Juncker: UE vai repensar proteção civil após fogos em Portugal

Presidente da Comissão Europeia manifestou um grande apreço pelo país e respondeu a 64 perguntas.

"Muito afetuoso para com Portugal". Foi assim que um conselheiro de Estado descreveu ao DN a intervenção do presidente da Comissão Europeia ontem no Conselho de Estado, em Belém. Jean-Claude Juncker falou cerca de 15 minutos e uma grande parte deles foi a demonstrar o quanto tem apreço pelo país. Enfatizou muito a questão dos recentes incêndios, que mataram 109 pessoas, e lembrou a solidariedade europeia para ajudar as zonas afetadas e as suas vítimas.

Num encontro prévio ao Conselho de Estado com o primeiro-ministro português, e depois com o Presidente da República, Juncker assegurou que Bruxelas está a rever todos os mecanismos europeus de proteção civil para que possam ser melhorados, na sequência dos incêndios que afetaram Portugal. O presidente da Comissão aproveitou a breve declaração à imprensa em São Bento para enviar condolências "às famílias, a todos os homens, mulheres e crianças que foram vítimas desta catástrofe natural". "Uma catástrofe que me toca pessoalmente, porque um dos meus concidadãos, da minha aldeia, morreu num fogo aqui em Portugal", acrescentou, depois de ter referido que a sua proximidade com Portugal nasceu do facto de ter presidido 18 anos ao governo do Luxemburgo, país onde 20% da população é portuguesa.

Pouco depois, em Belém, nas palavras que dirigiu ao Presidente da República e aos 19 conselheiros de Estado reiterou as mesmas ideias.

Depois do afeto a Portugal, o presidente da Comissão Europeia, segundo as mesmas fontes, abordou as questões mais política da União. Juncker reconheceu que a Europa esteve vários anos "num estado de esclerose", mas que neste momento está a recuperar ao nível económico e do desemprego. Recuperou ainda as suas propostas para o futuro da UE no pós-Brexit, já apresentadas em setembro. E considerou que estas reformas para serem eficazes têm de estar prontas num horizonte temporal de 10 a 12 meses, ou seja, até final do próximo ano.

Segundo as mesmas fontes, num ambiente cordial - sem sombra de crispação entre Presidente da República e primeiro-ministro - António Costa também fez um discurso muito afetuoso para com o "amigo" Juncker, a quem fez um grande agradecimento pelo apoio que deu aquando do dossier das sanções, à saída do procedimento por défice excessivo e no esforço que fez a explicar às agências de rating o ambiente de recuperação de Portugal. O agradecimento estendeu-se, como é óbvio, a todo o apoio dado na questão dos fogos.

Todos os conselheiros colocaram perguntas ao responsável europeu, que esteve praticamente três horas a registar 64 perguntas, entre Brexit, Catalunha, defesa europeia e Acordo do Mercosul, entre outros temas. Para ajudar a amenizar tão longa reunião os conselheiros tiveram direito a sandes e pastéis de nata.

"Não teve nenhuma novidade, mas foi um encontro muito interessante porque Jean-Claude Juncker é amigo de Portugal e a sua presença no Conselho de Estado ajudou a reforçar essa ligação política afetuosa com o nosso país", afirmou um conselheiro nacional ao DN.

Na nota informativa distribuída aos jornalistas no Palácio de Belém final do Conselho de Ministros deu conta de que o Conselho de Estado analisou com o presidente da Comissão Europeia "a situação, perspetivas e desafios" que se colocam no plano europeu e formulou um voto de pesar pelas vítimas dos incêndios deste mês. O Conselho de Estado "formulou um voto de profundo pesar pelos trágicos incêndios de 15 e 16 de outubro, evocando respeitosamente as vítimas e as suas famílias, manifestando ainda a sua solidariedade às populações afetadas". Por outro lado, "analisou a situação, perspetivas e desafios da União Europeia", lê-se no documento.

PR fala de compromissos

À hora do almoço, à margem do XX Seminário Nacional do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, o Presidente da República já tinha falado indiretamente das relações São Bento/Belém, ou melhor de si próprio e do primeiro-ministro. Marcelo Rebelo de Sousa considerou que a "solidariedade institucional" entre os vários órgãos de poder passa por estabelecer um "compromisso com os portugueses". O tempo atual é de "arregaçar as mangas" e de trabalhar para reforçar esse compromisso.

"A solidariedade institucional é mais do que franqueza, lealdade, informação, colaboração, entre níveis diferentes de poder e com responsabilidades diferentes. É até mais do que empatia ou amizade. Tudo isso existe, existiu e vai existir, mas a solidariedade institucional é, sobretudo, um compromisso com os portugueses", defendeu. "Neste momento em que todos já reconhecemos erros e fracassos" na gestão dessa matéria, o tempo é de "arregaçar as mangas e trabalhar". "Temos sete meses até ao próximo verão, menos de dois anos até ao fim da legislatura. E, portanto, é dar vida à solidariedade institucional ao serviço do mais importante, que é ao serviço dos portugueses", disse. Com Lusa

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