porque tudo é surpreendente, começamos a ver a vida de uma maneira diferente. Por que é que eu quis ser ator? É pela mesma razão.

E que é qual?

Ao fazermos determinados papéis, ou ao representarmos uma situação ficcionada, pomos a hipótese de ser outra coisa maior ou diferente. Estamos a alargar a nossa experiência de vida, nem que seja imaginária.

Mas tinha consciência disso, na altura em que decidiu ser ator?

A decisão consciente foi mais baseada num carácter lúdico, de continuar a ser criança, continuar a poder brincar ao faz de conta, descansar da angústia da realidade. Agora que vou ter de deixar de representar como representava, fico muito mais nervoso e angustiado, porque isto funciona como uma terapia. Quando estamos ali a representar estamos fora da vida. Estamos na vida que inventámos. É como nos sonhos, também é uma terapia.

A Cornucópia tornou-se a sua vida, a sua família?

Têm sido várias famílias, têm mudado conforme as gerações. Gosto imenso de misturar várias gerações. Houve duas pessoas muito importantes na criação de uma atmosfera calorosa, familiar, logo no princípio: a Glicínia Quartin e o Filipe La Feria. O Filipe era uma pessoa adorável. Também contribuíram muito para esse ambiente a Gina Santos, a Dalila Rocha, depois a Glória de Matos, a Cecília Guimarães, o Augusto Figueiredo, o Costa Ferreira. Passou por lá muita gente mais velha que ajudou a fazer esse espírito de família. Houve uma primeira fase até ao 25 de Abril, e depois a seguir ao 25 de Abril até à saída do Jorge Silva Melo.

A fase mais dura coincidiu com os anos 1980. Foi um horror, sentíamo-nos completamente isolados, sem contacto com a cidade. Pura e simplesmente, as pessoas não iam ao teatro. Foi uma altura de ressaca do 25 de Abril, toda a gente ficava em casa, uma tristeza. Isso criou outra família, correspondeu à fase do António Fonseca, do José Wallenstein, da Luísa Cruz, depois a Rita Loureiro e o José Airosa. E agora, desde que fizemos com o Conservatório uma semana de residência dos alunos, tive a sensação de uma revitalização formidável. São pessoas diferentes. Parecia que tinha entrado o sol naquela casa. De repente, fiquei um velho, um sábio muito respeitável que todos veneravam, muito amigos, com um nível de entendimento muito mais livre do que até agora. Tem sido fantástico.

A Cornucópia vai continuar?

Não pode nem deve continuar muito tempo. Teve sempre uma coerência e uma qualidade muito grandes. Custa-me fazer uma redução da qualidade que necessariamente acontecerá. As coisas têm um tempo. Não quer dizer que deixemos de trabalhar, mas estamos todos reformados, os mais velhos, e isso quer dizer alguma coisa. As pessoas acabaram a sua vida muito ativa, podem fazer coisas com mais cuidado.

Trabalha há imenso tempo com a cenógrafa Cristina Reis. Como é possível uma colaboração tão prolongada?

Conheci-a em casa do Ricardo Pais, quando éramos bolseiros da Gulbenkian em Londres, e era deslumbrante. Veio para Portugal mais tarde do que nós e um dia apareceu no Teatro do Bairro Alto, a ver o primeiro espetáculo que fizemos, Os Pequenos Burgueses [de Maximo Gorki]. Tirou fotografias lindas ao espetáculo, começou a namorar a casa, estávamos todos encantados com ela. Um dia, o Jorge Silva Melo teve a ideia de a convidar para fazer um cenário. Ela aceitou e ficou lá, primeiro como artista convidada, depois fez outra peça. Foi-se embora com o Jorge para a Alemanha quando o Jorge e eu nos zangámos, depois voltou para a Cornucópia, e passou a fazer parte da direção.

Vocês os dois são uma espécie de casal antigo.

Muito antigo. Somos muito amigos, mas não tem sido uma convivência fácil sempre, e sobretudo não tem sido uma colaboração sempre da mesma maneira. Não há uma receita, e isso é muito bom. Muitas vezes ela parte para o cenário depois de uma conversa pormenorizada comigo. Mas às vezes parece-me ridículo estar a explicar o óbvio. Agora com o Hamlet disse-lhe: "Não tenho ideia nenhuma. Só sei que sonhei com umas ameias, e como tu gostas de ameias e de castelos faz-me um castelo." Ela meteu-se sozinha em casa e daí a pouquíssimo tempo apareceu com uma maqueta que cria problemas gigantescos de encenação, tudo às fatias, sem comunicação umas coisas com as outras. Ela sabe que perante um cenário daqueles eu irei trabalhar de uma certa maneira, e que eu sei o que posso tirar dali. Com meia dúzia de correções, ficou aquilo logo. É um cenário fantástico, porque obriga a uma desconstrução da peça.

Nunca se limitou a ser só ator, fez sempre encenação. Como é que isso aconteceu?

No Grupo de Teatro de Letras fiz um espetáculo que teve tanto êxito - O Anfitrião - que acabou por ser a origem de tudo. Participei em dois espetáculos dirigidos por duas outras pessoas, mas a minha entrada mesmo foi logo a dirigir, a dirigir--me. E sempre que tenho convidado pessoas de fora para nos dirigir e me dirigir há um atrito terrível. Sofrem imenso, as outras pessoas, coitadas!

Porquê?

Porque eu recuso-me a fazer uma fita, a portar-me de uma maneira fingida para não magoar. Estamos a trabalhar em conjunto, digo o que penso. E penso muitas coisas. Opino a toda a hora. Eu sei que é um bocadinho desconfortável para os outros. Houve uma encenação que o Rui Mendes fez aqui, de As Três Irmãs, que tinha um elenco fortíssimo, tudo pessoas com muita personalidade: a Teresa Madruga, o José Wallenstein, a Luísa Cruz, a Márcia Breia. Só alguém que seja muito boa pessoa e muito generosa conseguia aturar tanta opinião, tanta gente a dar ordens e a dizer que queria fazer a cena assim e assado. E eu sempre a dar opiniões também.

Mas nunca se refreia, não se preocupa com o que sentem as pessoas que convidou? Faz o mesmo com os atores?

Tento não exigir, mas prefiro que o problema seja exposto. As pessoas às vezes assustam-se, porque parece que estou a ser muito bruto e a dizer coisas horríveis quando estou a dirigir os atores.

O ator que agora faz de Hamlet, o Guilherme Gomes, é um caso absolutamente excecional. É uma pessoa com um tipo muito raro de sensibilidade, com uma grande atenção aos textos, gosta muito de ler poesia, dizer poesia; é um príncipe, parece até um bocadinho antigo na forma de se relacionar com os outros, muito delicado, muito bem-educado. Eu disse-lhe coisas monstruosas no Íon, de Eurípedes, que ele fez connosco. A um ponto que o rapaz ficou destroçado de tristeza. Mas eu não estava a dizer-lhe nada contra ele. Antes pelo contrário, estava a ver se... eu gosto tanto dele que era a ver se conseguia que lhe entrassem na cabeça preocupações minhas sobre coisas que têm minado completamente a arte de representar noutros atores de quem eu gostei muito e que se deixaram levar.

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